O que a China indica nas Duas Sessões além do PIB – 11/03/2026 – Mundo

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Principal encontro político do calendário chinês, as Duas Sessões se desenrolaram em Pequim na semana com sinalizações claras do que o governo pretende fazer: dobrar a aposta em investimentos estratégicos focados menos em turbinar o crescimento e mais em blindar o país contra turbulências globais.

Ao abrir a sessão anual do Congresso Nacional do Povo, o premiê Li Qiang fixou a meta de expansão do PIB em 4,5% a 5% para 2026, a mais baixa desde 1991.

O relatório do premiê deu destaque para a necessidade de “investir nas pessoas”, fórmula que entrou no novo Plano Quinquenal. Isso ajuda a explicar a tentativa de deslocar parte do investimento estatal para renda, qualificação profissional, apoio à natalidade, assistência a idosos e serviços públicos.

  • O governo manteve a meta de déficit em cerca de 4% do PIB, prometeu criar 12 milhões de empregos urbanos e elevou em 7% o orçamento de Defesa.

  • O gasto com pesquisa e desenvolvimento deve subir 10% neste ano, enquanto o investimento estatal em ciência e tecnologia deve chegar a quase ¥ 1,3 trilhão (R$ 903,5 bilhões).

O governo indicou esforços para dar mais base institucional a essa transição. Reguladores de mercado prometeram regras mais flexíveis para a listagem de empresas de tecnologia na Bolsa. Ao mesmo tempo, o Legislativo anunciou novas leis para reforçar a estabilidade financeira nacional. Em paralelo, o Banco Central prometeu que não pretende empreender uma estratégia coordenada de desvalorização competitiva do renminbi.

Por que importa: o sinal mais importante das Duas Sessões talvez não esteja na meta de crescimento, mas no esforço para institucionalizar a nova direção da economia chinesa. Durante décadas, o impulso ao crescimento esteve amparado nos setores de infraestrutura, indústria pesada e construção. A liderança agora vai tentar vender a noção de que consumo doméstico e bem-estar social também precisam ser tratados como questões estratégicas.


pare para ver

Selo postal chinês produzido em 1954 para comemorar a abertura do Primeiro Congresso Nacional do Povo.


o que também importa

★ Os EUA acusaram a China de abastecer cartéis com precursores químicos do fentanil na reunião anual da Comissão de Narcóticos da ONU em Viena na segunda. A diretora antidrogas da Casa Branca, Sara Carter, disse que controles de exportação frouxos permitem que a indústria chinesa forneça insumos aos cartéis. O enviado chinês Gao Wei negou as acusações e criticou o uso de tarifas e sanções como pretexto para interferir em assuntos internos de outros países.

O ministério do Comércio chinês alertou que o planeta está sob risco real de uma nova crise nas cadeias de semicondutores. Isso após a matriz holandesa da fabricante de chips Nexperia desativar contas de funcionários na China. O órgão afirmou que, se a medida provocar uma nova crise de abastecimento, “os Países Baixos deverão arcar com total responsabilidade” pelo problema. A tensão começou em setembro, quando o governo holandês retirou o controle da Nexperia de sua dona chinesa, a Wingtech, levando Pequim a impor controles de exportação que afetaram toda a indústria automotiva global. Os holandeses não responderam.

A Boeing está próxima de fechar seu maior pedido chinês em quase uma década. A encomenda de até 500 unidades do 737 MAX deverá ser anunciada durante a visita de Trump à Pequim. Segundo reportagem da agência de notícias Bloomberg na sexta (6), as negociações estão avançadas e incluem ainda cerca de 100 jatos de longo alcance, modelos 787 e 777X. A notícia fez as ações da empresa, às voltas com problemas operacionais e sucessivas crises de imagem desde 2023, subirem 3,7% na sexta-feira.


fique de olho

As exportações da China começaram em 2026 muito acima do esperado. Segundo o levantamento divulgado nesta terça pela Administração Geral das Alfândegas, as vendas externas subiram 21,8% em janeiro e fevereiro em relação ao mesmo período do ano anterior, enquanto as importações avançaram 19,8%.

O superávit comercial chegou a US$ 213,6 bilhões, recorde para o bimestre e bem acima das projeções do mercado.

Pequim usualmente divulga os dados de janeiro e fevereiro em conjunto para reduzir a distorção do Ano Novo Lunar, que muda de data a cada ano. Ainda assim, o salto foi forte demais para ser explicado só por esse efeito sazonal.

Segundo analistas, a demanda global por eletrônicos seguiu aquecida em meio ao boom de investimento em inteligência artificial. Houve também recuperação inesperada em segmentos mais tradicionais, como roupas, têxteis e bolsas, que tinham ido mal em 2025.

Os números reforçam uma tendência que já vinha aparecendo no fim do ano passado. Em 2025, a China fechou com superávit comercial recorde de quase US$ 1,2 trilhão, sustentado por exportações para mercados fora dos EUA como o Sudeste Asiático, África e América Latina.

Por que importa: a notícia é ótima para o cenário doméstico, mas indica que a China entrou 2026 mais dependente de sua máquina exportadora, justamente num momento em que o resto do mundo está menos disposto a absorver esse choque de oferta sem reagir.

O ponto menos óbvio aqui é que o problema não é apenas o tamanho do superávit, mas sua composição. Quando o impulso vem de eletrônicos, baterias, painéis solares e outros setores de maior complexidade industrial, a pressão competitiva sobre EUA e Europa fica mais sensível politicamente, o que aumenta a chance de novas barreiras comerciais.


para ir a fundo

A Universidade de Finanças e Economia de Shanghai abriu inscrições para o programa China Link que vai cobrir integralmente os custos de estudantes de graduação e pós por até um ano. Para se inscrever é preciso ter no máximo 45 anos e fluência em chinês ou inglês (a depender do programa). Interessados podem se candidatar até junho. Mais informações aqui.

O Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) realiza na quinta (12) às 10h, um evento virtual para discutir os desafios e as oportunidades para o comércio entre Brasil e China em um contexto de mudanças na economia chinesa e instabilidade no cenário internacional. O encontro será transmitido ao vivo pelo Zoom e pelo YouTube. Inscrições neste link.



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