[RESUMO] Em entrevista à Folha, o embaixador José Maurício Bustani comenta o complexo cenário geopolítico atual, aponta tendência ao surgimento de uma multipolaridade e relembra como enfrentou o governo de George W. Bush, em 2002, ao refutar a acusação de que o Iraque tinha armas de destruição massiva, o que provocou sua queda da liderança do órgão incumbido de coibir armas químicas, por pressão americana. Duas décadas depois, ele afirma que Trump também usa argumento falso ao acusar o Irã de desenvolver armas nucleares. Com o mesmo espírito independente, Bustani rebate interpretações dominantes: para ele, embora Trump seja mais explícito, a política americana segue a mesma, e Putin, após a Ucrânia, não deve querer invadir nenhum outro país.
José Maurício Bustani, 80, viveu a maior parte da vida entre “o feijão e o sonho”: as carreiras paralelas de pianista e diplomata. Viu um piano pela primeira vez aos 5 anos, em Porto Velho (Rondônia, onde nasceu), e nunca abandonou a paixão. Mas o senso prático e a morte prematura do pai o levaram à diplomacia, que abraçou aos 22 anos.
Foi como um dos mais destacados embaixadores brasileiros, cedido a uma agência internacional em 1997, que assistiu a um enredo que agora vê se repetir: os Estados Unidos acusam um país do Oriente Médio de desenvolver armas de destruição em massa e atropelam o direito e os mecanismos internacionais para justificar uma intervenção militar.
Em 2002, o alvo era o Iraque, sob Saddam Hussein. O governo do republicano George W. Bush, ainda sob o trauma dos atentados de 11 de Setembro de 2001, com base em informações do serviço secreto britânico, acusava Bagdá de manter as armas químicas usadas contra civis iranianos na guerra contra o Irã (1979–1989) e contra a população curda, em 1988.
Bustani, primeiro diretor-geral da Organização para a Proibição de Armas Químicas (Opaq), recém-reeleito com apoio de Washington e seus aliados, negociava a adesão do Iraque à entidade, o que permitiria a entrada de inspetores no país e, ele estava certo, demonstraria que a suspeita era falsa, como indicavam os dados em poder da agência.
Para impedir o acordo com Bagdá, os EUA convocaram uma assembleia da Opaq e, com apoio de seus aliados (menos a França), destituíram o embaixador brasileiro. No ano seguinte, houve a invasão do Iraque e ficou provado que as armas de destruição em massa não existiam. A história é narrada no documentário “Sinfonia de um Homem Comum”, do cineasta José Joffily (Globo Filmes, disponível no Prime Vídeo).
A mentira foi esquecida, o Iraque se fragmentou e empresas americanas passaram a explorar petróleo.
Um quarto de século depois, Washington acusa a teocracia xiita iraniana de manter um programa nuclear com fins militares e mísseis capazes de atingir Israel e aliados regionais. Acusação falsa com a mesma intenção, afirma Bustani: neutralizar uma potência regional, fragmentar o país e submetê-lo a interesses políticos e econômicos dos EUA.
Ele lembra que o Irã assinou o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) e é inspecionado regularmente pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que não confirma enriquecimento de urânio nos níveis necessários para armas nucleares.
“Você não pode exigir que o país não tenha energia nuclear para fins pacíficos. Os Estados Unidos têm 94 usinas; a França, 58; a China, 59; a Rússia, 38; a Coreia do Sul, 25; a Índia, 20; o Canadá, 19… O Brasil tem duas e meia (porque não chega a um acordo sobre Angra 3). Por que o Irã não pode ter?”, questiona.
O cenário geopolítico, porém, mudou. Em 2002, após o fim da Guerra Fria, o mundo era unipolar. Hoje, Bustani vê tendência à multipolaridade: os EUA perdem influência e lutam para recuperá-la; a Rússia reergueu a economia e mantém poder bélico; a China, segunda maior economia do mundo, já se contrapõe a Washington; e surgem polos regionais com interesses próprios, como Índia, Indonésia, Irã e Brasil.
Para usar uma expressão musical, Bustani desafina o coro uníssono das interpretações dominantes entre analistas ocidentais. Enquanto europeus perguntam quem pode ser a próxima vítima de Vladimir Putin após a Ucrânia, ele responde: “Ninguém”.
Trump torna mais radical a política americana? “O tom mais explícito é a única diferença.” Trump apoia Putin? “Ele tem assessores que pensam em ‘realpolitik’. Está certo nesse caso.” Os republicanos são mais imperialistas? “Sabe que presidente americano causou mais guerras? Obama. Sabe quem provocou a atual Guerra da Ucrânia? O Clinton.”
