Na última semana, Claudia Sheinbaum deu seu discurso de prestação de contas às vésperas de completar um ano na Presidência do México. “Estamos vivendo um momento estelar de nossa história”, disse a primeira mulher a ocupar o cargo.
Os números que apresentou ajudam a sustentar a frase. A economia cresceu 1,2% em 2024, a inflação recuou a 3,5% ao ano —o nível mais baixo desde 2021— e o desemprego caiu para 2,7%. A moeda mexicana manteve-se firme abaixo de 19 pesos por dólar.
No setor dos programas sociais, no qual Sheinbaum reivindica a continuidade dos planos de seu antecessor, Andrés Manuel López Obrador, houve um orçamento inédito gasto na área, de 836 bilhões de pesos, um salto de 638% em relação a 2018. Esses dados ajudam a explicar por que Sheinbaum desfruta de índices de aprovação que variam entre 64% e 79%, segundo diferentes institutos.
Mas atrás da popularidade aparecem vulnerabilidades. O governo celebra uma redução de 25% nos homicídios em comparação ao último ano. Ainda assim, o país convive com uma média de 65 assassinatos por dia. Pesquisas mostram que a segurança é a maior preocupação dos mexicanos. Se não enfrentar de forma contundente essas questões, Sheinbaum pode ver sua imagem arranhada mais cedo do que esperava.
O terreno mais delicado, porém, é a relação com os Estados Unidos. Logo após o discurso, Sheinbaum recebeu na Cidade do México o secretário de Estado americano, Marco Rubio. Diante da imprensa, ele reafirmou que seu país seguirá combatendo de modo bélico o narcotráfico internacional.
O chanceler mexicano, Juan Ramón de la Fuente, na defensiva, respondeu apenas que o México respeitará o direito internacional e vai rejeitar qualquer intervenção militar estrangeira —no caso de os EUA tentarem atacar algum alvo relacionado ao México nesse embate, como acaba de fazer com a Venezuela.
Sheinbaum tem repetido que um ataque a seu território está “absolutamente descartado”. Sua estratégia, afirmou, é a de “cooperação sim, submissão nunca”. Ao mesmo tempo, apresentou alguns resultados concretos: 55 líderes de cartéis extraditados em seu mandato, militarização da fronteira e apreensões recordes de fentanil.
Ainda assim, pesquisas revelam que só 28% da população mexicana aprova a maneira como Sheinbaum conduz a relação com Donald Trump. Mas o dado que mais chama atenção é outro. Embora a maioria rejeite uma intervenção militar estrangeira, cerca de um terço dos mexicanos admite apoiar ações diretas dos EUA contra chefes do narcotráfico.
O dilema de Sheinbaum é manter a soberania como bandeira pública e, ao mesmo tempo, não fechar a porta para colaborações pontuais que possam reduzir a violência.
A presidente aposta em diversificar alianças regionais. Acaba de receber o vice-presidente brasileiro, Geraldo Alckmin. Sheinbaum afirmou que, com o Brasil, haverá uma cooperação pragmática, em contraste com as barreiras impostas pelo governo Trump.
Em um ano, a presidente mexicana exibe um saldo positivo. Popularidade alta, economia estável, política social robusta e diplomacia pragmática dão solidez à sua gestão. A dependência dos programas sociais lhe garante sustentação, mas o futuro dependerá de sua capacidade de enfrentar a insegurança e equilibrar a relação com um vizinho imprevisível.




