Só há uma saída de um beco sem saída, como Hormuz: recuar – 21/04/2026 – Rui Tavares

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Chegamos a um ponto em que toda a gente perdeu o fio à meada desta guerra, a começar por quem a começou. As justificativas foram mudando nos combates, os prazos vão mudando no cessar-fogo, e Trump vai inventando a realidade à medida que avança. Há um ano disse-nos que o programa nuclear iraniano tinha acabado; agora lançou-se numa nova guerra para acabar com o mesmo programa.

No Paquistão negoceia-se, afinal, algo parecido com o acordo de Obama, com urânio controlado tanto quanto possível pela comunidade internacional. A escalada não serviu para nada, e Trump tem agora receio de ir para outra.

No Paquistão negoceia-se o nosso futuro, conosco do lado de fora. Se houver acordo, talvez o preço da gasolina baixe; não havendo, as reservas vão escasseando, e a Lufthansa já suspendeu milhares de voos. Se a escalada alastrar aos houthis no mar Vermelho, teremos uma crise global séria durante meses, porque a certa altura não basta reabrir os estreitos para reverter o dano quando ele já se alastrou à agricultura (via fertilizantes) ou à tecnologia (via semicondutores).

O Irã queria um programa nuclear como dissuasão, para conquistar o que a Coreia do Norte conquistou, que é ser intocável. Mas descobriu no meio desta guerra que tinha outra arma, talvez mais poderosa: a disrupção da economia global. Trump respondeu agora com simetria —se vocês fecham o estreito, nós bloqueamos o Irã. É um jogo de exaustão mútua, e ganha quem tiver mais capacidade de sofrimento. Trump tem menos margem: tem eleições à porta, nenhuma paciência e zero foco ou atenção.

Quem perde esta guerra, antes de mais, são os iranianos. Não a liderança, mas o povo. Os que saíram à rua e foram massacrados às dezenas de milhares, encorajados por uma promessa de ajuda que nunca chegou.

A janela de oportunidade que às vezes se abre com a morte dos autocratas velhos, como se abriu com Brejnev na União Soviética, existia até há um par de meses. Agora, martirizaram o aiatolá velho e trocaram por um novo. Com o Exército mais poderoso e uma liderança nova a controlar o terreno, é difícil acreditar que os iranianos estejam hoje mais perto da democracia do que há uns meses.

E se o Irã ainda assim conseguir um programa nuclear, será uma péssima notícia pelo que vem a seguir: a Arábia Saudita vai querer o seu, depois o Bahrein, depois outros. Foi preciso um enorme esforço internacional para que, depois da bomba norte-coreana, a Coreia do Sul, o Japão e Taiwan não quisessem os seus. Nessa altura existia um sistema internacional funcional. Hoje não existe.

Na Polônia fala-se de programa nuclear, coisa que nunca se falou. Imaginemos que estamos em Varsóvia e nos pedem para confiar que, na hora certa, Trump se oporá a Putin. Quando é que Trump se opôs a Putin? Nunca. No Extremo Oriente debate-se a nuclearização da Coreia do Sul e do Japão; na Europa, redescobriu-se o guarda-chuva nuclear francês. A dinâmica nuclear adquiriu uma velocidade que não tinha, e não é boa para ninguém.

A única questão é quanto é que vamos pagar até se reconhecer que, num beco sem saída —assim como o estreito de Hormuz— a única saída é recuar.


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