A queda de um caça americano sobre o Irã e a intensa busca por um de seus tripulantes levantaram preocupações de que ele seja capturado e forneça ao país persa um ativo poderoso que poderia ser usado como moeda de troca contra os Estados Unidos.
A operação de resgate do tripulante desaparecido está em seu segundo dia neste sábado (4), com não apenas tropas americanas conduzindo uma busca em larga escala, mas também o Exército iraniano tentando encontrá-lo, de acordo com três autoridades locais que falaram sob condição de anonimato para discutir operações militares.
Em uma indicação da ânsia em encontrar o tripulante, a apresentadora de uma afiliada local da emissora estatal iraniana leu um comunicado na sexta-feira (3) na televisão convocando os moradores a capturar “o piloto ou pilotos inimigos” e entregá-los vivos às forças de segurança em troca de uma recompensa.
A possibilidade de a nação do Oriente Médio capturar o tripulante levanta o espectro de uma repetição da crise dos reféns do Irã em 1979, um evento traumático na história americana que lançou as bases para quase cinco décadas de relações hostis entre Washington e Teerã.
A crise, na qual estudantes militantes tomaram a embaixada americana na capital iraniana e mantiveram 52 americanos em cativeiro por 444 dias, estabeleceu um modelo para o Irã que seria aperfeiçoado nas décadas seguintes como forma de infligir dor a seus adversários e extrair concessões.
Desde 1979, o governo iraniano tem usado repetidamente a tomada de reféns como tática contra seus adversários. Deteve americanos, europeus e outros cidadãos estrangeiros, às vezes prendendo-os por anos antes de libertá-los, frequentemente em troca de dinheiro ou da libertação de seus próprios cidadãos presos no exterior. Usou reféns como ferramentas de propaganda e para estabelecer vantagem.
A crise de 1979 passou a definir o último ano da Presidência de Jimmy Carter e serviu para muitos como símbolo de seus fracassos. O atual presidente dos EUA, Donald Trump, criticou repetidamente a forma como Carter lidou com a crise dos reféns, chamando-a de “patética”.
Em 1980, Trump disse a um jornalista: “Que este país fique parado e permita que um país como o Irã mantenha nossos reféns, na minha opinião, é um horror, e não acho que eles fariam isso com outros países”.
Hamidreza Azizi, especialista em questões de segurança iraniana no Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança, uma organização de pesquisa, disse que o Irã poderia adotar uma de duas abordagens se conseguir capturar o tripulante.
Se a captura permanecer em segredo, os iranianos poderiam abordar os EUA de forma privada e fechar um acordo nos bastidores, exigindo concessões em troca da libertação secreta do tripulante. Ou o Irã poderia exibi-lo diante das câmeras como propaganda.
Essa seria a estratégia mais provável: “Eles realmente querem apresentar essa imagem de vitória e também humilhar Trump”, disse Azizi.
Ali Alfoneh, pesquisador sênior do Instituto dos Estados árabes do Golfo, com sede em Washington, apontou para um incidente de 2007 no qual o Irã capturou marinheiros britânicos, afirmando que suas embarcações haviam invadido águas iranianas. Os marinheiros foram vendados, ameaçados e submetidos a pressão psicológica antes de darem declarações gravadas em vídeo nas quais pareciam se desculpar. Mas não houve relato de danos físicos a eles, observou Alfoneh.
“O então presidente Mahmoud Ahmadinejad maximizou a cobertura da mídia internacional ao anunciar sua libertação e pessoalmente apertou suas mãos”, disse Alfoneh em um email. Ele acrescentou que o tratamento do tripulante americano provavelmente seria diferente, dado que EUA e Irã estão em guerra.
Mesmo que o desaparecido seja resgatado pelos EUA, o episódio ressalta os riscos de conduzir missões sobre território hostil contra um adversário com capacidade de retaliação. Operações de resgate são inerentemente perigosas porque militares americanos adicionais são colocados em risco.
Um helicóptero Black Hawk americano envolvido na busca foi atingido por tiros de terra na sexta-feira (3), mas escapou em segurança. E um segundo avião de combate, um A-10 Warthog, caiu na região do golfo Pérsico, de acordo com duas autoridades americanas que falaram sob condição de anonimato para discutir questões operacionais. O piloto daquele avião foi resgatado.
Autoridades iranianas e comentaristas pró-governo disseram pouco até agora sobre o tripulante desaparecido. Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento iraniano e membro poderoso do establishment político do Irã, zombou dos Estados Unidos nas redes sociais.
“Depois de derrotar o Irã 37 vezes seguidas, esta brilhante guerra sem estratégia que eles começaram agora foi rebaixada de ‘mudança de regime’ para ‘Ei! Alguém pode encontrar nossos pilotos? Por favor?'”, escreveu Ghalibaf. “Uau. Que progresso incrível. Gênios absolutos.”




