Prisão de Maduro não deve ter efeito no tráfico de drogas – 10/01/2026 – Mundo

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A prisão de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, apresentada por Washington como parte de uma ofensiva contra o crime organizado, tende a ter, no médio prazo, impacto limitado —ou nulo— sobre as atividades do Tren de Aragua (TDA), a organização criminosa venezuelana que se expandiu pela América Latina nos últimos anos.

Pesquisas sugerem que o grupo não opera como um braço do ditador deposto da Venezuela, mas ganhou força graças à colaboração de militares integrantes do regime e da omissão interessada de Maduro.

O tráfico internacional de cocaína na região se organiza hoje em uma estrutura de governança em forma de ampulheta: no centro, poucos atores concentram grande poder; nas extremidades, muitos produtores e varejistas operam com pouca influência. Esse mercado triplicou de tamanho na última década.

“O PCC é hoje um dos atores do centro dessa estrutura, que funciona como uma plataforma e controla cadeias de valor”, afirma Gabriel Feltran, diretor de pesquisas do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS) e professor do SciencesPo, que estuda a facção paulista.

A Venezuela é um dos países com maior presença do PCC na América Latina. De acordo com a pesquisa de Feltran, a organização pode fornecer a infraestrutura que permite a grupos de atuação mais restrita —como o TDA e outros “trenes” venezuelanos— exportar cocaína a partir do país, principalmente para a Europa, segundo dados da ONU.

Segundo ele, há evidências que indicam a participação de militares venezuelanos no tráfico internacional, assim como há corrupção de agentes públicos no Brasil, América Central e mesmo na Europa.

O TDA passou de gangue local, surgida no presídio de Tocorón, no estado de Aragua, a uma organização criminosa transnacional que se espalhou pelo continente junto com os fluxos migratórios de refugiados venezuelanos, mais intensos a partir de 2018.

“Resumo o funcionamento do TDA em três princípios: concentração do poder, domínio territorial e diversificação criminal. É uma organização prisional, hierárquica e muito violenta”, afirma o criminólogo peruano José Luiz Peres Guadalupe, autor do livro “El Tren de Aragua y la Criminalidad en América Latina”.

A exceção, diz ele, são os EUA, para onde migraram alguns integrantes que se dedicam a crimes variados, mas onde não exercem controle territorial. Países como Peru e Chile, que não tinham histórico de organizações com esse grau de violência territorial, tornaram-se terreno fértil. No Chile, a presença do TDA fez os sequestros crescerem mais de 200% em dez anos. No Peru, hoje há quase 3.000 presos venezuelanos, boa pate deles da facção.

Já em Colômbia, Brasil e México, o grupo encontrou concorrência mais estruturada e se associou a grandes organizações locais. Em todos os casos, as células de cada país funcionam como uma espécie de franquia da facção venezuelana.

A pesquisa de Guadalupe, ex-ministro do Interior do Peru e ex-presidente do instituto nacional penitenciário, indica que a facção se dedica a atividades criminais como extorsão, sequestro, microtráfico, exploração sexual de mulheres e tráfico de pessoas.

Nesse processo de estruturação e expansão do TDA, o papel do Estado venezuelano é apontado como decisivo, ainda que indireto. Políticas penitenciárias falidas, tolerância à governança criminal nas prisões e a cessão informal de territórios a grupos armados criaram as condições para a consolidação do Tren de Aragua, afirma a jornalista Ronna Risquez, autora de “El Tren de Aragua: La banda que Revolucionó el Crimen Organizado en América Latina”.

Segundo ela, o regime chavista deixou que as facções administrassem os presídios. “Surgiram alianças com funcionários públicos, que deixavam os criminosos agirem enquanto eles garantiam certa segurança ou redução de homicídios”, diz Ronna. “Eles movimentam as drogas, por isso é possível que algum integrante do TDA tenha sido morto nos ataques dos EUA a embarcações no Caribe. Mas o TDA não é nem dono das drogas nem das rotas.”

Por isso, a ideia de que a prisão de Maduro enfraqueceria automaticamente a facção é vista com ceticismo por especialistas. “Não há efeito sistêmico possível porque a estrutura política e militar da Venezuela está profundamente contaminada. Sem sistema democrático, promotores independentes e Judiciário funcional, não há como combater o crime organizado”, avalia Leandro Piquet Carneiro, coordenador da Escola de Segurança Multidimensional da USP.

“Existe é uma governança criminal compartilhada em que Forças Armadas, milícias e organizações criminosas se misturam. O regime sai intacto, e o Estado fica ainda mais debilitado, com o crime operando à sombra.”

Para o cientista político Benjamin Lessing, professor da Universidade de Chicago (EUA) que estuda dinâmicas do crime organizado na América Latina, o regime de Maduro permanece quase intocado, mesmo sem ele. “Isso não deve afetar muito a dinâmica regional, a não ser que o Estado da Venezuela entre em colapso e outro grupo entre no poder.”



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