‘Toda mulher casada deve ser submissa’, disse tenente-coronel a PM 2 dias antes da morte dela

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O tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, preso sob suspeita de feminicídio contra a própria mulher, a também policial militar Gisele Alves Santana, afirmava à companheira que o relacionamento ideal para ele envolvia um “macho alfa provedor” e uma “fêmea beta obediente e submissa”.

Pelos diálogos, Geraldo Neto cobra da esposa mais atenção e afeto, além de destacar que arcava com a maior parte das despesas do casal. Já Gisele, em mensagens, chegou a sugerir o fim do relacionamento, contrariando a versão apresentada pelo tenente-coronel, que afirma que a decisão de separação partiu dele. Segundo ele, Gisele teria tirado a própria vida após uma discussão em que ele comunicou o desejo de se separar.

A defesa de Geraldo Neto afirma que informações e interpretações da “vida privada” do militar estão sendo divulgadas “por meio de conteúdos descontextualizados” e que isso fere sua honra e dignidade. “No momento oportuno, sua equipe jurídica irá reprochar toda e qualquer divulgação ou interpretação que venha vilipendiar tais direitos”, declarou.

As mensagens fazem parte de uma denúncia apresentada pelo Ministério Público à Justiça de São Paulo nesta quarta-feira (18). A 5ª Vara do Júri aceitou a denúncia, tornou o policial réu e decretou sua prisão preventiva.

Antes disso, ele já havia sido preso por decisão da Justiça Militar, no âmbito de investigação conduzida pela Corregedoria da PM. Pela Polícia Civil, foi indiciado por feminicídio e fraude processual.

A defesa afirmou estar “estarrecida” com o que chamou de “decreto dúplice de prisão”, já que o militar foi alvo de decisões tanto na Justiça Militar quanto na comum. Os advogados também disseram que ele tem colaborado com as investigações e forneceu endereço para cumprimento do mandado.

Segundo o Ministério Público, as mensagens extraídas do celular indicam um relacionamento conturbado, com sinais de violência, e apontam que o desejo de separação partiu de Gisele.

Em um dos diálogos, Geraldo afirma: “Eu invisto todos os meses, 3 mil reais de aluguel, 2 mil reais de condomínio, 500 reais de água e luz, 500 reais de gás, fora as coisas que eu compro de mercado e todas as vezes que nós saímos eu pago tudo sozinho (…) e você investe quanto? Não tem dinheiro, blz. Investe amor, carinho, atenção, dedicação, sexo… mas nem isso você faz”.

Gisele responde: “Se você acha que só contribuindo com o dinheiro já está fazendo sua parte, ótimo, mas pra mim não é assim que funciona, nunca foi assim e não vai ser agora que vai mudar (…) por mim separamos, não vou trocar sexo por moradia e ponto final”.

Outras mensagens atribuídas ao tenente-coronel também descrevem sua visão de relacionamento. “Marido provedor, esposa carinhosa e submissa. Não tem atrito”, escreveu. Em outro trecho, afirmou: “Eu te trato como todo homem macho alfa trata sua esposa — com amor, carinho, atenção e autoridade de macho alfa provedor e fêmea beta obediente e submissa. Como toda mulher casada deve ser”.

Segundo o Ministério Público, essas mensagens, enviadas dias antes do crime, revelam um comportamento “machista, agressivo, possessivo, manipulador e autoritário”, além de indicarem risco de interferência nas investigações.

De acordo com decisão do Tribunal de Justiça Militar, o crime teria ocorrido em 18 de fevereiro, no apartamento do casal, no Brás, região central de São Paulo. Durante uma discussão, o tenente-coronel teria imobilizado Gisele por trás e efetuado um disparo na têmpora.

As autoridades também apontam indícios de que ele teria alterado a cena do crime para simular suicídio. A defesa sustenta que Gisele atentou contra a própria vida após ser informada sobre a separação.

A promotoria, no entanto, afirma que há provas materiais e indícios suficientes de autoria. Entre os elementos citados estão o laudo necroscópico, que aponta disparo à curta distância; a reprodução simulada, que descarta a hipótese de suicídio; e vestígios de sangue nas roupas do suspeito.

Outro ponto destacado é o tempo entre o disparo e o acionamento do socorro. Segundo a denúncia, o militar teria permanecido no local por mais de 20 minutos antes de pedir ajuda.

Imagens de câmeras de segurança mostram que, ao sair do apartamento, ele estava com o cabelo seco. Depois, retorna ao imóvel e aparece novamente com o cabelo molhado, o que, segundo o Ministério Público, indicaria tentativa de sustentar a versão de que estava no banho no momento do ocorrido.

“Tudo isso indica a adulteração do local do crime e criação de uma história não condizente com a realidade”, afirma a promotoria.

A acusação também aponta que o policial já teria histórico de violência contra ex-companheiras e colegas de trabalho.

'Lugar de mulher é em casa', disse tenente-coronel à esposa em mensagens

Colegas de trabalho da vítima também descreveram o tenente-coronel como “ciumento, controlador e invasivo”. O inquérito cita visitas ao local de trabalho da esposa, mesmo sem atribuição para tal, com base em sua “ascendência hierárquica”

Folhapress | 07:40 – 19/03/2026



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