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O governo do Reino Unido deu sinal verde para a construção de uma nova e enorme embaixada da China em Londres. A decisão sobre o tema vinha sendo adiada há anos por causa de preocupações com segurança e disputas políticas internas.
A obra ficará no local da Royal Mint Court (Casa da Moeda Real), uma área ao lado do centro financeiro do país.
O anúncio foi feito pelo Ministério da Habitação, o órgão responsável por autorizar projetos urbanos nacionais. Segundo o ministro de Segurança, Dan Jarvis, os serviços de inteligência do país participaram do processo e julgaram que os riscos poderiam ser administrados.
O principal receio era o fato de que a região tem cabos de fibra óptica que levam dados sensíveis do mercado financeiro britânico, algo que gerou alerta entre políticos e moradores.
A aprovação, porém, não é incondicional. Os chineses precisam começar as obras dentro de três anos e será criado um grupo local para lidar com protestos. Manifestações ligadas à China no Reino Unido costumam envolver ativistas de Hong Kong, tibetanos e uigures.
A decisão gerou reação imediata. Parlamentares conservadores e até trabalhistas (que estão no governo) acusaram o primeiro-ministro Keir Starmer de colocar em risco a segurança nacional e facilitar possível vigilância chinesa sobre dissidentes que vivem no país.
O primeiro-ministro respondeu que embaixadas existem justamente para permitir a comunicação entre Estados e que bloquear o projeto teria isolado o Reino Unido em um momento de disputas geopolíticas.
A China comprou o terreno em 2018 por 255 milhões de libras esterlinas (R$ 1,84 bi na cotação atual) e trata a aprovação como uma prioridade diplomática. A suspensão inicial ocorreu em 2022, quando a prefeitura rejeitou o plano por motivos de segurança.
O caso foi para o governo nacional, já que a obra envolve uma potência estrangeira e sensibilidade estratégica. Em paralelo, o Reino Unido espera que Pequim aprove a reforma da embaixada britânica na capital chinesa, um projeto estimado em 100 milhões de libras esterlinas (cerca de R$ 721 milhões).
Por que importa: para o governo britânico, concentrar todas as instalações diplomáticas de Pequim em um único endereço cria até certa vantagem de controle, já que a China ocupa diversos imóveis dispersos em Londres.
A aprovação é um demonstrativo de como Londres tenta equilibrar comércio e segurança na relação com Pequim e evita um choque diplomático num momento em que o governo britânico discute uma reaproximação econômica com a potência asiática.
pare para ver
“Suave Fragrância”, tela do pintor Liu Xiaodong, que em 2019 fez uma série de retratos de expatriados chineses vivendo em Londres. Você pode ver outros trabalhos da série neste compilado muito completo do The Guardian.
o que também importa
★ Pequim exigiu que o governo talibã proteja seus cidadãos após uma explosão em restaurante chinês em Cabul matar ao menos sete pessoas (seis afegãos e um chinês). O Estado Islâmico reivindicou o ataque, ocorrido em área fortificada da capital. O restaurante era frequentado por chineses muçulmanos. O grupo terrorista citou a política chinesa em Xinjiang, província onde a minoria étnica uigur estaria sofrendo repressões do Estado, para justificar o atentado.
★ O governo chinês decidiu retirar a suspensão às importações de frango do Rio Grande do Sul, imposta em julho de 2024 após registro da doença de Newcastle no estado. No ano passado, Pequim chegou a sinalizar o fim da medida, até que um caso de gripe aviária em granja comercial levou a uma nova restrição. Em novembro, os chineses liberaram o frango brasileiro, mas mantiveram o veto ao produto gaúcho. Sem o principal comprador, as exportações do estado recuaram 1% em 2024.
★ A China adquiriu cerca de 12 milhões de toneladas de soja dos EUA nos últimos três meses, cumprindo compromisso anunciado pelo governo Trump em novembro. A confirmação foi feita pelo secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, após sinalização do vice-premiê He Lifeng. As compras ocorreram após a redução de tarifas e o fim de restrições a fornecedores americanos.
fique de olho
Uma pesquisa global do Conselho Europeu para as Relações Exteriores que ouviu quase 26 mil pessoas em 21 países ao longo de 2025 sugeriu que volta de Donald Trump à Casa Branca está favorecendo a China na disputa por influência.
Os dados divulgados pelo jornal The Guardian mostram que a maioria dos entrevistados acredita que a influência chinesa vai crescer nos próximos dez anos.
Essa expectativa aparece em países do Sul Global e também no Ocidente.
No Brasil, 72% preveem mais peso internacional para a China. Nos Estados Unidos, o número chega a 54%.
Ao mesmo tempo, poucos veem a China como inimiga. No Brasil, 73% classificam o país asiático como parceiro necessário ou aliado. Na África do Sul, o índice é de 85%. Apenas Ucrânia e Coreia do Sul tiveram maioria classificando a China como rival.
Com os Estados Unidos acontece o contrário. Diminuiu o grupo que vê Washington como aliado confiável. Na Europa, só 16% ainda colocam os EUA nessa categoria, enquanto 20% já os veem como rival ou inimigo. A Índia é a principal exceção, com maioria ainda favorável à relação bilateral.
Por que importa: o estudo indica que o equilíbrio global está mudando mais rápido do que o esperado, com os EUA perdendo confiança rapidamente entre aliados tradicionais enquanto a China consolida sua imagem de parceiro útil no Sul Global. Isso deve obrigar a Europa e governos alinhados a Washington a reverem estratégias em um cenário menos centrado nos Estados Unidos.
para ir a fundo
- Estão abertas até 5 de fevereiro as inscrições para o programa de bolsas de estudos na China. Há oportunidades para graduação, mestrado e doutorado, em programas conduzidos em chinês ou inglês. Informações e edital neste link.
- O Instituto Confúcio da Unesp no bairro Ipiranga, São Paulo, abriu inscrições para o curso de chinês voltado a negócios. As aulas começam no início de fevereiro. Mais informações aqui.




