O líder de fato da Arábia Saudita, o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, conhecido como MbS, tem pressionado o presidente Donald Trump a continuar a guerra contra o Irã sob o argumento de que a campanha militar EUA-Israel representa uma “oportunidade histórica” para remodelar o Oriente Médio, segundo pessoas informadas por autoridades americanas sobre as conversas.
Em uma série de diálogos na última semana, o príncipe herdeiro disse a Trump que ele deve avançar rumo à destruição do regime linha-dura do Irã, disseram as pessoas familiarizadas com o assunto.
Segundo essas pessoas, MbS argumentou que o Irã representa uma ameaça de longo prazo ao Golfo Pérsico que só pode ser eliminada com a derrubada do regime.
O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, também vê o Irã como uma ameaça de longo prazo, mas analistas dizem que autoridades israelenses provavelmente veriam um Estado iraniano falido, ocupado demais com turbulências internas para ameaçar Israel, como uma vitória, enquanto a Arábia Saudita vê um Estado falido no Irã como uma ameaça direta e grave à segurança.
Mas altas autoridades tanto do governo saudita quanto do americano temem que, se o conflito se arrastar, o Irã possa desferir ataques cada vez mais devastadores às instalações petrolíferas sauditas, e os Estados Unidos possam ficar presos em uma guerra sem fim.
Trump tem oscilado entre sugerir que a guerra poderia terminar em breve e sinalizar que ela se intensificaria. Na segunda (23), o presidente publicou nas redes sociais que seu governo e o Irã haviam feito “conversas produtivas sobre uma resolução completa e total de nossas hostilidades”, embora o Irã tenha contestado a ideia de que negociações estivessem em andamento.
As consequências da guerra para a economia e a segurança nacional da Arábia Saudita são enormes. Ataques iranianos com drones e mísseis, lançados em resposta aos ataques de EUA e Israel contra o Irã, criam perturbações no mercado de petróleo.
Autoridades sauditas rejeitaram a ideia de que MbS tenha pressionado Trump para prolongar a guerra.
“O reino da Arábia Saudita sempre apoiou uma resolução pacífica para este conflito, mesmo antes de ele começar”, escreveu o regime saudita em comunicado, mencionando que as autoridades “permanecem em contato próximo com o governo Trump.
“Nossa principal preocupação hoje é nos defender dos ataques diários contra nosso povo e nossa infraestrutura civil”, acrescentou o regime. “O Irã escolheu uma política arriscada e perigosa em vez de soluções diplomáticas sérias. Isso prejudica todas as partes envolvidas, mas nenhuma mais do que o próprio Irã.”
Trump às vezes parece disposto a encerrar a guerra, mas MbS argumentou que isso seria um erro, disseram as pessoas informadas sobre as conversas, e pressionou por ataques contra a infraestrutura energética do Irã para enfraquecer o regime em Teerã.
Esta reportagem foi produzida com base em entrevistas com pessoas que conversaram com autoridades americanas e que descreveram as discussões sob condição de anonimato devido à natureza sensível das conversas. O jornal The New York Times entrevistou pessoas com opiniões diversas sobre a guerra e sobre o papel do príncipe herdeiro MbS em aconselhar Trump.
A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse que o governo americano “não comenta as conversas privadas do presidente”.
MbS, um integrante autoritário da realeza que liderou uma repressão à dissidência, é respeitado por Trump e já influenciou as decisões do presidente em outras ocasiões. O príncipe herdeiro argumentou que os Estados Unidos deveriam considerar enviar tropas ao Irã para tomar a infraestrutura energética e forçar a saída do regime do poder, segundo as pessoas informadas por autoridades americanas.
Nos últimos dias, Trump tem considerado mais seriamente uma operação militar para tomar a Ilha de Kharg, o centro da infraestrutura petrolífera do Irã. Tal operação, com forças aerotransportadas do Exército ou um assalto anfíbio dos Fuzileiros Navais, seria considerada imensamente perigosa.
A visão saudita sobre a guerra é moldada tanto por fatores econômicos quanto políticos. Desde que a guerra começou, os ataques retaliatórios do Irã praticamente bloquearam o estreito de Hormuz, prejudicando a indústria energética da região. A maior parte do petróleo da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes Unidos e do Kuwait precisa passar pelo estreito para chegar aos mercados internacionais.
Embora a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos tenham construído oleodutos para contornar o estreito, essas rotas alternativas também têm sido atacadas.
Analistas familiarizados com a estratégia do regime saudita dizem que, embora o príncipe herdeiro provavelmente preferisse evitar uma guerra, ele está preocupado que, se Trump recuar agora, a Arábia Saudita e o resto do Oriente Médio ficarão sozinhos para enfrentar um Irã encorajado e furioso.
Nessa visão, dizem eles, uma ofensiva inacabada exporia a Arábia Saudita a frequentes ataques iranianos. Tal cenário também poderia deixar o Irã com o poder de fechar periodicamente o estreito de Hormuz.
“As autoridades sauditas certamente querem que a guerra termine, mas como ela termina importa”, disse Yasmine Farouk, diretora do projeto Golfo e Península Arábica do International Crisis Group
Após a decisão de Trump de ir à guerra, o Irã respondeu disparando milhares de mísseis e drones contra países da região, inviabilizando seus esforços para trazer Teerã para sua esfera de influência, disseram autoridades do Golfo.
“A pouca confiança que existia antes foi completamente destruída”, disse o ministro das Relações Exteriores da Arábia Saudita, o príncipe Faisal bin Farhan, a repórteres na semana passada.
Alguns analistas de inteligência do governo disseram acreditar que o príncipe herdeiro MbS vê a guerra como uma oportunidade para aumentar a influência da Arábia Saudita em todo o Oriente Médio, e que ele acredita que seu país pode se proteger mesmo se a guerra continuar.
Em conversas com o príncipe herdeiro, Trump levantou preocupações sobre o preço do petróleo e os danos que está causando à economia. O líder saudita disse que isso é apenas temporário, segundo pessoas informadas por autoridades americanas.




