Pela primeira vez desde o auge da Guerra Fria, Rússia e Estados Unidos não têm mais qualquer tratado de controle de armas nucleares em vigor. Nesta semana expirou o Novo Start, o último acordo que ainda limitava os arsenais estratégicos das duas maiores potências nucleares do mundo, garantindo inspeções mútuas e alguma previsibilidade em um equilíbrio sempre precário.
Donald Trump disse preferir deixar o tratado expirar a renová-lo nos moldes atuais, apostando na possibilidade de negociar um novo acordo trilateral que incluísse a China, cuja expansão nuclear acelerada preocupa Washington. A proposta soa ambiciosa, até visionária. O problema é que ela não vai acontecer.
A razão principal está na forma como Pequim enxerga seu lugar no sistema internacional. A liderança chinesa avalia que seu arsenal ainda é pequeno diante dos rivais. EUA e Rússia mantêm cerca de 1.700 ogivas estratégicas implantadas cada um, e milhares em reserva. A China possui algo de 600 a 650 ogivas, e aceitar limites agora significaria congelar uma desvantagem que os chineses consideram inaceitável em um ambiente de rivalidade crescente.
Imagens de satélite revelaram a construção de cerca de 320 novos silos de mísseis balísticos no oeste chinês. Parte pode estar vazia, mas mesmo silos sem mísseis forçam o adversário a gastar mais ogivas em qualquer plano de ataque, o que fortalece a dissuasão. O míssil DF 41 tem alcance intercontinental e pode levar ogivas múltiplas.
A Marinha chinesa também opera seis submarinos lançadores de mísseis nucleares e busca modelos mais silenciosos. A Força Aérea testa um bombardeiro furtivo de longo alcance. Esses investimentos indicam busca por paridade futura, não por contenção negociada.
Potências em ascensão raramente aceitam amarras quando ainda ampliam capacidades, e a cultura estratégica e política chinesa, em que transparência e inspeções são vistas como riscos à segurança do regime, não como medidas de confiança, dificultam qualquer possibilidade de acordo num futuro próximo.
Pequim já suspendeu diálogos nucleares com Washington por disputas políticas envolvendo Taiwan. Se conversas técnicas são interrompidas por crises diplomáticas, imaginar um tratado robusto com verificações intrusivas parece pouco realista.
A decisão americana de abandonar limites verificáveis com a Rússia na esperança de um pacto maior produz efeito contrário ao discurso de prudência. Sem tetos legais, Moscou e Washington podem ajustar forças conforme percepções de ameaça, e cada movimento de um lado alimenta suspeitas do outro. O mundo ainda abriga algo em torno de 12 mil ogivas nucleares, o suficiente para destruir o planeta inteiro algumas dezenas de vezes.
O cenário torna-se mais delicado com sistemas de alerta acelerados por inteligência artificial. Quanto menor a confiança, maior a pressão por respostas rápidas. Quanto mais rápidas as respostas, menor o tempo para avaliar erros.
Tratados não eliminam rivalidades, mas criam rotinas de comunicação e dados compartilhados que reduzem enganos. Ao abrir mão disso sem alternativa concreta, Rússia e EUA estão aumentando o risco global.
Uma estratégia responsável reconheceria que incluir a China é objetivo de longo prazo, não condição imediata. Manter limites com a Rússia, ampliar medidas de redução de risco e construir transparência gradual com Pequim seria caminho mais sólido.
Apostar tudo em um grande acordo improvável soa ousado na retórica, mas, na prática, enfraquece o que ainda funcionava em uma seara em que pagar para ver costuma ser perigoso demais.




