Horas depois de os primeiros ataques aéreos de Israel e dos Estados Unidos atingirem o Irã, membros da Guarda Revolucionária se espalharam por bairros de Teerã e por grande parte dos centros urbanos do país.
Testemunhas e vídeos ocasionais publicados discretamente na internet mostravam homens à paisana, muitas vezes armados com fuzis Kalashnikov, montando postos de controle onde revistavam carros e celulares, atentos a sinais de apoio à guerra. Veículos pretos de repressão a distúrbios estavam estacionados em locais como pátios de escolas fechadas, considerados menos propensos a serem atingidos por mísseis.
“Eles tentaram criar para o exterior a ilusão de que estão no controle e, internamente, criar medo para que as pessoas não ousem sair às ruas”, disse Saeid Golkar, professor de ciência política da Universidade do Tennessee.
O presidente Donald Trump sugeriu que a Guarda abandone as armas para reforçar o apoio popular a uma mudança de regime. Analistas consideram esse cenário altamente improvável. O Irã pode parecer uma teocracia, e sua ideologia oficial está firmemente enraizada no islamismo xiita, mas a Guarda constitui a espinha dorsal de um Estado militarizado. Analistas consideram seu amplo poder militar, político e econômico o principal obstáculo a uma mudança de regime —ou a qualquer mudança— no país.
A seguir, um guia sobre esse poderoso grupo.
O que é a Guarda Revolucionária?
Nos primeiros dias da Revolução Islâmica de 1979, seu fundador, o aiatolá Ruhollah Khomeini, não confiava nas Forças Armadas tradicionais, conhecidas como Artesh (palavra persa para “exército”). Diz-se que ele comentou: “O Artesh tem o xá no sangue”.
Assim, organizou uma força armada paralela, a Guarda Revolucionária, encarregada especificamente de proteger a revolução. O núcleo do grupo era formado por membros de comitês de bairro —muitas vezes organizados em torno de mesquitas— criados para proteger suas áreas e eliminar inimigos percebidos da revolução.
A guerra de oito anos iniciada quando o Iraque invadiu o Irã em 1980 moldou a Guarda como uma força mais coesa. O grupo assumiu tarefas como a construção de um programa de desenvolvimento de mísseis praticamente do zero; os EUA, principal fornecedor de armas do país, haviam rompido relações após a revolução.
Após a morte de Khomeini em 1989, o novo líder supremo, Ali Khamenei, transformou a Guarda em uma força de elite, vinculando seu gabinete ao poder da organização e permitindo que ela se expandisse para a política e a economia.
A Guarda criou também um braço para administrar a reconstrução após a guerra com o Iraque. O grupo ainda constrói estradas, barragens e outras infraestruturas. Tornou-se também especialista em contrabandear mercadorias para dentro e fora do Irã, incluindo petróleo, em resposta às sanções econômicas ocidentais impostas após 2002, quando o programa nuclear iraniano —até então secreto— veio à tona.
Hoje, a Guarda controla pelo menos 25% da economia do país, talvez o dobro disso, segundo Behnam Ben Taleblu, pesquisador sênior da Foundation for Defense of Democracies, em Washington.
Ao derrubar Saddam Hussein em 2003, os EUA abriram espaço para que a Guarda expandisse sua atuação no Oriente Médio, usando sua Força Quds para construir um eixo de milícias majoritariamente xiitas em países como Líbano, Síria, Iraque, Iêmen e na Faixa de Gaza. A Guarda passou então a ser um ator central da política externa iraniana.
Como a Guarda está estruturada?
A Guarda conta entre 125 mil e 180 mil integrantes. Analistas estimam que o conjunto das forças de segurança do país chegue a até 1,5 milhão de pessoas, incluindo a polícia. Nem todos os membros da Guarda são combatentes; alguns atuam em áreas como construção ou programas culturais.
Há quatro principais ramos militares: forças terrestres, navais e aeroespaciais, além da Força Quds, responsável por operações externas. A Guarda também controla várias organizações aliadas, incluindo sua própria agência de inteligência e as milícias de bairro Basij.
A organização segue uma chamada estratégia “mosaico”, que surgiu tanto da observação do rápido colapso da autoridade central no Iraque durante a invasão americana de 2003 quanto da experiência doméstica de repressão ao Movimento Verde, os protestos nacionais contra o governo em 2009.
Essa estrutura de comando descentralizada foi concebida para garantir que a Guarda mantenha o controle interno caso as províncias sejam isoladas de Teerã ou para preencher qualquer vazio de poder na ausência do líder supremo, que é quem toma as decisões ao final.
Segundo analistas, a estratégia foi refinada novamente em junho passado para fortalecer a defesa do Irã contra um inimigo externo, após Khamenei ter sido alvo de uma guerra de 12 dias travada por Israel e pelos EUA.
“Eles estão agindo de acordo com o manual”, disse Hamidreza Azizi, pesquisador visitante do Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança, em Berlim. “O sistema está funcionando sem Khamenei.”
Embora sigam um plano central, comandantes regionais têm autonomia para decisões como quando lançar mísseis ou drones. Existem 31 comandos —um para cada província — além de unidades menores destinadas a sufocar protestos em praticamente todos os bairros.
Quem comanda a Guarda?
Ataques israelenses e americanos mataram dois comandantes da Guarda —um em junho e outro em 28 de fevereiro.
Um veterano oficial de linha dura com reputação de brutalidade, o general de brigada Ahmad Vahidi foi nomeado em 1º de março para chefiar a Guarda. Ex-ministro do Interior e da Defesa, ele foi um dos comandantes fundadores da Força Quds em 1988 e liderou essa unidade por oito anos.
Vahidi é suspeito de fomentar organizações no exterior responsáveis por ataques terroristas a mando do Irã, incluindo o atentado contra um centro comunitário judaico em Buenos Aires em 1994, que matou 85 pessoas. A Argentina, acusando Vahidi de aprovar o ataque executado pela milícia libanesa Hezbollah, tentou sem sucesso obter sua prisão via Interpol. O Irã nega repetidamente qualquer envolvimento.
O que pode acontecer a seguir
Mojtaba Khamenei, filho do falecido líder supremo e herdeiro político, alistou-se na Guarda durante a guerra contra o Iraque e mantém laços particularmente fortes com a organização. Como principal assessor do pai, ele nomeou seus oficiais superiores nas últimas duas décadas e hoje é considerado o favorito entre eles, segundo analistas.
Mas a Guarda não é monolítica. Embora alguns membros tenham ajudado a massacrar milhares de manifestantes em janeiro, ela também inclui conscritos —e seus soldados refletem a sociedade iraniana, onde muitos desprezam o sistema islâmico.
Ainda assim, um núcleo de cerca de 2.000 a 3.000 oficiais é visto como linha-dura, com status e riqueza ligados diretamente à organização. Segundo analistas, eles lutarão até o fim.




