Rojava, o projeto dos curdos para uma sociedade feminista e laica na Síria, no Oriente Médio, é o mais recente dano colateral da política externa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Um acordo de paz assinado na quinta-feira (29) entre a administração regional curda e o líder sírio, Ahmad al-Sharaa, estabelece um cessar-fogo e deve brecar o banho de sangue das últimas três semanas, mas, na prática, acaba com a autonomia dos curdos na região que chamam de Rojava, no norte do país.
O acordo foi assinado sob pressão dos americanos. Após anos de aliança com os curdos devido ao papel da minoria na luta contra o Estado Islâmico (EI), os EUA passaram a apoiar as ambições de Sharaa de unificar o país —o líder sírio assumiu o governo em dezembro de 2024, depois de derrubar o então ditador, Bashar al-Assad.
“É o fim de Rojava”, diz Fabrice Balanche, professor da Universidade de Lyon 2 e especializado na Síria. “Rojava representa um sistema político e social inteiramente diferente da visão de Sharaa de uma República Islâmica da Síria. Esses dois sistemas são incompatíveis —há diferenças irreconciliáveis em relação aos direitos das mulheres e à educação, por exemplo, que é laica em Rojava e religiosa na Síria. Na visão de Sharaa, há zero tolerância para autonomia regional.”
Em entrevista na tarde desta sexta (30), Ilham Ahmed, colíder do Ministério de Relações Exteriores da região autônoma do norte e leste da Síria, deixou claro que não havia muitas opções para os curdos.
“Assinamos o acordo para impedir um genocídio do povo curdo”, disse. Durante a guerra na Síria (2011-2024), os curdos criaram uma região autônoma no norte da Síria, após anos de repressão e perseguição por Hafez al-Assad e Bashar al-Assad.
Na ditadura dos Assad, a educação em curdo era proibida, e a minoria teve suas terras tomadas e foi submetida a um processo de arabização. Milhares foram mortos e presos.
Com Bashar al-Assad concentrado em lutar contra a oposição em outras partes do país, os curdos foram implementando nas regiões norte e nordeste um sistema feminista, com paridade em todos os cargos públicos e coliderança entre homens e mulheres. Eles instituíram uma legislação não religiosa, promoveram a cultura curda e consolidaram Forças Armadas independentes, masculinas e femininas.
Em 2014, com a luta contra o EI na região, ganharam apoio financeiro e político dos EUA e de outras nações da coalizão, que formaram as Forças Democráticas da Síria (SDF, na sigla em inglês).
Passaram a controlar vastas áreas, fronteiras, infraestrutura e campos de petróleo, sob oposição cerrada do líder turco, Recep Erdogan. A Turquia, que reprime os curdos turcos, lutou anos contra a insurgência do PKK, liderado por Abdullah Ocalan e considerado um grupo terrorista por vários países.
Os curdos sírios são ligados ao PKK e à Turquia, que é um dos fiadores do governo Sharaa e opõe-se à sua autonomia.
No final de 2024, quando as forças rebeldes de Sharaa depuseram Bashar al-Assad, o novo líder anunciou o objetivo de unir a Síria sob governo centralizado, incluindo as áreas administradas pelas SDF, cerca de um quarto do território sírio.
No início de janeiro deste ano, forças governamentais sírias iniciaram uma ofensiva contra os curdos e tomaram áreas de maioria árabe antes comandadas pelas SDF. Capturaram Raqqa e Deir Ezzor, assumindo controle de campos de petróleo, hidrelétricas e prisões com milhares de combatentes do EI. Também passaram a atacar a província de Hasakah e sitiaram Kobani, cidade que se tornou símbolo da luta dos curdos contra o EI.
Os EUA não se opuseram à ofensiva, o que os curdos veem como uma traição.
O acordo entre Mazloum Abdi, comandante das SDF, e Sharaa, assinado na noite de quinta-feira, prevê que haverá forças do Ministério do Interior sírio atuando em cidades curdas como Qamishli e (meio curdas) Hasakah, ao lado das forças de segurança locais curdas. Também se estabeleceu que os combatentes curdos serão absorvidos pelo Exército sírio e que ficarão posicionados em áreas curdas.
A visão é de que se evitou o pior —forças de segurança sírias atuando diretamente nas áreas curdas. Sharaa integrou ao Exército sírio combatentes de facções extremistas que lutaram contra os curdos, que temem vingança.
Não há garantias que as combatentes da YPJ, a força militar feminina, serão integradas —o Exército sírio não aceita mulheres. “Isso não foi discutido em detalhes”, disse Ilham Ahmed na entrevista.
O governo sírio assumirá o controle de todos os postos de fronteira, prisões e campos de petróleo.
O acordo ainda prevê respeito a “direitos educacionais e civis” dos curdos. No entanto, sobram arestas. “Eles querem que o curdo seja uma disciplina optativa nas escolas, e com carga de apenas duas horas por semana. Não concordamos”, disse Ahmed.
O cessar-fogo também estabelece “a incorporação de instituições de autogestão às instituições estatais sírias”. Isso, na prática, pode ser o fim da autonomia de Rojava, e desperta temores.
