Um desconhecido cultivador de ostras e veterano militar do estado do Maine atraiu atenção nacional, na semana passada, ao se lançar candidato ao Senado. Graham Platner quer derrotar a senadora republicana Susan Collins. O eloquente vídeo de anúncio da campanha do ex-fuzileiro naval acumulou 4,4 milhões de visualizações na plataforma X em 6 dias e ele passou a dar entrevistas com uma referência cultural acessível para os eleitores: os EUA atravessam uma nova Gilded Age (idade dourada).
Longe de ser um termo positivo, trata-se das décadas finais do século 19, quando a acumulação de renda e a corrupção política concentraram poder excepcional nas mãos de poucos e a ostentação da riqueza era a norma. O período inspirou a série de sucesso do canal HBO que está na terceira temporada.
Mas o poder na mira de Platner não é composto de banqueiros de cartola ou empresários construindo ferrovias. É o baronato do Vale do Silício que, na última década, fez um strip-tease ideológico sem deixar nada para a imaginação. Democracia para esta casta antes aliada a Barack Obama tornou-se uma inconveniência, como caspa a ser escovada de um paletó preto. O poder dos empresários do Vale hoje sobre a política americana ainda não é compreendido pela maioria do público.
As tropas instaladas por Elon Musk para demolir a infraestrutura do serviço público operam em segredo, raras vezes interrompido por denúncias como a mais recente, de que os dados de milhões de beneficiários da previdência americana foram copiados para um site vulnerável a ataques de hackers.
Mesmo o ruidoso rompimento do bromance de Musk com Donald Trump, longe de ter assustado a opaca hierarquia tech desfrutando de favores sem precedentes no atual governo, serviu para refinar estratégias. A lição aprendida foi: sejamos mais discretos e menos alucinados em público. Nada de levar o filho de 5 anos para tirar meleca diante das câmeras no Salão Oval.
O casamento de interesses entre o empresário nova-iorquino e o empresariado da Costa Oeste é frequentemente explicado como ancorado em filosofias de direita.
Uma explicação mais provável sugere que a lua de mel do público e da imprensa com a era digital foi interrompida quando ficou claro que inovações consideradas democráticas, como a rede social, aceleraram uma distopia oligárquica e se transformaram em usinas de solidão, doença mental, sabotagem política e tráfico sexual. O otimismo virou decepção global e gente como Mark Zuckerberg —desprezado por três quartos dos americanos— tomou a impopularidade como insulto pessoal.
A indústria que a maioria dos deputados e senadores é tecnicamente despreparada para enfrentar com legislação e que financiou a eleição do presidente parece menos movida por convicção política do que pelo furor de esmagar qualquer regulação. Por isso, considera natural apoiar um golpe num país como o Brasil.
A indústria tech tem em Trump um aliado que cultiva com a fidelidade do Amigo da Onça. Musk, o incel temporariamente exilado, confirmou que não vai mover uma palha para viabilizar seu novo partido político. Vai colocar a fortuna para eleger o compadre que ele forçou a campanha republicana de 2024 a instalar na chapa. A partir de agora, todas as fichas serão apostadas em J. D. Vance para presidente em 2028.