Sátira ganha força nos EUA, mas seu poder é questionável – 16/04/2025 – Lúcia Guimarães

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No último episódio do cinquentenário programa de humor americano Saturday Night Live, o comediante Bowen Yang apareceu como uma autoridade do regime chinês reagindo com indiferença e sarcasmo à nova imposição de tarifas comerciais. “Qual lado estaria disposto a suportar mais dificuldades pela glória de sua nação? O que existe há milhares de anos ou o que manda a Katy Perry ao espaço?”, perguntou.

O momento, assistido ao vivo e, em seguida, mais de 1 milhão de vezes no YouTube, encapsulou para uma plateia maior do que a consumidora de jornalismo a vasta diferença entre as duas nações diante da expectativa de novos sacrifícios.

Em 2004, quando a enormidade do fiasco na invasão do Iraque começava a ficar clara, o número de jovens americanos que diziam consumir notícias assistindo ao Daily Show do comediante Jon Stewart era quase igual ao de jovens que diziam se informar por telejornais.

Stewart alterou a dieta de notícias de uma geração. Ele está de volta, depois de deixar o programa em 2015 e de ter uma série cancelada pela Apple TV+ porque queria satirizar a China. Stewart promoveu também dois dos mais influentes comediantes políticos no ar hoje: Stephen Colbert, com um talk show na rede CBS, e John Oliver, com um superpremiado programa na rede HBO.

Enquanto as grandes empresas de jornalismo navegam temerosas com o novo clima de intimidação sobre seu conteúdo, especialmente vulneráveis por pertencerem a conglomerados com interesses ligados ao governo federal, comediantes americanos recarregaram sua artilharia crítica como fizeram no segundo mandato de George W. Bush e no primeiro de Donald Trump. Até o outrora mais apolítico Jimmy Kimmel, da rede ABC, transformou seu monólogo diário numa sátira a esta Presidência e viu sua audiência subir.

Como a criança que se divertia com as gargalhadas dos adultos contando piadas sobre a burrice do general Costa e Silva, entendo a importância do riso em tempos sombrios. Mas não consigo encontrar consolo hoje na redação brilhante de piadas sobre o retorno do sarampo e a deportação de imigrantes sem acesso à Justiça.

Um estudo feito entre o público do comediante Stephen Colbert, em 2009, pode explicar minha desconfiança. Colbert encarnou por uma década um âncora de direita inspirado no crasso Bill O’Reilly, da Fox News. Os espectadores progressistas viam na paródia do comediante a crítica à revigorada direita no começo do milênio. Os conservadores tendiam a acreditar que o personagem era mesmo antiprogressista. Seria por que o tempo gasto para processar o significado avesso na paródia dilui o poder de denúncia?

Uma diferença no vigor da comédia em denunciar a Guerra do Iraque seria a morte da vergonha na vida pública. Para sofrer embaraço diante da sociedade é preciso sentir vergonha. Políticos como Boris Johnson abraçam sua personalidade de bufão e seguem inoculados diante de sucessivos escândalos.

O Reino Unido foi, a partir da segunda metade do século 20, a matriz da sátira política mordaz. Não é coincidência que os luminares da comédia antiestablishment britânica saíram de Cambridge e Oxford, as instituições que ainda aparelham os poderes.

Um problema de apresentar políticos como palhaços hipócritas é o eleitor se sentir absolvido por ter votado neles. Peter Cook, pioneiro e considerado gênio dessa forma confessou sua desilusão, nos anos 1960. Ele disse que os britânicos corriam o risco de naufragar dando risadinhas.


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