Sharaa prometeu fazer um governo inclusivo, respeitando minorias. Mas no ano passado, mais de 1.300 alauítas morreram na região de Tartus em choques com forças do governo e milícias sunitas afiliadas. Em abril, centenas de drusos da região de Sweida morreram em conflitos semelhantes.
O líder sírio foi integrante da Al Qaeda até 2016 e, ao assumir o governo, era líder do Hayat Tahrir al-Sham (HTS), facção considerada uma organização terrorista por muitos países, que removeram sanções após a troca de governo.
Para as mulheres curdas, há muito em jogo.
Ao assumir, Sharaa afirmou que iria respeitar os direitos delas e que não iria impor aspectos da lei islâmica, a sharia. Mas, desde o início, há sinais contraditórios. Dos 26 ministros de Sharaa, apenas uma é mulher. O Ministério do Turismo baixou um decreto obrigando o uso de “burquinis” nas praias e piscinas públicas para “preservar a decência pública” e recomendou que mulheres “evitem roupas transparentes e justas”. Em Latakia, o governo proibiu a maquiagem para mulheres que trabalham no setor público.
“Rojava é uma revolução das mulheres”, diz Kawthar Doko, copresidente do partido Futuro da Síria. Além da paridade em cargos, Doko cita algumas das regras de Rojava, como a proibição de homens se casarem com mais de uma mulher ao mesmo tempo, de obrigarem viúvas a se casar, e de trocarem irmãs para casamento. Ela também menciona as políticas para punir feminicídio.
“Todo o governo e organizações políticas têm um mínimo de 50% de participação feminina. Isso realizou o sonho de nós, mulheres, termos nossas próprias vidas”, afirma. “Agora temos medo de perder nossa liberdade, com esse regime de radicais no poder.”
Roxan Muhammad, porta-voz da YPJ, não acredita que o governo Sharaa vai aceitar mulheres no Exército. “Nós estamos nesta revolução há 14 anos, provamos que as mulheres podem se proteger e proteger os outros. Encaramos a morte na luta contra o EI. Mas as forças de Sharaa não nos aceitam nem como mulheres, imagine se vão nos aceitar como combatentes”, diz.
Na ofensiva recente, combatentes curdas tiveram suas tranças cortadas por forças extremistas aliadas ao governo sírio, que fizeram propaganda em vídeos. Houve denúncias também de violação de cadáveres de combatentes curdas.
Nas ruas, a população se prepara para o pior. Estera Maskou, 23, engenheira da computação em Amude, acha que, com o tempo, as mulheres serão proibidas de fazer compras sozinhas, terem amigos homens, dirigirem sozinhas e serão obrigadas a usar hijab ou niqab (véu que deixa apenas os olhos de fora).
Ela vive assistindo a vídeos no TikTok e Instagram para aprender novas técnicas de maquiagem. Quando vai a cafés, parques ou casas de amigos e familiares, costuma se maquiar com batom vermelho e gloss, delineador preto e cílios postiços, e faz ondas nos cabelos, que vão até a cintura. Adora roupas justas —da última vez que saiu, antes de começar a guerra em janeiro, usou um vestido vermelho bem justo e salto agulha de oito centímetros.
“Eu me recuso a usar o hijab. Para mim, não é simplesmente um véu. É como se alguém me forçasse a usar algemas”, diz Maskou, que é fã de Angelina Jolie no filme “Malévola”. “Quase todas as minhas amigas querem ir embora da Síria.”
Desde que perderam o controle dos principais campos de petróleo da região e das prisões que abrigavam combatentes do EI, o poder dos curdos murchou. A exploração de petróleo e gás financiava 75% dos gastos do governo autônomo, grande parte destinados às forças militares. O governo Sharaa já está fechando acordos de exploração com petrolíferas estrangeiras, entre elas as americanas Chevron e ConocoPhilips.
Além disso, sem a responsabilidade pela segurança das prisões do EI, os EUA perderam muito do interesse nos curdos. “É cedo para dizer se Rojava vai sobreviver, precisamos ver como será a implementação do acordo”, diz Wladimir van Wilgenburg, analista e autor de livros sobre o Curdistão sírio.
“Mas a maioria dos curdos está reagindo de forma negativa ao acordo, e Damasco não vai aceitar os aspectos progressistas do governo curdo.”
Procurado pela Folha, o Ministério de Informação da Síria disse que iria responder, mas não retornou até a publicação deste texto.
Sharaa havia anunciado algumas medidas vistas como gestos positivos, como reconhecimento da cidadania síria para os curdos. No entanto, alguns analistas estão céticos.
“Mais uma vez, os curdos serão relegados a um status de cidadãos de segunda classe”, diz Balanche. “Muitos curdos, assim como cristãos, alauítas e drusos, vão optar por deixar o país. Eles logo perceberão que precisam se arabizar e se islamizar se quiserem os mesmos direitos que os árabes sunitas que apoiam Sharaa. Caso ocorra qualquer tipo de manifestação, podemos esperar uma repressão semelhante à enfrentada pelos drusos e alauítas.”




