Medo, dor de cabeça, sensação de sobrecarga, tensão e luto são algumas das palavras que aparecem no chat logo no início de um treinamento para vigilantes do ICE, a agência de imigração dos Estados Unidos.
Nas redes sociais, multiplicam-se vídeos que mostram moradores filmando e confrontando verbalmente agentes do ICE durante operações. Muitas dessas pessoas não estão nesses locais por acaso, mas são parte de um grupo de vigília que se organiza para documentar as ações e ajudar aqueles levados pelo ICE.
Apesar do temor, os participantes do treinamento, que a Folha acompanhou na noite desta quinta-feira (22), demonstram esperança de que a mobilização ajude a proteger suas comunidades. “Estou revoltada, vamos proteger nossas crianças”, escreveu uma das participantes durante a sessão.
O objetivo da iniciativa é alertar moradores e garantir apoio a pessoas que têm sido levadas de forma violenta pelo serviço de imigração.
Manifestações contra a atuação do ICE ganharam força após a morte de Renée Good, no início de janeiro, em Minneapolis e continuaram neste fim de semana. A reação da população ganhou força neste fim de semana, após a cidade registrar mais uma morte, neste sábado (24), desta vez de Alex Pretti, 37, um enfermeiro e cidadão americano como Good.
O governo Trump diz que os manifestantes são “agitadores e insurgentes”, acusa o governador de Minnesota e prefeito de Minneapolis de quererem causar uma insurreição e acusa manifestantes de representarem ameaça a agentes federais. A secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, classifica manifestantes como Pretti de “terroristas domésticos”.
A sessão online de treinamento acompanhada pela reportagem durou uma hora e meia e é uma iniciativa do grupo States at the Core [estados no centro], uma das organizações que buscam distribuir informações sobre a importância da união da comunidade.
Logo no início, os participantes são orientados a não realizar gravações não autorizadas da tela nem compartilhar informações privadas que possam colocá-los em risco.
Ao longo do treinamento, batizado de “ICE Watch” (vigília do ICE), os organizadores explicam os três pilares da iniciativa: documentar ações dos agentes, prestar auxílio a pessoas alvo da fiscalização migratória e reduzir a violência de qualquer órgão de segurança.
“Não se trata de interferir” e “a vigilância é uma tática não violenta” estão entre os alertas.
De acordo com os organizadores do treinamento que a reportagem acompanhou, o foco na documentação e na resposta rápida permite prestar apoio imediato a moradores em situações de crise, compreender uma nova fase da atuação do ICE e reforçar a segurança coletiva por meio da ação comunitária.
Para orientar os observadores, o treinamento apresenta o acrônimo SALUTE, (saudação, em inglês), que reúne informações a serem coletadas ao identificar uma operação: o tamanho da ação, o que está sendo feito pelos agentes, o tipo de armamento e uniforme utilizado e a data e o horário da ocorrência.
Após reunir os dados, a orientação é compartilhá-los com grupos locais, pedir ajuda para que outras pessoas auxiliem a confirmar a presença dos agentes, mobilizar pessoas até o local e oferecer orientações a vizinhos que estejam sendo alvo da ação.
O treinamento também alerta para o fato de que nem sempre os funcionários usam uniformes ou identificação oficial e para os tipos de veículos mais usados pelos agentes —frequentemente descaracterizados, em geral, são SUVs pretas.
Também afirmam que é importante que comunidades atribuam papéis diferentes para cada um durante uma ação, como deixar uma pessoa dedicada à a gravar a ação, enquanto outro pode gritar os direitos que a pessoa que está sendo levada tem e pedir contatos de familiares antes de o detido desaparecer com os agentes.
Em todos os papéis, é reiterada a importância de não interferir na ação, mas avisado que o direito de gravar as ações está na Constituição do país.
Além disso, apitos têm sido usados como forma de alertar vizinhos sobre a presença de agentes na região. Nas redes sociais, há postagens que ensinam os códigos: apitos pausados indicariam circulação do ICE no bairro; apitos contínuos sinalizariam uma operação em andamento.
Segundo Rhea Biswas, 21, que vive em Washington e esteve em Minneapolis na última semana, o medo na cidade se espalhou para além dos bairros mais afetados. “Há um clima geral de pânico. Shoppings e comércios estão vazios porque as pessoas têm medo de sair de casa”, afirma.
Ao mesmo tempo, diz ela, é possível perceber a importância da resposta coletiva na região. Ela relata que os grupos mantêm registros das placas de veículos usados por agentes, organizam patrulhas para alertar sobre carros descaracterizados e mobilizam moradores para avisar comunidades vulneráveis.
“Quando há um relato de abordagem ou prisão, dezenas de pessoas aparecem imediatamente. Elas se organizam por quarteirões, observam, registram e documentam tudo, porque o ICE está simplesmente fazendo pessoas desaparecerem”, diz.
Além de treinamentos, orientações do que fazer em meio a uma ação se espalham no TikTok, com perfis que se dedicam a orientar como agir diante de uma abordagem: pedir um mandado judicial, perguntar se a pessoa está sendo presa e manter a calma estão entre as recomendações mais frequentes.
Há ainda quem aposte em estratégias para distrair os agentes. Em um deles, uma cidadã americana cola adesivos da bandeira do México no carro como forma de despistar e ganhar tempo. “Pode me mandar encostar agora”, ironiza, dirigindo-se ao ICE.




