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A viagem de Donald Trump a Pequim não deve acontecer no final de março, como programado. O presidente americano anunciou nesta terça-feira (17) que o encontro com Xi Jinping foi adiado para “daqui a cinco ou seis semanas”.
- O comunicado foi feito durante encontro com o primeiro-ministro irlandês, Micheál Martin, na Casa Branca.
Trump disse que a visita será remarcada, sem dar mais detalhes, mas sugeriu que a guerra contra o Irã foi o principal motivo.
A reunião era a âncora diplomática do semestre, uma chance de consolidar a trégua comercial firmada com Pequim no fim do ano passado, quando os dois lados suspenderam a guerra tarifária por um ano e Trump aceitou o convite para uma visita de Estado à China.
O estreito de Hormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo comercializado no mundo, está bloqueado pelo Irã desde que ataques aéreos americanos e israelenses mataram o líder supremo Ali Khamenei. Os preços do petróleo chegaram a US$ 105 por barril nesta terça.
Trump pressionou China, Japão, Coreia do Sul, Reino Unido e França a enviar navios de guerra para proteger a rota. Nenhum aliado se comprometeu publicamente.
Pequim pediu cessar-fogo imediato no Irã e disse estar “em contato com todas as partes” para reduzir tensões, mas não respondeu ao pedido americano de envio de navios.
O adiamento das viagem se tornou mais confuso à medida que Trump misturou razões:
- No fim de semana, ele sugeriu que queria saber a posição de Pequim sobre Hormuz antes de embarcar.
- Nesta segunda (16), disse ter pedido um adiamento de “um mês mais ou menos” por causa da guerra.
- Nesta terça, voltou atrás em parte: afirmou que os EUA não precisavam de ajuda e que o bloqueio de Hormuz era “só uma questão de tempo”.
O secretário do Tesouro, Scott Bessent, que encerrou a rodada de negociações com o vice-premiê He Lifeng em Paris, tentou separar os dois assuntos. Ele afirmou que qualquer mudança na agenda seria por razões logísticas, não pressão diplomática.
Enquanto isso, Pequim disse estar “em comunicação” com Washington, sem confirmar novas datas.
Por que importa: a visita era vista como oportunidade para fechar acordos em minerais críticos e produtos agrícolas e renovar a trégua tarifária.
Analistas ouvidos pela imprensa internacional dizem que Pequim também não se incomodou em ter mais tempo para preparar o encontro.
O problema é que, quanto mais a crise em Hormuz se arrasta, mais difícil fica para os dois lados ignorar a tensão de fundo, já que Trump quer que a China use sua influência sobre Teerã, e Pequim não tem nenhum incentivo óbvio para fazer isso de graça.
O que também importa
★ Parlamentares sul-coreanos cobraram que Seul impeça a repatriação forçada, pela China, da mãe de um desertor norte-coreano, detida há mais de um ano. O caso ganhou peso após Kim Geum-sung pedir ao chanceler Cho Hyun informações sobre a situação da mãe, presa ao tentar chegar à Coreia do Sul. No Parlamento, deputados disseram que o governo já alertou Pequim para não devolvê-la à Coreia do Norte, mas reconheceram que o impasse continua. Grupos de direitos humanos afirmam que deportados enfrentam risco de tortura, prisão, violência sexual e trabalho forçado.
★ O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, esteve em Shenzhen para atrair investimentos chineses à digitalização do SUS. Em encontros com executivos da Neusoft, da Mindray e da Huawei, ele discutiu temas que vão da gestão hospitalar e integração de dados clínicos a equipamentos médicos, computação em nuvem e conectividade. Segundo o ministério, a meta é montar a primeira rede de serviços inteligentes do sistema público, com uso de IA e novos aparelhos. A Agência Brasil, que acompanha a visita, reportou que a Neusoft anunciou uma fábrica de equipamentos de imagem em Santa Catarina, enquanto a Mindray tratou de UTIs com inteligência artificial e de acordos para produção local.
★ O governo brasileiro anunciou que vai flexibilizar as regras de inspeção da soja exportada à China. A partir de agora, empresas privadas contratadas pelas exportadoras ficarão responsáveis pela coleta de amostras, tarefa antes feita por fiscais federais. A mudança busca destravar embarques após o endurecimento dos controles fitossanitários de Pequim, que identificou sementes de plantas daninhas proibidas em cargas brasileiras. Pelo novo modelo, o Ministério da Agricultura manterá a coleta direta em apenas 10% dos lotes. O impasse vinha criando gargalos nos portos e levou tradings como a Cargill a suspender temporariamente vendas ao mercado chinês.
Fique de olho
O Comando Sul das Forças Armadas dos EUA (Southcom, no acrônimo em inglês) monitora 23 projetos portuários chineses e 12 instalações espaciais na América Latina e considera todos “potenciais ativos de uso duplo”, com capacidade de apoiar operações militares de Pequim.
A avaliação foi apresentada pelo general Francis Donovan, chefe do Southcom, em audiência no Comitê de Serviços Armados da Câmara nesta terça-feira.
Donovan também descreveu um esforço deliberado para afastar o Exército brasileiro da China. Segundo ele, Pequim será excluída do Exercício Formosa, manobra anfíbia liderada pelo Brasil, enquanto os EUA voltarão a participar. Em 2024, tropas chinesas e americanas já haviam atuado juntas na operação em Goiás, em um ambiente descrito por oficiais brasileiros como “tenso e competitivo”.
O general afirmou ainda que acompanha a presença chinesa na mineração e no processamento de minerais críticos na América Latina, apontando risco de longo prazo para a base industrial de defesa dos EUA.
Por que importa: o depoimento de Donovan formaliza uma posição que até então operava nos bastidores. Ao afirmar publicamente que trata projetos comerciais chineses como potenciais ativos militares, o Southcom transforma uma suspeita diplomática em postura oficial.
Na prática, isso eleva o custo político: governos latino-americanos que firmarem contratos com empresas chinesas em áreas como portos, mineração ou espaço passam a ser vistos por Washington não apenas como parceiros comerciais, mas como possíveis vetores de influência adversária.
para ir a fundo
- A Escola de Estudos Internacionais da Universidade de Pequim abriu seleção para várias vagas de professor, incluindo algumas no chamado “tenure track” (quando o profissional tem a chance de conquistar estabilidade e não poder ser demitido). Mais informações neste link.
- O Instituto Confúcio da Unesp realiza nos dias 25, 26, 27, 30 e 31 de março o curso “China, 1980-2050: das Reformas e Abertura a maior potência tecnológica”. Ministrado por Vladimir Pomar, a formação terá aulas online e custa R$ 250. Mais informações aqui.




