A guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã chega a seu primeiro mês neste domingo (29) sem um final claro à vista e com uma marca indiscutível: a tática de caos informativo empregada pelo presidente Donald Trump, o dono da bola neste jogo.
Trump concedeu dezenas de entrevistas e fez cerca de cem postagens na sua rede Truth sobre o conflito ou aspectos relacionados a ele. Nenhum padrão é claro senão o do autoengano, declarando-se vitorioso há pelo menos duas semanas, e o da confusão deliberada.
A semana que passou foi exemplar. Na segunda-feira (23) venceria o prazo de dois dias dado pelo republicano para que Teerã reabrisse o estreito de Hormuz, ponto nevrálgico do conflito por escoar 20% do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo.
A pena seria a devastação de usinas de energia, jogando o Irã no escuro. O regime dobrou a aposta e, amparado pela credibilidade de sua campanha retaliatória com drones e mísseis a conta-gotas em todo o Oriente Médio, disse que faria o mesmo na região.
Trump recuou e jogou o prazo para o sábado (28). Na quinta (26), mudou de ideia e deixou tudo para depois da Páscoa, na segunda, 6 de abril.
Subjacente a essas mudanças há a negociação para o fim do conflito, que tanto Israel quanto o secretário de Estado, Marco Rubio, dizem que vai durar mais algumas semanas. Trump disse que havia sido procurado pelos iranianos e que eles lhe imploraram pelo fim da guerra.
Teerã negou, afirmando que o plano de 15 pontos que chegou à sua mesa por meio de emissários paquistaneses era inaceitável, devolvendo pelos mesmos canais uma proposta igualmente indigesta, na qual entre outras coisas o país persa se arroga o direito de cobrar pedágio em Hormuz.
Mais ainda, os iranianos não citam nenhuma concessão acerca de seu programa nuclear, o “casus belli” inicial de Trump e Binyamin Netanyahu —sendo que o premiê israelense trava uma guerra própria, até com nome diferente, Operação Leão Rugindo, ante a operação Fúria Épica dos EUA.
Tel Aviv foi para o tudo ou nada, atacando duramente os iranianos e disposta a absorver a retaliação, que o Irã espalhou por todo o Oriente Médio —uma medida sagaz para pressionar Trump, mas arriscada no médio e longo prazos. O sul do Líbano, de quebra, parece destinado a uma nova ocupação.
Acerca de objetivos, a situação é ainda mais fluida. Se é evidente que nenhum país anuncia sua meta numa campanha militar, o comportamento de Trump antes e depois da decapitação da teocracia no estouro do conflito mostravam que sua intenção era implantar um governo amigo em Teerã.
Fracassou. A teocracia, hoje mais para uma ditadura militar sob a Guarda Revolucionária, logrou uma reação rápida e mostrou estabilidade institucional, elegendo um novo e ausente líder supremo e se mantendo no controle do país.
Não que esteja sendo fácil. Só os EUA promoveram 10 mil ataques até o fim da semana passada. Israel fez sua última contagem no dia 19, e estava em 8.500, incluindo as ações contra o Hezbollah no Líbano.
A escala de destruição de infraestrutura militar e industrial é inaudita senão pela devastação de Gaza na guerra que seguiu o ataque terrorista do Hamas ao Estado judeu. E o Irã é 4.500 vezes maior que o território palestino.
Isso colocado, a teocracia sobrevive, colocando Trump sob pressão. O bloqueio de mais de 90% do tráfego em Hormuz é o sintoma mais claro disso, com o americano recorrendo ao vaivém para escamotear o fato de que o Irã tem vantagem estratégica no gargalo marítimo.
Primeiro, o americano convidou aliados e até a China a enviar navios para garantir o trânsito de seus petroleiros, afinal os EUA não precisam das commodities de lá. Só que os americanos necessitam de estabilidade no mercado global e nas cadeias de suprimento, todas afetadas pela disrupção dos preços altos.
Sem sucesso e isolado, Trump passou a atacar seus pares, mirando especificamente a Europa, chamada de covarde. É de se questionar como a Otan, aliança formada para conter os russos no continente em 1949, sobreviverá a mais esta crise.
Depois, o republicano voltou à carga dizendo que não precisava de ajuda de ninguém, mas que “não esquecerá” o comportamento dos aliados a quem nunca havia pedido auxílio ou consultado sobre a sapiência do ataque a Teerã.
Caos instalado, a nova bola em campo é a de uma eventual ação terrestre, de altíssimo risco para os EUA, que até aqui oficialmente só perderam 13 militares na guerra. Os mortos no Irã são mais de 1.900, 1.200 no Líbano e 53 em países árabes, que ensaiam uma reação.
Rubio negou a necessidade de tropas em solo, mas os EUA deslocam 5.000 fuzileiros navais e talvez o mesmo número de soldados aerotransportados para a região até o começo da semana após a Páscoa, não por acaso o novo prazo dado por Trump para a diplomacia funcionar.
Na mira estão posições no estreito de Hormuz e a ilha de Kharg, centro da exportação do petróleo do Irã no golfo Pérsico. A tomada é provável, mas a manutenção da conquista, incerta, dada a chuva de mísseis e drones iranianos que deverá ocorrer.
Com tudo isso, esta nova fase do conflito deverá ser marcada por bastante violência em campo. A outra certeza é de que Trump contará versões diferentes dos fatos visando confundir o adversário e enganar o público doméstico, algo que trai a falta de clareza estratégica sobre a guerra que iniciou.




