Retaliação do Irã é sinal de fraqueza, afirma professor – 17/03/2026 – Mundo

Retaliação do Irã é sinal de fraqueza, afirma professor -


O regime iraniano demonstra fraqueza, não força, ao atacar os vizinhos do golfo Pérsico em retaliação pela guerra lançada por Estados Unidos e Israel no dia 28 de fevereiro. A teocracia deve sobreviver, mas alterada, não mais como uma ameaça regional.

As observações são do professor Hilal Khashan, chefe do Departamento de Ciência Política da Universidade Americana de Beirute, em entrevista por e-mail à Folha nesta sexta-feira (13).

As condições na capital são duras, sob ataques do Estado judeu contra posições do Hezbollah, aliado de Teerã. Na véspera, dois colegas de Khashan foram mortos no campus da Universidade Libanesa.

O professor é colaborador da consultoria americana Geopolitical Futures. Em um artigo na terça (10) para clientes da empresa, foi peremptório: “A sobrevivência do regime não significa que o Irã será o mesmo que foi antes da guerra. Mas ele não vai durar o suficiente porque o povo iraniano deseja mudança”.

Nesta entrevista, ele fala sobre isso e diz que Donald Trump “não compreende a psique iraniana”, o que provavelmente o levará a deixar a guerra devido ao impacto no mercado de petróleo.

Apesar de isso ser uma decorrência da retaliação iraniana, ele vê um erro de Teerã, que ganhou uma coleção de inimigos onde poderia ter parceiros ou vizinhos neutros. Khashan também avalia que o Hezbollah não deverá sobreviver à guerra, nem como ente político no Líbano.

A impressão é que Trump não tem um objetivo final à vista, enquanto Israel está focado em demolir a maior parte da estrutura militar e política do Irã. Como o sr. avalia isso?

Trump está dividido entre dois campos dentro de seu governo. Um campo deseja continuar com a guerra até o fim, enquanto o outro sente que a continuidade do conflito prejudicará a economia e fará os preços da gasolina subir, resultando em danos políticos para o Partido Republicano. Trump não poderá se dar ao luxo de manter essa guerra por muito mais tempo, pois o preço político é proibitivo.

O sr. escreveu sobre o Irã ser mudado, mesmo que o regime sobreviva. Como isso funcionaria? Uma acomodação ao estilo da Venezuela com os EUA, desistindo de seu programa nuclear?

O Irã é fundamentalmente diferente da Venezuela, sendo um fator político e cultural constante no Oriente Médio. O que espero é uma diminuição do ímpeto do Irã em dominar a região, focando na reconstrução do país e no relançamento de sua economia, que está severamente prejudicada.

Como a complexidade dos órgãos institucionais iranianos, como o Conselho de Guardiães e a Assembleia de Especialistas, funcionou até agora na proteção do regime?

O aiatolá Ruhollah Khomeini [1902-1989, fundador da República Islâmica em 1979] estabeleceu um sistema político extremamente complexo, com prerrogativas sobrepostas. Por meio de um intrincado sistema de eleições populares e nomeação direta de representantes nos ramos Legislativo e Executivo, o líder supremo emergiu como o árbitro final. Isso o torna inimputável e coloca seus ditames acima da estrutura formal do sistema.

Como você avalia a escolha do filho de Ali Khamenei como líder supremo e seu primeiro discurso, ainda que ele não tenha aparecido pessoalmente?

Os iranianos são um povo desafiador. Em vez de aceitarem a exigência de Trump por um sucessor para Khamenei, o regime elegeu um líder supremo que prometeu continuar resistindo ao ultimato de Trump de rendição incondicional. Trump claramente não entende a psique iraniana.

O regime estava sob extrema pressão antes da guerra, mas mesmo assim foi capaz de esmagar a oposição. Qual é a situação atual? Trump deu mais tempo aos aiatolás? Existe alguma chance de uma oposição unificada?

Khomeini aproveitou a Guerra Irã-Iraque (1980-1988) para eliminar a oposição. A Guarda Revolucionária é mais do que uma força militar, ela controla grande parte da economia e possui uma ampla base de beneficiários de seus negócios. Por isso, a “rua iraniana” não consegue derrubar o regime.

A retaliação contra os Estados do Golfo foi um erro tático? O Irã parece estar dobrando a aposta na interrupção do mercado de petróleo isso vai valer a pena?

O ataque do Irã aos Estados do Golfo é um sinal de fraqueza, pois [Teerã] é incapaz de responder aos ataques dos EUA e de Israel. Ao visá-los, a liderança iraniana espera que eles pressionem Trump a parar a guerra. No entanto, esses ataques azedarão as relações dos vizinhos com o Irã por muitos anos, baseando-se em um legado amargo de desconfiança histórica entre árabes e persas.

Quais são as perspectivas para o Líbano, em relação às posições do Hezbollah e do governo?

O Hezbollah está travando uma batalha perdida contra Israel. Quando a guerra terminar, o Hezbollah deixará de existir não apenas como um componente militar, mas também como uma força política na política libanesa.

A atual contenção dos houthis é um testemunho do enfraquecimento do apoio regional ao Irã? Ou, pelo contrário, eles são uma carta na manga para Teerã?

Os houthis aprenderam a lição e pagaram caro por lançar mísseis e drones contra Israel e por interferir na navegação no mar Vermelho. Além disso, a relação entre o Irã e os houthis difere da relação com o Hezbollah e as forças no Iraque. Os houthis não seguem a mesma jurisprudência religiosa do xiismo que existe no Irã, no Iraque e no Hezbollah. A relação entre eles e os iranianos não é ideológica, mas sim utilitária.


RAIO-X | Hilal Khashan, 74

Nascido em Beirute, formou-se em Ciência Política pela Universidade da Flórida. Especialista em Oriente Médio, é professor e chefe de departamento na Universidade Americana de Beirute. Colabora com diversos think tanks e consultorias, como a americana Geopolitical Futures. Autor de cinco livros, tem quase 100 artigos sobre temas regionais em publicações de referência.



Fonte CNN BRASIL

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