O regime iraniano disse na quarta-feira (21) que havia suprimido com sucesso os protestos contra a teocracia que agitaram o país por semanas e reconheceu, pela primeira vez, que 3.000 pessoas morreram durante as manifestações.
“A traição acabou agora”, disse Mohammad Movahedi, procurador-geral do Irã, segundo a agência de notícias estatal Mizan. “E devemos ser gratos, como sempre, às pessoas que extinguiram esta sedição ao agir em tempo hábil.”
As declarações estão entre uma série de movimentos públicos do regime iraniano para reforçar a ideia de que os distúrbios no país —vistos em determinado momento como uma ameaça significativa ao regime—foram completamente subjugados.
A TV estatal iraniana, por exemplo, divulgou na quarta o primeiro número oficial de mortos, 3.000, menor do que o saldo mais recente de 4.519 mortes relatado pela Agência de Notícias de Ativistas de Direitos Humanos (Hrana), com sede nos EUA, na terça (20).
O movimento foi inicialmente desencadeado no final de dezembro por uma economia em colapso e uma moeda em queda livre, mas se transformou em um movimento mais amplo contra a teocracia.
Um apagão de internet e um fluxo de desinformação tornaram difícil avaliar independentemente o que se passou dentro do Irã. Mas nos últimos dias, testemunhas e grupos de direitos humanos descreveram um silêncio sinistro gradualmente se instalando sobre o país, com lojas e escolas abrindo em meio a uma forte presença de segurança nas ruas.
O regime disse que restauraria o acesso à internet nos próximos dias. Mas autoridades afirmaram que, mesmo se a conexão geral for restaurada, sites estrangeiros podem permanecer inacessíveis, segundo a Hrana.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, havia em determinado momento ameaçado intervir militarmente, dizendo que as Forças Armadas americanas estavam prontas para proteger os manifestantes iranianos, a quem ele também encorajou a tomar as instituições do país.
Na terça, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, ofereceu a resposta mais contundente do país a qualquer potencial ação militar dos EUA, escrevendo em um artigo no The Wall Street Journal que o Irã “não tem escrúpulos em revidar com tudo o que temos se formos atacados novamente”.
“Isso não é uma ameaça, mas uma realidade que sinto que preciso transmitir explicitamente”, escreveu Araghchi. “A violência em nossas ruas diminuiu e a vida normal retornou em todo o país.”
Vídeos e relatos de testemunhas que surgiram no auge dos protestos sugeriram que o regime realizou uma de suas repressões mais mortais em décadas. Testemunhas descreveram agentes de segurança abrindo fogo, aparentemente com armas automáticas e às vezes indiscriminadamente, contra manifestantes desarmados. Milhares de pessoas foram detidas, segundo grupos de direitos humanos.
As autoridades iranianas prometeram punir as pessoas responsáveis pelos protestos, a quem acusam de serem terroristas apoiados por governos estrangeiros. Os “provocadores”, disse Movahedi na quarta-feira, “serão julgados e punidos de acordo com todos os procedimentos legais”. Autoridades disseram que poderiam acusar pessoas de “guerrear contra Deus”, um crime com precedente na lei islâmica que acarreta a pena de morte.