A Europa pode ser contraponto aos EUA? “Com os atuais líderes, não.” O Brasil é leniente com ditaduras? “Sempre dizem isso. Mas ninguém cobra o Trump por sequestrar o ditador Maduro e deixar intacto o regime da Venezuela…”
José Maurício Bustani recebeu a Folha em seu apartamento no Rio e depois falou novamente por telefone, para atualizar a análise do cenário no Oriente Médio e detalhar pontos da entrevista.
O senhor disse recentemente que nós estamos entrando em um momento de dar murro na mesa. Eu pergunto: já não estamos nesse clima desde 2000?
No ano 2000, o Brasil não estava disposto a dar murro na mesa. Ao contrário, naquele momento tinha um alinhamento total com a posição dos EUA, que já estavam no processo de desenvolvimento da política hegemônica que está a todo vapor hoje em dia.
“Dar murro na mesa” é você retrucar quando vê que o direito está do seu lado. Foi o que o presidente Lula fez em relação às tarifas. Ele não baixou a cabeça, conversou com o Trump e resolveu grande parte do problema. Eu acho que no próximo encontro ele poderá resolver o que sobra.
E com isso tudo, você veja que, apesar da campanha que aconteceu contra o Brasil, o país está sendo poupado e respeitado, a ponto de o próprio Trump convidar Lula para ir a Washington. O murro na mesa que eu quis dizer é você realmente defender o que acredita como sendo princípios do país, a defesa da soberania e a defesa do direito internacional.
O desrespeito ao chamado direito internacional pelos Estados Unidos, em 2002, deu uma espécie de exemplo para Trump? O seu caso na Opaq não foi uma imposição à força vamos dizer assim?
Foi. Foi uma chantagem. Eles queriam ter o controle, como sempre tiveram, das organizações internacionais, porque, por serem o maior contribuinte, a maior economia, exercem um controle muito grande sobre essas organizações, através da imposição de que a chefia da administração seja americana, de que os americanos tenham tantos cargos, as posições-chave etc.
E, mais adiante, quando uma organização os incomodava do ponto de vista do seu mandato, que não era o que os americanos esperavam, eles tentavam influenciar seus diretores-gerais, até, no meu caso, conseguir o meu afastamento.
Alguns se acomodaram, como foi o caso do diretor-geral da AIEA naquela época, e outros não, como foi o meu caso. Eu não pude aceitar porque aquilo era uma violação da convenção. Era uma mentira que queriam apresentar à comunidade internacional. Eles fizeram toda uma articulação para me remover. Eu fui “voted out”, como se diz em inglês, simplesmente por falta de votos de apoio.
Naquele momento, eu fui conversar com o presidente Fernando Henrique e o ministro Celso Lafer, expliquei a situação, mas eles não fizeram o que tinham que fazer, que era explicar aos países da América Latina, da Ásia e da África que o Brasil me apoiava. Esses países ficaram achando que o Brasil tinha reservas a mim. Na hora H, eles se abstiveram.
Então, eu fui demitido porque os ocidentais controlados pelos americanos votaram com os americanos e me derrubaram. Menos a França, porque o então candidato brasileiro à Presidência, o Lula, passava por Paris quando isso aconteceu, ouviu falar da história, que tinha um brasileiro nas armas químicas que estava sendo perseguido pelos americanos, e falou com o chanceler francês na época, o Hubert Védrine, e explicou a situação.
O Védrine era um homem extremamente competente, muito ligado ao François Mitterrand, no governo (conservador) de Jacques Chirac. Ele disse: “Não se preocupe, a França não acompanhará os ocidentais nesse caso”. E foi o que aconteceu.
Parece que, naquele momento, os Estados Unidos ainda buscavam boas desculpas para suas ações, diferentemente do que o Trump faz com o Irã…
Claramente, sem desculpa nenhuma. “Eu faço porque eu quero. Direito internacional, pra mim, não importa”, como o Trump falou claramente. Esse tom pouco sutil é a grande diferença, mas a política é a mesma. Todos os presidentes americanos, sobretudo democratas, são responsáveis pelas grandes guerras feitas pelos americanos. Se você olhar hoje na história: quem foi o presidente que mais fez guerras? Obama!
Não foi o Bush?
Não, foi o Obama. E ninguém se dá conta disso. Quem é o presidente que determinou a crise da Ucrânia? Clinton. Em 1997, quando houve a reunião em que ele decidiu, contra o que havia sido combinado entre Gorbatchov e Reagan [o fim da Otan com o fim do Pacto de Varsóvia], que a Otan seria ampliada e a Ucrânia tinha que fazer parte. Isso é o início da guerra de hoje. Mas a mídia ocidental não cobre nada disso.
