O governo do primeiro-ministro Keir Starmer concordou, nesta terça-feira (24), em divulgar documentos relacionados à nomeação do ex-príncipe Andrew como enviado comercial do Reino Unido, em 2001. A medida ocorre em meio ao crescente escrutínio sobre os laços do irmão mais novo do rei Charles 3º com o criminoso sexual americano Jeffrey Epstein.
A prisão de Andrew, na semana passada, levou alguns parlamentares a questionarem abertamente, durante um debate nesta terça na Câmara dos Comuns, se não seria hora de acabar com a convenção que os impede de criticar a família real.
Na última quinta-feira (19), Andrew se tornou o primeiro membro da família real britânica a ser preso em mais de três séculos. Na ocasião, ele foi interrogado por policiais sob suspeita de má conduta em cargo público. O ex-príncipe sempre negou qualquer irregularidade em relação a Epstein e diz se arrepender da amizade entre eles.
Chris Bryant, membro do Departamento de Negócios e Comércio do Reino Unido, afirmou durante o debate que interlocutores de Andrew o descreveram como “um homem em constante busca por autoengrandecimento e enriquecimento pessoal, um homem rude, arrogante e prepotente que não conseguia distinguir entre o interesse público que dizia servir e seus próprios interesses privados”.
O segundo filho da rainha Elizabeth 2ª, morta em 2022, atuou como representante especial do Reino Unido para Comércio e Investimento Internacional entre 2001 e 2011, função que lhe permitia viajar pelo mundo para se reunir com importantes figuras do mundo empresarial e governamental, sem receber remuneração.
A polícia iniciou a investigação contra Andrew depois que o governo americano divulgou, no mês passado, emails que pareciam mostrar que ele havia repassado documentos oficiais a Epstein enquanto trabalhava como enviado comercial. Os enviados comerciais geralmente são proibidos de compartilhar esse tipo de material devido às regras de confidencialidade.
Pelo menos quatro políticos afirmaram que a convenção que protege a família real no Parlamento deveria acabar. “Essas regras arcaicas ridicularizam nossa democracia”, disse Brendan O’Hara, membro do Parlamento pelo Partido Nacional Escocês. “Ninguém, independentemente de posição ou privilégio, deve estar acima da lei.”
O presidente da Câmara dos Comuns autorizou os parlamentares a discutir o caso do ex-príncipe sob a alegação de que ele não é mais membro da família real, já que foi destituído de seus títulos.
Já os Liberais Democratas pressionaram o governo a divulgar todos os documentos relacionados à sua nomeação, utilizando um procedimento parlamentar arcaico conhecido como pedido de desculpas.
Bryant, então, afirmou que o governo apoiava a moção, que foi aprovada por unanimidade pelos parlamentares. Ele afirmou que tentaria obter a liberação dos documentos o mais rápido possível, mas que as autoridades precisariam verificar se isso não interferiria na investigação policial.
A publicação dos documentos de verificação poderia constranger figuras que serviram no governo do então primeiro-ministro Tony Blair, quando ele assumiu o cargo, bem como membros da família real britânica, que enfrenta sua pior crise em 90 anos devido às ligações de Andrew com Epstein.
O ex-príncipe não se pronunciou publicamente desde a divulgação de mais de 3 milhões de páginas de documentos pelo governo dos Estados Unidos relacionados a Epstein, responsável por um esquema de tráfico sexual de mulheres e adolescentes. Esses arquivos sugerem que Andrew encaminhou a Epstein, em 2010, relatórios sobre Vietnã, Singapura e outros lugares que ele visitou em viagens oficiais.
O último lote de documentos sobre o caso inclui fotos do ex-duque de York ajoelhado sobre uma mulher deitada no chão. Em duas delas Andrew parece estar tocando na barriga dela. Outra imagem o mostra olhando diretamente para a câmera.
Antes mesmo disso, Andrew já enfrentava questionamentos a respeito do escândalo. Em 2021, a australiana-americana Virginia Giuffre, conhecida como a primeira mulher a denunciar a rede de exploração sexual do financista, ingressou com um processo judicial contra o ex-príncipe em um tribunal de Nova York. Giuffre o acusou de ter cometido abuso sexual em três ocasiões, quando ela tinha 17 anos. Os episódios teriam ocorrido com a ajuda de Epstein.




