O presidente Gustavo Petro chegou à Casa Branca por uma porta lateral, longe das câmeras, para o encontro que pôs fim a meses de troca de insultos entre o colombiano e Donald Trump. A mesma entrada discreta foi usada em outubro pelo radioativo líder sírio, Ahmad al-Sharaa, que, até o ano passado, estava incluído numa lista de terroristas por ligações com a Al Qaeda.
A Casa Branca vetou a costumeira entrada de equipes de vídeo para registrar os primeiros minutos da reunião com Petro que se estendeu por duas horas e foi declarada um sucesso pelos volúveis chefes de Estado.
Não há coincidência. No caso de Petro, havia temor pela exibição de cenas tensas como as que ocorreram durante a visita do ucraniano Volodimir Zelenski em fevereiro do ano passado.
Trump governa como o produtor de um perene programa de televisão de uma era em extinção. Afinal, a maioria dos cerca de 130 milhões de domicílios americanos já nem tem assinatura de TV. A audiência que importa aqui é a de um só —o próprio presidente.
Nos dois dias seguintes ao brutal assassinato do enfermeiro Alex Pretti, morto por agentes de imigração ocupando Minneapolis, assessores e membros do gabinete inundaram os programas de TV a cabo com insultos, num esforço coordenado para desumanizar a vítima.
No terceiro dia, o âncora de um programa da Fox News que o presidente assiste regularmente repetiu três vezes no ar o pedido: mande Tom Homan, o czar da fronteira, para Minneapolis.
Em 20 minutos, Trump avisou, pela rede social, que estava despachando Tom Homan para a maior cidade do estado de Minnesota. Foi uma capitulação à ótica, não uma condenação da violência. O presidente americano passa tantas horas diante da TV que empresários desejosos de vantagens do governo federal compram comerciais nos intervalos de seus programas favoritos.
O heroico desempenho de Dwight Eisenhower no comando das forças aliadas contra Adolf Hitler conduziu o general à Casa Branca, em 1952. Já em 2016, as vitórias de audiência no horário nobre levaram o atual presidente ao posto.
Trump é produtor, diretor, cenógrafo, contrarregra e diretor de elenco dos eventos públicos que conduz. Membros de seu gabinete não ousam desviar do obrigatório script lisonjeiro. Até as assessoras seguem o figurino de cirurgia cosmética conhecido como o “rosto de Mar-a-Lago”.
O que pode evocar a referência ao filme “Muito Além do Jardim” (“Being There”, 1979), em que o brilhante Peter Sellers vive o jardineiro Chance, iletrado e repetidor de platitudes ouvidas na TV. Chance ganha fama e acaba aconselhando até o presidente da República. Sellers confessou a um crítico de cinema americano que era desprovido de uma personalidade. “Se não estiver interpretando um papel, sou ninguém,” disse.
Mas o presente governo pela TV pode estar exercendo papel atenuante dos instintos presidenciais. A TV é um meio que tende à moderação. Uma equipe extremista, coordenada pelo virtual primeiro-ministro Stephen Miller, nominalmente subchefe de gabinete, age para manter Trump pouco informado sobre seu real impacto entre os eleitores.
Enquanto os aliados republicanos no Congresso fingem cochilar nessa rotina de crises diárias, a TV acorda o presidente para a realidade. Sim, é surreal.




