Na missa pelo falecimento de António Lobo Antunes, que era há até poucos dias o maior escritor português vivo, e o mais reconhecido internacionalmente, um dos seus irmãos mais novos, Nuno Lobo Antunes, contava como as conversas à mesa em família eram feitas das citações mais saborosas de “Os Maias”, de Eça de Queiroz.
Os irmãos Lobo Antunes, que ele adequadamente chamou de uma “alcateia de seis”, eram filhos de Maria Margarida de Almeida Lima e de João Alfredo Lobo Antunes, ambos cultivados em literatura e ele catedrático de medicina, que incutiram nos filhos o gosto pelos clássicos portugueses.
Numa família portuguesa de meados do século 20, com o gosto exigente herdado do século 19, era normal dividir as pessoas entre quem era por Eça de Queiroz ou quem era por Camilo Castelo Branco. António Lobo Antunes, por sua vez, obrigou um dos seus netos a prometer que leria um poema de Antero de Quental: “Na mão de Deus, na sua mão direita, / Descansou afinal meu coração. / Do palácio encantado da Ilusão / Desci a passo e passo a escada estreita”.
Com o próprio António Lobo Antunes e José Saramago reproduziu-se, em Portugal, o mesmo tipo de dicotomia: havia quem fosse por um ou pelo outro, mais por um do que pelo outro, pelos dois, certamente, mas dificilmente da mesma maneira. Ambos enormes, intransigentes à sua forma, capazes de falar para o mundo de um lugar muito especificamente (e intensamente) português.
Em Saramago, António Vieira e Fernando Pessoa como pontos cardeais, a ficção especulativa como horizonte. Em Lobo Antunes, o trabalho incessante da memória, os traumas da guerra colonial e uma capacidade insuperável de entender a arrogância nas relações de classe em Portugal, e uma espécie de ternura elevada à fúria pelo povo e pelo humano.
Que privilégio para um país ter quem o leia assim —e quem nos leve a sentir-nos lidos quando o lemos. O desaparecimento de Lobo Antunes leva-me a perguntar se voltaremos a ter quem fale assim de Portugal e a partir de Portugal, ou se o tempo dos escritores simplesmente terá passado para nós. E talvez para todos os outros também.
Se assim fosse, seria terrível. Os séculos em que os escritores se tornaram a voz, talvez a alma, das sociedades, de um Victor Hugo em França a um Machado de Assis no Brasil, constituem um tempo limitado na história da humanidade.
Não foi sempre assim e não tem de durar para sempre. Mas quando se perder, perde-se a capacidade de dialogar para lá de gerações e de manter uma conversa prolongada no tempo com alguém que pensou aturadamente, por vezes durante anos, naquilo que nos queria dizer. A nós especificamente.
Não quero acreditar que possa acontecer. Mas digo que “não quero”, não que tenho argumentos definitivos para dizer que não vá acontecer. Na verdade todos nós —os que lemos e escrevemos em jornais como a Folha, os que lemos e gostaríamos de escrever como Lobo Antunes— somos como sacerdotes de uma religião que não sabemos se será ou não extinta. Seremos talvez como os últimos pagãos, agarrados aos últimos livros.
Os grandes autores são os profetas desta religião dos últimos séculos, a literatura. Possa Lobo Antunes não ter sido dos últimos.




