Enquanto escrevo estas palavras, o presidente dos Estados Unidos ameaça uma civilização inteira — palavras dele— de morte. “Não gostaria que isso acontecesse”, diz, “mas pode acontecer”. Ao ler essa fala, lembro-me de uma das primeiras descrições da excelência na liderança política, escrita precisamente sobre a civilização ameaçada. O autor foi Xenofonte, grego, aluno de Sócrates e mercenário na guerra contra o imperador persa Artaxerxes.
Xenofonte escreveu sobre liderança na Ciropédia (“A educação de Ciro”), um dos romances de formação e conselhos a príncipes mais célebres da Antiguidade, livro preferido de Alexandre, o Grande, a Júlio César.
Eram três as principais qualidades de Ciro, o Grande, para a liderança dos persas. Primeira: ter feito o serviço militar duro a que eram sujeitos os jovens persas, dormindo ao relento com seus colegas, passando frio e fome, adquirindo a autoridade moral para, ao mandá-los à guerra, saberem que ele sabia o que era sofrer nela. Segunda: a observação atenta dos humanos antes de comandar. Terceira: a capacidade pedagógica.
Ciro nem sempre se comportava bem —chantageava, ameaçava—, mas depois sabia explicar aos seus subordinados o que fizera e por quê. Além de imperador, era professor.
Ao olhar para a liderança mundial hoje, é forçoso concluir que essas qualidades foram substituídas pelo seu oposto. Donald Trump é um imperador que manda tropas à guerra tendo ele próprio mentido para escapar de uma; sem capacidade de observar seres humanos além da própria vaidade; incapaz de explicar os objetivos de uma guerra que já declarou ter vencido várias vezes, mesmo continuando a precisar ameaçar o Irã com a obliteração civilizacional.
E, no entanto, este grau zero do progresso moral convive com um dos momentos mais extraordinários da nossa história: a missão Artemis, que deu uma volta espacial em torno da Lua, com cooperação de dezenas de países e tripulação multinacional —há na nave dos EUA módulos da Agência Espacial Europeia, instrumentos japoneses e uma tripulação multiétnica e multinacional.
Ao contrário das missões lunares anteriores, feitas em contexto de competição, esta acontece em contexto de cooperação. Somando-se aos avanços recentes em inteligência artificial e tradução simultânea, poderia augurar um salto para o entendimento humano —cumprindo o velho sonho cosmopolita.
Não sei se amanhã, na hora em que o leitor ler esta crônica, terá havido obliteração civilizacional. Mas sei que ontem humanos, pela sua capacidade de entendimento, deram uma volta à lua.
Edgar Mitchell, astronauta da Apollo 14, dizia que, ao ver a Terra do espaço, a política internacional parecia mesquinha, e que dava vontade de agarrar um político pelo colarinho, arrastá-lo 400 mil quilômetros até à Lua e dizer-lhe: “Olha para isto, filho da mãe.”
As fotografias que a Artemis nos traz hoje são incomparavelmente melhores do que as de 1971 —talvez o efeito, desta vez, possa ser mais forte, e impelir-nos para aquilo que Kant dizia ser a missão mais difícil da humanidade: o entendimento cosmopolita.




