Em pronunciamento à nação nesta quarta-feira (1º), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a afirmar que os objetivos militares do país na guerra do Irã estão “quase completos”, mas evitou esclarecê-los ou apresentar uma previsão detalhada para o fim do conflito.
Trump minimizou o impacto do fechamento do estreito de Hormuz, onde um quinto do petróleo mundial circula, para o mercado da commodity. “Nós não precisamos do Oriente Médio, não precisamos do petróleo deles”, disse.
Embora os Estados Unidos sejam hoje autossuficientes em petróleo —graças à técnica de fraturamento hidráulico, ou fracking, que permitiu uma nova onda de produção doméstica no país a partir de petróleo de xisto—, o país não é imune a choques de preços globais, como o que acontece agora graças ao fechamento do estreito.
No discurso, Trump disse que a guerra continua até que todos os objetivos sejam “totalmente terminados”. “Nós vamos levá-los de novo para a Idade da Pedra, onde eles pertencem”, disse Trump, afirmando novamente que isso deve acontecer “rapidamente” e que o Irã está “completamente derrotado”.
Trump também enviou indiretas para aliados da Otan, afirmando que os EUA não dependem de petróleo do estreito de Hormuz. “Países do mundo que usam o estreito de Hormuz precisam fazer algo a respeito”, disse sobre a crise, iniciada por ataques americanos e israelenses em 28 de fevereiro.
“Para esses países, muitos dos quais se recusaram a fazer parte da nossa decapitação do Irã, tenho duas sugestões: primeiro, comprem petróleo dos EUA. Segundo, criem coragem, vão ao estreito e tomem-no”, afirmou.
“Eu sugiro que vocês comprem petróleo dos EUA, nós temos muito”, continuou, dizendo que esses países, que não citou, deveriam atuar para abrir a passagem marítima. “A parte mais difícil nós já fizemos, agora deve ser fácil”, disse.
A guerra contra o Irã já deixou milhares de civis mortos, principalmente ao arrastar para o conflito também o Líbano, cuja região sul foi ocupada pelo Exército israelense. O objetivo declarado das forças de Israel é combater o Hezbollah, grupo aliado ao Irã, mas Tel Aviv se prepara para uma longa ocupação do território libanês.
O conflito também criou caos na economia global devido ao bloqueio ao tráfego de petróleo com o fechamento do estreito de Hormuz. O barril do combustível ficou perto de atingir US$ 110 nesta segunda-feira (30).
O presidente citou no pronunciamento a duração de guerras passadas dos EUA, que perduraram por anos, e disse que, em apenas “32 dias”, o Irã foi destruído e não é mais uma ameaça —ao mesmo tempo, em aparente contradição, reafirmou que a guerra continua.
Em outra contradição, disse que a mudança no regime não estava entre os objetivos da aliança israelo-americana —tanto Trump quando Binyamin Netanyahu falaram abertamente em derrubar a teocracia nos primeiros dias da guerra. “Mudança de regime não era nosso objetivo, mas houve mudança de regime, as novas pessoas são bem menos radicais”, disse, tentando mudar o significado do termo.
Nesta manhã, Trump havia dito nas redes sociais que o Irã pediu um cessar-fogo na guerra, o que foi negado pela República Islâmica. Ainda assim, o republicano disse que a suposta trégua seria analisada apenas com a reabertura do estreito de Hormuz.
“O novo presidente do regime do Irã, muito menos radicalizado e muito mais inteligente do que seus antecessores, acabou de pedir aos Estados Unidos da América um CESSAR-FOGO!”, escreveu Trump. Ele não deixou claro a quem se referia como “novo presidente”, já que Masoud Pezeshkian está no cargo desde 2024.
“Vamos considerar isso quando o estreito de Hormuz estiver aberto, livre e desobstruído”, completou Trump. A via marítima é um dos mais importantes canais de escoamento de petróleo, e seu bloqueio elevou o preço do combustível mundialmente.
O presidente Pezeshkian afirmou horas depois, em carta dirigida ao povo americano, que seu país não nutre qualquer inimizade contra os cidadãos americanos comuns. No texto, ele declarou que retratar o Irã como uma ameaça “não condiz com a realidade histórica nem com os fatos observáveis da atualidade”.
Trump havia afirmado à agência de notícias Reuters mais cedo que pretendia expressar sua insatisfação com a Otan durante seu pronunciamento e que considerava retirar os EUA da aliança militar devido à falta de apoio do grupo ao conflito no Oriente Médio.
O presidente americano vem pressionando a Europa a ajudar militarmente na reabertura do estreito de Hormuz, importante via de escoamento de produção de petróleo no golfo Pérsico. A passagem foi fechada pelos iranianos em retaliação aos ataques de Estados Unidos e de Israel, que começaram em 28 de fevereiro.
Líderes europeus reagiram à fala do presidente americano, defendendo a aliança militar. O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, chamou a Otan de “a aliança militar mais eficaz que o mundo já viu”.
“Ela nos manteve seguros por muitas décadas, e estamos totalmente comprometidos com a Otan”, disse Starmer em uma entrevista coletiva, após Trump ter declarado ao jornal britânico The Telegraph que a aliança era um “tigre de papel”.
O governo francês também fez questão de demonstrar irritação com as palavras de Trump, afirmando que a aliança militar foi criada para garantir a segurança na área euro-atlântica, e não para lançar operações ofensivas no Oriente Médio.




