O acordo de cessar-fogo entre o Irã e os Estados Unidos foi recebido com alívio ao redor do mundo. Mas o que vem a seguir está longe de ser previsível.
Ambos os lados declararam vitória após o anúncio do acordo, que foi mediado pelo Paquistão. O Irã afirma que permitirá a passagem segura de navios pelo estreito de Hormuz, um corredor crucial para o petróleo e gás mundial, se eles coordenarem com suas forças militares. O presidente Donald Trump havia ameaçado destruir “toda a civilização” do Irã caso o estreito não fosse reaberto.
Mas as empresas de navegação parecem hesitantes em retornar à hidrovia, pelo menos imediatamente. Ataques no Golfo continuaram nesta quarta-feira (8), horas após o acordo ser alcançado. Israel deixou claro que continuará sua campanha militar contra o Hezbollah no Líbano.
O que está no acordo?
Os Estados Unidos e o Irã concordaram em interromper os combates por duas semanas. O governo Trump quer que o petróleo, gás e outras commodities voltem a fluir pelo estreito, pelo menos temporariamente.
O acordo não encerra a guerra, mas a esperança é que ele dê tempo para ambos os lados negociarem um acordo de paz de longo prazo. Os investidores pareceram otimistas: os preços do petróleo caíram acentuadamente com a notícia, enquanto as bolsas asiáticas dispararam na manhã de quarta-feira.
Mas horas após o anúncio, houve ataques na região do Golfo. Não estava claro com que rapidez a notícia do acordo havia chegado aos comandantes locais iranianos, que têm autonomia para tomar suas próprias decisões de ataque sob o sistema de controle descentralizado do Irã.
O que levou ao acordo?
Trump vinha escalando suas ameaças hà dias. Ele disse repetidamente que destruiria as usinas de energia e a infraestrutura civil do Irã se o país não reabrisse o estreito de Hormuz.
Na terça-feira (7), ele levou a retórica um passo adiante: “Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais voltar”, escreveu nas redes sociais. Atacar deliberadamente infraestrutura civil para coagir um governo é crime de guerra.
Forças americanas e israelenses também pressionaram o Irã com ataques: os americanos lançaram mais de 90 ataques à ilha de Kharg, principal centro de exportação de petróleo do Irã, enquanto Israel bombardeou ferrovias e pontes em todo o país.
Enquanto Trump ameaçava o Irã, o Paquistão trabalhava para mediar um acordo.
E deu certo. Trump anunciou o acordo nas redes sociais, pouco mais de uma hora antes do prazo que havia estabelecido para terça-feira, às 21h (horário de Brasília).
O que pode vir a seguir: O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, disse que convidou delegações americanas e iranianas para conversas em Islamabad na sexta-feira (10).
O Líbano está incluído?
A confusão tomou conta do Líbano sobre se o país fazia parte do acordo.
O Paquistão disse que sim. Mas Israel afirmou que o cessar-fogo não se aplicava ao seu vizinho do norte, onde forças terrestres israelenses têm combatido o Hezbollah, milícia apoiada pelo Irã. Trump fez a mesma afirmação horas depois, excluindo Beirute da trégua, a despeito do que dizem os mediadores.
Nesta quarta-feira, o Exército de Israel disse que realizou uma ofensiva contra cerca de cem alvos do Hezbollah em diversas regiões do Líbano, incluindo a capital, o Vale do Beqaa, no leste, e o território ao sul, descrevendo a operação como o “maior ataque” à infraestrutura do grupo desde o início da guerra.
O Ministério da Saúde libanês fala em dezenas de mortos e feridos, e o Irã ameaçou se retirar do acordo caso os ataques ao Líbano não sejam interrompidos.
O estreito de Hormuz será reaberto?
O Irã diz que sim. Mas permanecia incerto se os operadores de navios consideravam o estreito seguro para trânsito. O gigante do transporte marítimo Maersk disse na quarta-feira que estava analisando o acordo. “O cessar-fogo pode criar oportunidades de trânsito, mas ainda não oferece total certeza marítima, e precisamos entender todas as condições envolvidas”, disse em comunicado.
A agência iraniana Fars afirma que um número incerto de petroleiros teve a passagem novamente impedida no estreito de Hormuz. Ainda não está claro o escopo desta ação, mas ela mostra as dificuldades em campo.