A multipolaridade defendida pelo Brasil acabou?
Você teve, após o fim da Guerra Fria, um mundo unipolar, em que os americanos imperaram e impuseram a sua vontade ao mundo inteiro, porque a Rússia estava desmontada, numa tentativa de recuperação, que aconteceu efetivamente com o Putin, que deu ordem ao país e economicamente o fez mudar de patamar.
Não tinha a potência da China, que se transformava em grande potência econômica e hoje em dia é a grande ameaça para os americanos do ponto de vista da sua penetração no comércio internacional, no controle das finanças internacionais e da alta tecnologia, ameaçando o poder do dólar como moeda de referência. A Guerra Fria que existe hoje, se você pode chamar assim, é a Guerra Fria entre Estados Unidos e China.
Mas é uma Guerra Fria diferente, porque é uma guerra preventiva do ponto de vista dos americanos. Eles precisam criar essa Guerra Fria para demonizar o rival. Precisam criar uma percepção internacional de que a China é uma ameaça, que vai invadir Taiwan, quando não interessa para nada invadir Taiwan. Ela faz comércio com Taiwan muito bem: se ficar no papel que Taiwan é da China, para eles está bem.
Como é que a China vê o futuro? Ela vê o futuro como uma ordem internacional restaurada, cada um comerciando e fazendo relações sem interferir na vida dos outros, respeitando seus sistemas políticos, econômicos, tradições, histórias etc. É uma proposta de relação internacional completamente diferente da proposta americana.
Quando o Trump anunciou o controle do hemisfério, a doutrina Monroe, agora Donroe, era isso. E aí já tem agora a Argentina, o Paraguai, a Bolívia, o Chile, o Equador, Costa Rica, Honduras, El Salvador… Se analisar as notícias publicadas no caso Epstein, há comentários do Steve Bannon sobre o apoio ao Bolsonaro, que fazia parte da estratégia daquele momento de criar uma grande direita.
Voltando um pouquinho: se com a China temos uma bipolaridade, a multipolaridade acabou?
Não chega a ser uma bipolaridade, digamos. Eu acho que o que está acontecendo hoje é o fim do unipolarismo, da hegemonia americana, e o surgimento de um mundo multipolar que gira em torno, primeiro, dos Brics: pela importância em termos de população, PIB mundial, comércio mundial. E dentro dos quais você tem três potências nucleares (Rússia, China e Índia).
O pacto dos Brics ainda não evoluiu como eu gostaria por conta da crise da Rússia e dessa guerra da Ucrânia, que é um capítulo que merece atenção. Mas, como diz o Xi Jinping, você respeita a soberania de cada país.
Você pode dizer que estamos a caminho de uma multipolaridade porque tem os Estados Unidos perdendo a hegemonia, desesperados para recuperar; a China como segunda maior economia do mundo, cada vez mais penetrando no resto do mundo; a Rússia ainda como uma grande potência militar; e você tem os grandes países continentais, como o Brasil; o maior país muçulmano do mundo, a Indonésia; e ainda a grande civilização do Irã, um país-chave geopoliticamente. Ele está sendo atacado pelo grande ator do Oriente Médio, Israel, que entende erroneamente que sua existência depende da compartimentação dos países vizinhos.
Como o Iraque, a Líbia, dividida em dois países, hoje não tem nem capital. Ou a Síria, que agora não se sabe bem o que é: Israel ocupou uma parte ao sul, outra parte é curda, outra parte do Estado Islâmico. Desmontar os países árabes é o sonho de Israel: ocupar o sul da Síria, o sul do Líbano, o norte da Jordânia, Gaza…, estão comprando até terrenos em Chipre.
Agora há sinais de que o Irã tem um regime que só sobrevive pela repressão brutal. A aposta parece ser a de que o regime cai fácil se houver um empurrão?
Você está errado. Você já foi lá? Primeiro, a história é mal contada como o Ocidente quer contar. O Irã é uma civilização milenar. Eles tinham um governo democraticamente eleito até 1953, que foi derrubado por estatizar o petróleo. Como os americanos queriam tomar conta do petróleo, deram um golpe, derrubaram o primeiro-ministro Mohammed Mossadegh. Colocaram no poder o xá Reza Pahlavi, que era um fantoche, um agente deles que entregou o petróleo às companhias americanas.
