Superávit com China mascara frágil economia brasileira – 12/09/2025 – Igor Patrick

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No debate sobre a balança comercial do Brasil com outros países, a China quase sempre aparece como salvadora da pátria. Seus bilhões sustentam superávit, acumulando US$ 276 bilhões e garantindo reservas internacionais robustas. Essa narrativa, porém, acomoda o país em uma posição frágil. Embora o saldo seja positivo até agora, repousa sobre uma base que corrói a capacidade de gerar complexidade produtiva em casa.

Foi o que mostrou um excelente estudo do Centro Empresarial Brasil-China publicado em parceria com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços na quarta-feira (10) revelando que 8 em cada 10 dólares exportados para Pequim saem de três produtos: soja, minério e petróleo.

Não é irrelevante que esses setores tenham se tornado sofisticados, com inovações como a tropicalização da soja ou a engenharia do pré-sal, mas o problema não é tecnológico, e sim estrutural. O Brasil permanece incapaz de ampliar sua pauta, aprisionada em poucos nichos de excelência enquanto o restante da indústria perde densidade.

Talvez o dado mais incômodo não esteja na balança, mas no emprego. Em 2022, 5,2 milhões de postos estavam ligados a importações chinesas, contra 2,2 milhões gerados pelas exportações.

Gente empregada é sempre uma ótima notícia, mas significa que o Brasil se movimenta mais para distribuir, transportar e vender manufaturas chinesas do que para produzir e exportar seus próprios bens. O mercado de trabalho segue consolidado em serviços de menor qualificação, em detrimento da indústria, que historicamente paga salários mais altos e sustenta inovação.

Essa engrenagem funciona porque, assim como é o caso em quase todo o mundo, o país se habituou a depender de insumos chineses. A pandemia serviu para mostrar os riscos dessa dependência e hoje, com a mudança na política industrial de Pequim que privilegia produtos de maior valor agregado, os custos podem aumentar, e a oferta, nem sempre estar garantida.

Não é difícil perceber para onde a China caminha. Suas empresas migram parte da produção para o Sudeste Asiático e instalam filiais no Brasil para montar carros elétricos com peças importadas. O país asiático avança em setores de ponta, enquanto o Brasil se contenta em intermediar trocas, exportando commodities e importando bens industriais. Assim vai cristalizando sua posição periférica, de armazém de recursos naturais e bazar de manufaturas.

Mas existem brechas de oportunidade, algo que o estudo do CEBC é perspicaz em listar. O número de pequenas empresas brasileiras que exportam para a China cresce em ritmo acelerado, e há espaço em carnes, frutas, celulose e minerais estratégicos. Aproveitar esta janela demandará logística, políticas industriais claras e uma estratégia ativa de inserção em cadeias globais.

Diversificação não acontece por gravidade e ainda demanda escolha política. Nesta toada, o verdadeiro engano é acreditar que superávits são sinônimo de independência, já que aliviam a conta externa, mas não resolvem a fragilidade de um modelo que terceiriza complexidade e absorve empregos de baixa intensidade tecnológica.

Persistir nesse caminho é confundir estabilidade momentânea com projeto de país. A China não é o problema; o problema é a nossa incapacidade de transformar a relação em algo que ultrapasse a aritmética da balança comercial. Para isso, mesmo com os avanços superlativos do governo federal sob a batuta de Lula, ainda não temos resposta.


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