Reino Unido: Há cem anos nascia Margaret Thatcher – 12/10/2025 – Mundo

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“Esta senhora não vai mudar de rumo”, disse Margaret Thatcher um ano depois de se tornar primeira-ministra do Reino Unido, a primeira mulher no cargo. Acabou se tornando a pessoa que mais tempo morou em Downing Street desde o século 19, fiel à declaração que antecipava uma era.

Inflação, recessão, privatização, União Soviética, Argentina, mineiros e o Partido Trabalhista. De 1979 a 1990, Margaret Hilda Thatcher, que completaria cem anos nesta segunda-feira (13), deixou como legado o culto ao neoliberalismo e um conjunto notável de marcas e cicatrizes na sociedade britânica e no mundo.

Na conferência do Partido Conservador, em 1980, quando se descreveu inflexível, a “dama de ferro” ainda não existia. Thatcher era apenas a “ladra do leite”, que tirou o produto das escolas primárias. Em 2013, no relato de sua morte, este jornal contou as homenagens deixadas em frente à sua casa naquele 8 de abril: 46 ramos de flores, uma coroa, duas fotos e uma sugestiva garrafinha de leite.

Na semana passada, em Manchester, a lembrança de Thatcher eram três de seus trajes em exposição feita para atrair público à última conferência dos Tories, como os conservadores são chamados. O apelo não funcionou. Saudosismo, decadência e cadeiras vazias marcaram o evento.

Fundado em 1834, o partido que governou os britânicos por dois terços do tempo desde então afunda nas pesquisas de opinião desde que deixou o poder no ano passado. O Reform UK, de Nigel Farage, um político malicioso empunhando as bandeiras óbvias do populismo europeu, é a voz da direita atual.

Ainda que referência histórica e reembalada em discurso por Kemi Badenoch, atual líder da legenda, a caixa de ferramentas de Thatcher não tem solução para as crises atuais. “Em muitos aspectos, ela ainda é o problema”, escreveu Martin Kettle, colunista do britânico The Guardian.

Thatcher fez muito pela economia britânica. Recebeu e entregou um país em recessão, mas em outro patamar. Enquanto a renda per capita no Reino Unido cambaleou em relação à dos EUA até 1979, a ponto de ser alcançada por outras potências europeias, a coisa se inverteu de novo a partir de seu governo.

O custo social foi imenso. A longa construção do bem-estar social do pós-guerra foi pulverizada com juros altos e uma política fiscal restritiva. Sindicatos foram precarizados, mais de 3 milhões ficaram sem emprego, setores industriais inteiros foram inviabilizados. Energia, saneamento e telecomunicações foram privatizados. A carga tributária foi transferida da renda para o consumo e, depois, simplificada.

Dos muitos efeitos colaterais, o principal foi um aumento brutal da desigualdade. “Billy Elliot”, filme de 2000 que virou musical, dedica uma canção à primeira-ministra. Na verdade, à certeza de que ela um dia iria morrer para alívio dos mineiros em greve em 1984 e 1985, pano de fundo da história.

Thatcher, porém, não era uma libertária inconsequente. Acreditava que o Estado prejudicava a economia e que o indivíduo tinha mais a dizer sobre si do que o governo. Levou tais convicções até para o exterior.

Em 1987, durante visita histórica a Moscou, pregou contra o comunismo em discurso transmitido pela TV. Era crítica feroz da União Soviética e articulou com Ronald Reagan o aumento da capacidade nuclear do Reino Unido e da Otan. Identificou no Politburo o homem com quem o presidente americano deveria negociar, Mikhail Gorbachov.

Já era então “a dama de ferro”, que venceu uma guerra a despeito de seu gabinete ser contra e os EUA pedirem uma solução negociada. Em 1982, Thatcher mandou a Marinha britânica atravessar o Atlântico e conquistar de volta as ilhas Malvinas, tomadas de assalto pela ditadura militar da Argentina.

Crítica da União Europeia e do euro, Thatcher colecionou conflitos com sua própria equipe sobre o assunto. No pior deles, em novembro de 1990, assistiu no Parlamento ao discurso de renúncia de Geoffrey Howe, seu líder na Casa. Dias depois, era ela quem renunciava.

Para críticos, como o jornalista Adrian Wooldridge, Thatcher é “a mãe da crise dos conservadores”. Seu estilo centralizador, de tão efetivo, foi perpetuado, assim como a desconexão do partido com as ruas e a sociedade civil organizada, desmantelada no governo da primeira-ministra.

Espaços da vida pública que a ultradireita ocupa hoje sem apresentar soluções.



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