Era mais do que esperado que o premiê da Hungria, Viktor Orbán, repetisse exaustivamente a frase “Make Europe Great Again” —faça a Europa grande de novo— diante dos líderes europeus que se reuniram nesta sexta-feira (8) no Estádio Ferenc Puskas, em Budapeste.
O tema da cúpula marcada havia meses era para ser economia e produtividade. O encontro acabou tratando do slogan criado por Orbán quando assumiu a presidência rotativa na União Europeia. Seu MEGA é uma adaptação do MAGA, “Make America Great Again”, de Donald Trump.
Orbán passou a semana comemorando a vitória do aliado americano. Meses atrás, havia prometido celebrar com champanhe. Trocou por vodca, pois quando o resultado da eleição americana foi anunciado, na quarta-feira (6), o premiê húngaro estava em visita ao Quirguistão –”e lá os costumes são diferentes”, disse.
De volta a Budapeste, deu o tom da cúpula já na quinta-feira (7), ao comentar a questão da Guerra da Ucrânia num encontro com jornalistas: “Os europeus estão cada vez menos dispostos a financiar uma guerra que eles não entendem exatamente e cuja duração ninguém pode prever”. A posição de Orbán contraria frontalmente a da União Europeia no assunto e foi classificada pelo presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, de irresponsável.
Já há algum tempo, Orbán atua como porta-voz do presidente russo Vladimir Putin na UE, como disse a historiadora e jornalista americana Anne Applebaum em entrevista à Folha. Sempre que pode, ele barra ou dificulta a concessão de ajuda militar a Kiev.
Desde o anúncio do triunfo de Trump, porém, o húngaro parece querer envergar um segundo chapéu: o de porta-voz do presidente eleito dos EUA. Na mesma entrevista, ele disse que o resultado das eleições significa que “o mundo está mudando” e que a Europa precisa se adaptar aos novos ventos.
Os dois temas mais discutidos na cúpula foram, informalmente, a Guerra da Ucrânia e, formalmente, a agenda de produtividade.
A última se torna mais urgente diante da ameaça trumpista de erguer barreiras alfandegárias contra produtos estrangeiros. Elas atingiriam em cheio as exportações europeias e, com mais fúria ainda, os produtos chineses —que buscariam expandir seus mercados na Europa, entre outros lugares.
“Não pergunte mais o que os EUA podem fazer por você, mas o que a Europa pode fazer por si própria”, disse a premiê italiana Giorgia Meloni na ocasião, parafraseando a famosa máxima de John Kennedy e resumindo o espírito do encontro.
A relação de Orbán com Trump vem de longa data. Steve Bannon, ex-estrategista do presidente americano, considera o húngaro, que está no poder desde 2010, o “Trump antes de Trump”.
Eles também se encontram com frequência. O premiê húngaro é o representante da Conferência de Ação Política Conservadora (Cpac), entidade que apoia o presidente americano e se tornou uma espécie de braço ideológico do trumpismo, na Europa. O encontro da Cpac no continente ocorre anualmente em Budapeste, num auditório em forma de baleia às margens do rio Danúbio, a menos de 20 minutos de carro do lugar onde os líderes europeus se reuniram nesta sexta-feira.
A cúpula de Budapeste endossou as propostas do italiano Mario Draghi, ex-presidente do Banco Central Europeu que em setembro produziu um diagnóstico sombrio sobre a economia europeia. Segundo ele, se não reduzir a burocracia, incentivar a inovação e criar um mercado de capitais robusto, entre outras coisas, a Europa corre o risco de ficar sem dinheiro para financiar seu invejado Estado de bem-estar social. As reformas, no entanto, custam dinheiro, e o continente ainda tem que arcar com os orçamentos da transição energética e da Guerra da Ucrânia.
Nas contas de Draghi, a União Europeia teria que aumentar seu investimento em 800 bilhões de euros anuais (R$ 4,9 trilhões na cotação atual). O italiano sugere uma emissão de dívida conjunta, procedimento semelhante ao adotado na emergência da pandemia.
A solução divide os europeus, e sua discussão ficou para uma próxima rodada. Em Budapeste, restou a convicção de que a eleição americana pendura adagas sobre as cabeças dos líderes do continente. Orbán e Trump podem estar perfeitamente alinhados em seus slogans, mas nada atrapalha mais o MEGA de um do que o MAGA do outro.




