A Suprema Corte do Panamá decidiu anular os contratos que permitiam a uma subsidiária da CK Hutchison, conglomerado sediado em Hong Kong, operar os portos de Balboa e Cristóbal, nas duas extremidades do Canal do Panamá.
A decisão veio após meses de pressão aberta do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que desde o primeiro dia de seu novo mandato passou a afirmar que a China exercia controle sobre o canal e a ameaçar “retomar a infraestrutura” estratégica, mesmo sem apresentar provas de ingerência chinesa na sua operação.
O governo panamenho tentou conter os efeitos da decisão, prometendo continuidade operacional, preservação de empregos e uma transição ordenada, enquanto a China denunciou a decisão como coerção política. Washington, ao contrário, não disfarçou a comemoração: o secretário de Estado, Marco Rubio, tratou o veredito como um passo necessário para conter a influência chinesa no Hemisfério Ocidental, enquanto parlamentares republicanos falaram em vitória estratégica.
Para além de um embate jurídico, o caso expõe uma mudança profunda no ambiente em que países latinos tomam decisões sobre ativos estratégicos. É mais um exemplo desde o retorno de Trump à Casa Branca que invariavelmente obriga a região a considerar o custo político externo de parcerias até então majoritariamente comerciais.
A acusação de Trump acerca do controle chinês é completamente descabida. Pequim, de fato, tinha dois contratos para construção de pontes por lá, e a CK Hutchinson, uma empresa honconguesa que administra portos também por toda a Europa (onde, curiosamente, o fantasma da influência chinesa não pareceu incomodar tanto Washington) apenas geria portos em ambas as pontas do canal.
Também vale mencionar que mesmo antes das reclamações do presidente americano, os panamenhos não estavam felizes com a forma como a concessão foi renovada em 2021, em um processo sigiloso e sob fortes evidências de prejuízo financeiro para o país em prol do conglomerado de Hong Kong.
Mas tudo isso parece pequeno diante do “timing” e da forma como as autoridades locais administraram o custo político da parceria, mais um sinal de erosão da previsibilidade tão central para investimentos em infraestrutura.
O precedente importa mais do que o detalhe técnico da decisão. Em um cenário assim, qualquer investidor passa a precificar não apenas a saúde econômica do projeto, mas a disposição do país em sustentar acordos diante de pressões externas. É um movimento que ocorre no momento em que Pequim já vinha reduzindo os grandes financiamentos de infraestrutura pesada no exterior.
Diante de uma economia doméstica mais frágil, a China tem reduzido o ciclo de empréstimos bilionários para portos, ferrovias e hidrelétricas, priorizando projetos menores, com retorno mais previsível, menor exposição política e riscos financeiros mais controlados. Na América Latina, os dados mostram queda clara desses financiamentos desde meados da década passada.
O caso panamenho tende a acelerar esse movimento. Se, além dos riscos econômicos tradicionais, investidores chineses passam a incorporar a possibilidade de reversão contratual por pressão política estrangeira, a reação racional é reduzir exposição em setores sensíveis.
Ao transformar a infraestrutura latino-americana em campo aberto da rivalidade geopolítica, os Estados Unidos contribuem para aumentar o custo do capital na região. Menos investimento de longo prazo significa mais gargalos, menos crescimento e maior dependência de financiamento caro. E a gente que se lasque.