O xá fez uma aliança com Israel, e os EUA achavam que essa situação se perpetuaria. Tanto que o programa nuclear iraniano foi dado ao país por Estados Unidos, Alemanha e França. O xá era um autocrata, responsável por um regime violento. Em 1979, houve a Revolução Iraniana, e trouxeram quem? Um personagem que estava exilado na França, o aiatolá Khomeini. Aí estabeleceu-se realmente uma teocracia e um regime conservador.
Não obstante, você vai ao Irã e vê várias sinagogas, várias igrejas católicas, a população judia e cristã no Irã é enorme. E tem liberdade de culto. Sobre a indústria bélica, lembre que o país foi vítima de armas químicas do Iraque; foi o único país que sofreu ataques de bombas químicas em muitas décadas. Então, precisou desenvolver sua própria indústria de defesa.
Quanto à energia nuclear, o Irã assinou o Tratado de Não Proliferação Nuclear, é regularmente inspecionado pela Agência Internacional de Energia Atômica de Viena, mas continuou demonizado. Em 2015, EUA, aliados e Irã assinaram um acordo muito semelhante ao que Brasil e Turquia propuseram em 2010 e Hillary Clinton vetou. Em 2017, o Trump rompeu unilateralmente o acordo.
O senhor acha que há uma iminência, de fato, de derrubada do regime iraniano pelos Estados Unidos? Tenho dúvidas de que haverá uma tentativa de derrubada do regime iraniano. Não acredito que haja uma rebelião interna como prega a imprensa ocidental. O iraniano tem muito orgulho de ser iraniano. Diante de uma invasão externa, os iranianos se aliam à sua liderança, qualquer que ela seja. Eles têm muito orgulho da civilização deles. É um dos poucos países hoje em dia, como a China, que têm sua história e sua língua só, um povo só.
Claro que as decisões do Trump são imprevisíveis, mas não acredito que haja condições de um ataque militar ao Irã, porque Teerã conta cada vez mais com respaldo da China e da Rússia. O eixo Moscou–Teerã é histórico, e o país é chave para a Rota da Seda da China, para quem fornece petróleo.
O Brasil, no caso do Irã e outros, é acusado de ser dócil com ditaduras.
Dirão sempre isso. É parte do discurso deles, desmoralizarem um governo que defende sua soberania e a dos outros. Agora, repare que ninguém critica o Trump de ser dócil com a ditadura da Venezuela. Afinal, ele tirou o Maduro e deixou a Delcy Rodríguez. Ele é dócil? O Brasil não reconheceu a eleição do Maduro.
Com todas as novas armas e estratégias, faz sentido apoiar o argumento russo de que Napoleão invadiu a Rússia pela Ucrânia e que o Hitler também a invadiu pela Ucrânia?
Sim, faz sentido, porque a Ucrânia tem essa importância histórica por onde entraram as invasões, porque se trata de uma grande planície que dá acesso ao território russo. Para eles é de grande simbologia. Além disso, a Ucrânia tem uma parte ocidental católica de fala ucraniana, enquanto na parte oriental, na fronteira com a Rússia, a religião dominante é ortodoxa e “russoparlante”.
Ainda que a lógica histórica justificasse a ação do Putin, a invasão aumentou a resistência dos antigos países da Cortina de Ferro à Rússia e os aproximou da Otan. Há um aumento da tensão. A pergunta que todo mundo faz é: quem é a próxima vítima do Putin?
Não vai ter, essa tensão é uma criação europeia. Você acha que o Putin vai invadir Londres e Paris? Alguém com consciência política pode imaginar isso?
Não, mas acho que ele vai invadir os três países bálticos (Estônia, Letônia e Lituânia).
Jamais. Teria invadido muito antes. Por quê? Ele não precisa. Isso que o Ocidente não entende. A Europa não entende. A Rússia sempre quis ser europeia. Há um delírio coletivo na Europa a respeito da Rússia.
As políticas dos Estados Unidos para a Rússia não mostram que o Trump se entende bem com o Putin? Sim, o Trump é realista. Ele tem uma influência de um grupo de “realpolitik”. Ele quer dar uma solução, porque não há condições de a Ucrânia ganhar. Nem a Europa pode enfrentar a Rússia sem os americanos. É uma perda de tempo e de vidas. Estão matando gente à toa. Nisso, o Trump tem razão.
E a Inglaterra?
A Inglaterra fez o grande equívoco de se afastar da Europa. Eu acho que voltar pode ser um caminho, tanto que há uma série de passos nesse sentido. Eles já sentiram que foi um grande equívoco. Agora, o Reino Unido está se tornando irrelevante. O império está se transformando em uma ilha.




