A cidade curda de Kobani, na Síria, que se transformou em símbolo de luta contra o Estado Islâmico (EI), encontrava-se novamente sob cerco nesta segunda-feira (26), dia em que se completou 11 anos de sua libertação do grupo terrorista.
Desta vez, os curdos estão sitiados há cerca de dez dias pelas forças do novo governo do país e por milícias extremistas. Segundo o Observatório Sírio para os Direitos Humanos, Kobani vive uma “crise humanitária de dimensões catastróficas”.
“A situação está se deteriorando a cada dia. Leite e comida para as crianças estão acabando. Está muito frio e não tem aquecimento”, afirmou à Folha o ativista Jamal, morador da cidade. Ele tem acesso só intermitente à internet, com um chip estrangeiro, e respondeu por mensagens de áudio. A grande maioria dos habitantes está totalmente sem conexão e não sabe o que está acontecendo.
Na noite desta segunda (26), a conexão de internet em grande parte do nordeste sírio também foi bloqueada –a reportagem usou VPNs para conseguir conectar-se.
Um comboio humanitário da ONU chegou a Kobani no domingo (25). Foram 24 caminhões transportando combustível, pão e kits de alimentos prontos para consumo. Também foi aberto um corredor humanitário para Al-Hassakeh, no nordeste do país.
Segundo o Observatório Sírio, o cerco pelas forças ligadas ao governo “levou a uma paralisação quase completa da entrega de alimentos e necessidades básicas à cidade”.
Um cessar-fogo entre as forças curdas e o Exército sírio foi prorrogado, no sábado (24), por 15 dias. Na prática, entretanto, há várias violações, com inúmeros ataques em vilarejos na região de Kobani e, em menor escala, em Hassakeh e Qamishli.
Forças do governo sírio e facções afiliadas cercaram a província e a cidade de Kobani. Nesta segunda, cinco civis morreram, e sete ficaram feridos de forma grave (entre eles quatro crianças) em um ataque numa zona rural da região.
No dia anterior, o Crescente Vermelho relatou que cinco crianças, incluindo um bebê, morreram na cidade de Kobani em decorrência do frio extremo e do bloqueio militar contínuo. A organização disse que as mortes foram causadas pela queda acentuada das temperaturas, que têm permanecido abaixo de zero, pela falta de combustível para aquecimento e pela escassez de suprimentos médicos essenciais.
Os curdos acusam as forças do novo líder sírio, Ahmed al-Sharaa, de determinar vários ataques, inclusive com apoio de drones da Turquia.
Já o governo acusa as forças curdas de lançarem mais de 25 drones explosivos contra a cidade de Aleppo, a segunda maior do país, violando o cessar-fogo.
Kobani se transformou em símbolo mundial da luta contra o Estado Islâmico ao ficar sitiada durante quase um ano pelos extremistas, de 13 de setembro de 2014 a 26 de janeiro de 2015.
O cerco sensibilizou a opinião pública mundial –a revista britânica Economist o chamou de “Stalingrado dos curdos”, em referência à batalha da Segunda Guerra Mundial– e levou os Estados Unidos a se envolverem na guerra contra o EI, com ataques aéreos que ajudaram a derrotar a facção, mas que destruíram Kobani. Quase 3.000 pessoas morreram, e 400 mil fugiram da província.
Agora, os habitantes da cidade não contam com ajuda internacional para enfrentar o novo cerco. Os hospitais estão à beira do colapso, com falta de oxigênio.
Mazloum Abdi, comandante das Forças Democráticas Sírias (SDF, na sigla em inglês), afirmou que, apesar dos sacrifícios feitos pelos habitantes de Kobani durante a batalha contra o EI, eles estão agora “sitiados e enfrentando ataques pesados”. “O mundo precisa honrar os sacrifícios do povo de Kobani”, disse.
As SDF, aliança formada em 2015 entre forças curdas e países como os EUA, com participação de árabes, foi primordial na derrota do EI na Síria, em 2019.
Mas, no final de 2024, as forças rebeldes de Ahmed al-Sharaa depuseram o então ditador Bashar al-Assad e prometeram unir a Síria sob o controle do novo governo, incluindo as áreas administradas pelas SDF.
As SDF controlavam cerca de um quarto do território sírio, onde mantinham um governo autônomo. Desde o início de janeiro, forças governamentais tomaram áreas de maioria árabe. Capturaram Raqqa e Deir Ezzor, assumindo controle sobre campos de petróleo, hidrelétricas e prisões com milhares de combatentes do EI.
No processo, centenas de prisioneiros da facção terrorista fugiram –segundo admitiu o governo sírio, cem escaparam. Já as SDF afirmam que o número é muito maior.
Os EUA, que apoiaram a SDF como principal aliado contra o EI, aproximaram-se de Sharaa e não se opuseram à ofensiva. Eles instam as forças curdas a aceitarem a proposta do novo líder de se integrar completamente ao governo sírio.
Para os curdos, algumas exigências do governo, como integrar completamente as forças curdas ao Exército do país e abrir mão da autonomia administrativa, são inaceitáveis.
Sharaa integrou ao Exército combatentes de facções extremistas que lutaram contra os curdos, os quais, por sua vez, temem vingança.
Após derrubar o ditador Assad em dezembro de 2024, Sharaa prometeu fazer um governo inclusivo, respeitando minorias. Mas, no ano passado, mais de 1.300 alauítas morreram na região de Tartus em choques com forças do governo e milícias sunitas afiliadas. Em abril, centenas de drusos da região de Sweida morreram em conflitos semelhantes.
Sharaa foi integrante da Al Qaeda até 2016 e, ao assumir o governo, era líder do Hayat Tahrir al-Sham, facção considerada uma organização terrorista por muitos países, que removeram sanções após a troca de governo.
Segundo a Agência da ONU para Refugiados (Acnur), mais de 100 mil curdos se refugiaram internamente desde o início dos conflitos contra o governo sírio, em dezembro.
Rula Amin, porta-voz do Acnur, disse que “mais de 4.000 famílias estão em abrigos só na província de Hasaka”, com mais milhares em casas de parentes e amigos.
A Folha visitou escolas em Qamishli onde centenas de refugiados estão abrigados. Escolas e universidades foram fechadas na semana passada para acolher os deslocados internos.
Ali Ahmed, professor de programação do ensino médio na escola Sinaa, diz que a instituição está abrigando mais de 300 refugiados, mas não tem eletricidade ou diesel para aquecedores. Só dois banheiros estão funcionando.
Muitos dos refugiados têm problemas de saúde, incluindo diabetes, e muitos são idosos com dificuldade de locomoção.




