Em seu discurso após o primeiro turno das eleições em Portugal, André Ventura, presidente do Chega —partido que representa a ultradireita no país– reivindicou a liderança do campo conservador, visto que seu concorrente no segundo turno seria o socialista António José Seguro.
O que se viu nos primeiros dias depois da eleição, no entanto, foi uma revoada de políticos de direita na direção do candidato que, no pleito presidencial, representa a esquerda moderada.
Nesta segunda-feira (26) foi a vez de Aníbal Cavaco Silva, 87, uma espécie de patriarca da direita portuguesa. Ele foi o primeiro líder desse campo político a ser eleito e reeleito presidente de Portugal, cumprindo mandato de 2006 a 2016. Antes disso, havia sido primeiro-ministro de 1985 a 1995, o que faz dele o premiê mais longevo desde a redemocratização portuguesa.
O apoio de Cavaco se soma ao dos presidentes da Câmara (o cargo em Portugal equivale ao de prefeito no Brasil) de Lisboa e do Porto, ambos do Partido Social Democrata (PSD), de centro-direita. Mariana Leitão, da legenda Iniciativa Liberal (IL), e Paulo Portas, um dos quadros históricos do partido CDS-PP, que representa a direita conservadora, também declararam voto no socialista.
A adesão de representantes da direita a um político de esquerda constitui um tipo peculiar daquilo que a ciência política chama de “cordão sanitário”.
“Esse fenômeno, típico dos parlamentarismos europeus, ocorre quando partidos de esquerda e de direita cruzam fronteiras ideológicas e se unem para evitar a ascensão de posições extremas“, afirma o cientista político peruano Carlos Meléndez, especialista em ultradireita e em rejeição eleitoral.
“A novidade em Portugal é que a adesão dos políticos de direita se deu quando as pesquisas apontaram uma rejeição muito grande de André Ventura. Ou seja, foi um ‘cordão sanitário’ formado de baixo para cima”, diz Meléndez. Um levantamento inicial sobre o segundo turno, divulgado na semana passada pela Universidade Católica de Lisboa, apontou Seguro com 70% dos votos válidos contra 30% de Ventura.
Para o cientista político português António Costa Pinto, autor do livro “O regresso das ditaduras?”, a direita apoia Seguro porque teria muito a perder com a vitória de Ventura. “Ele poderia usar seus poderes presidenciais para favorecer a hegemonia dos radicais sobre os moderados no campo da direita. A Constituição não veda que um presidente de partido possa ser presidente da República”.
Na visão de Costa Pinto, Ventura seria um presidente “interventivo” –em Portugal, é o primeiro-ministro quem governa, e o presidente na prática é uma espécie de poder moderador. “Ventura poderia introduzir algum tipo de subversão institucional, usando seu poder de agenda e também a arma da dissolução do Parlamento. O semipresidencialismo português é um sistema fluido.”
A debandada fez com que Ventura mudasse sua estratégia de campanha. Em vez de reivindicar a liderança no campo conservador, Ventura radicalizou o discurso de candidato antissistema, espalhando pelo país outdoors com os dizeres: “Quando estão todos contra um homem é porque (ele) está no caminho certo”.
“Se Ventura tiver mesmo 30% dos votos válidos, sairá da eleição do mesmo tamanho que entrou”, diz Costa Pinto, referindo-se ao fato de que o Chega obteve desempenho semelhante no pleito parlamentar. “Se chegar a 40% Ventura poderá dizer que está ganhando novos eleitores.”
Para Carlos Meléndez, o objetivo de Ventura é exatamente este: crescer no eleitorado antissistema. “É uma estratégia arriscada. A ultradireita europeia está há anos lutando contra os cordões sanitários, em geral sem sucesso. Na França, o Reagrupamento Nacional de Marine Le Pen e Jordan Bardella levou três gerações para reduzir a rejeição.”
Ventura vem perdendo o apoio da direita portuguesa mas consegue suporte fora do país. Eduardo Bolsonaro fez um post em suas redes sociais parabenizando os que “apoiam o Partido Chega”. Na legenda da foto –em que o deputado brasileiro abraça Ventura e Santiago Abascal, líder do Vox, a sigla que representa a ultradireita espanhola– lê-se em castelhano: “Vamos a derrotar al socialismo”.




