Se não estava claro antes, agora é inegável. O presidente Donald Trump e o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, de Israel, iniciaram uma guerra com o Irã presumindo que provocariam uma mudança de regime rápida e fácil. Eles subestimaram enormemente a capacidade de resistência da liderança do Irã que sobreviveu e sua capacidade militar não apenas de infligir danos a Israel e aos aliados árabes dos Estados Unidos, mas também de bloquear a rota de transporte de petróleo e gás mais importante do mundo.
Isso está causando sérios danos à economia global, incluindo o mercado de ações americano, e Trump não faz ideia de como sair da confusão que criou ao iniciar uma guerra sem pensar nas implicações.
Na verdade, é constrangedor assistir ao presidente americano mudando de posição o tempo todo, ora nos dizendo que os líderes iranianos sobreviventes praticamente concordaram com todas as suas exigências, que a guerra está perto do fim e Trump venceu, ora admitindo que não faz ideia de como tirar o estreito de Hormuz das mãos do Irã.
Se os aliados ocidentais dos Estados Unidos, que Trump nunca consultou antes da guerra, não enviarem seus exércitos e marinhas para fazer o trabalho por ele, então azar o deles, diz ele: temos todo o petróleo de que precisamos. Isto é, a menos que Trump decida “obliterar” —sua palavra favorita— a base industrial e as usinas de dessalinização do Irã até que o país se renda.
Em resumo, estamos assistindo ao que acontece quando se coloca no Salão Oval um homem impulsivo e instável que concorreu à presidência em grande parte para se vingar de seus adversários políticos. Depois, ele se cercou de um gabinete escolhido pela boa aparência e pela disposição de colocar a lealdade a Trump acima da lealdade à Constituição.
Some-se a isso maiorias republicanas na Câmara e no Senado dispostas a lhe dar carta branca, e tudo isso eventualmente leva a decisões desleixadas e indisciplinadas, incluindo iniciar uma guerra enorme no Oriente Médio sem nenhum plano para o dia seguinte.
Trump é um crianção brincando com fósforos, as Forças Armadas mais poderosas do mundo, em uma sala cheia de gás.
Se tudo isso não fosse ruim o suficiente, temos um secretário de Defesa, Pete Hegseth, que defende crenças nacionalistas cristãs extremas e, na semana passada, supostamente realizou uma sessão de oração no Pentágono na qual pediu que as tropas americanas aplicassem “violência avassaladora contra aqueles que não merecem misericórdia. Pedimos essas coisas com ousada confiança no poderoso nome de Jesus Cristo”.
Em outras palavras, agora são nossos guerreiros religiosos contra os do Irã.
Se esta não fosse a liderança do meu próprio país —e se o Irã não fosse, de fato, a força mais desestabilizadora do Oriente Médio e sua transformação não fosse um objetivo digno para seu próprio povo e seus vizinhos— eu simplesmente sentaria e assistiria ao espetáculo, saboreando a cena de Trump recebendo o que merece.
Mas é o meu país. O Irã obter armas atômicas é uma ameaça que poderia desencadear proliferação nuclear por todo o Oriente Médio. E todos nós vamos receber o que Trump merece.
O que fazer? Trump deveria deixar de lado seu plano de paz de 15 pontos, que seria ridiculamente complicado de implementar, e reduzi-lo a dois pontos: o Irã entrega seus mais de 430 quilos de urânio altamente enriquecido, quase o bastante para produzir a bomba, e em troca os Estados Unidos desistem da mudança de regime.
Ambos os lados então concordariam em encerrar todas as hostilidades. Ou seja, nada mais de bombardeios americanos e israelenses, nada mais de foguetes iranianos e do Hezbollah, nada mais de bloqueio do estreito de Hormuz e, com certeza, nada de tropas americanas desembarcando no Irã.
“Temos que perceber que o que o regime iraniano mais quer é permanecer no poder, e o que os Estados Unidos e Israel mais querem é que o Irã não tenha uma bomba”, diz John Arquilla, ex-professor de análise de defesa na Escola de Pós-Graduação Naval e autor do livro a ser lançado “The Troubled American Way of War”.
“Ambos os lados podem conseguir o que mais querem se estiverem prontos para abrir mão do que querem em segundo lugar.”
Para os Estados Unidos e Israel, o segundo prêmio após eliminar o urânio altamente enriquecido do Irã seria a mudança de regime. Isso não parece mais estar no horizonte, e Trump começou a preparar o terreno para abandonar esse objetivo. Ele disse a repórteres no domingo (29) que, dado como os Estados Unidos e Israel já mataram várias dezenas de líderes seniores do Irã, “isso realmente é mudança de regime”. Os líderes do Irã eram “um grupo de pessoas completamente diferente”, que ele disse terem “sido muito razoáveis”.
Claro, isso é ridículo e uma desculpa para o fato de que os Estados Unidos e Israel superestimaram enormemente sua capacidade de derrubar o regime iraniano usando apenas poder aéreo.
A equipe de Trump supostamente tem negociado através do Paquistão com o presidente do parlamento iraniano, Mohammad Bagher Qalibaf, que tem fortes laços com a Guarda Revolucionária do Irã, que parece ser o verdadeiro poder nos bastidores. O regime iraniano remanescente pode muito bem estar pronto para considerar entregar seu urânio em troca de sua sobrevivência.
Sim, um milhão de problemas permaneceriam sem solução, mas é isso que acontece quando você tenta usar a força sem nenhum planejamento de longo prazo para resolver um problema complexo.
De modo geral, um problema complexo é definido como um problema que resiste a soluções rápidas ou permanentes. Envolve inúmeras variáveis interdependentes. Os resultados nunca são finais, apenas melhores ou piores, ou bons o suficiente. Todo problema complexo é essencialmente único, o que significa que não existe um modelo perfeito e preexistente para resolvê-lo. E as soluções frequentemente têm consequências irreversíveis, o que significa que você não pode facilmente desfazer uma decisão.
Essa é praticamente a melhor definição do problema iraniano que consigo pensar.
Embora talvez nunca tenha explicado isso com todas as letras, se você observar as ações do presidente Barack Obama em relação ao Irã, ele claramente entendia que era um problema complexo e, portanto, o curso de ação mais sábio era focar no interesse central americano, tentar assegurá-lo e aprender a conviver com as outras características do problema, mitigando-as da melhor forma possível.
Essa foi a lógica do acordo de Obama com o Irã em 2015, o Plano de Ação Conjunto Global, que estabeleceu limites verificáveis internacionalmente ao programa de enriquecimento de urânio do país, e sua decisão de conviver com seu crescente arsenal de mísseis balísticos e seu cultivo de milícias apoiadas pelo Irã no Líbano, Síria, Iêmen e Iraque —que não ameaçavam os Estados Unidos.
O acordo de Obama com o Irã funcionou como planejado. Quando Obama deixou o cargo, as restrições às capacidades de enriquecimento nuclear do Irã, verificadas por inspetores internacionais, significavam que o Irã, se rompesse o acordo, precisaria de pelo menos um ano para produzir material físsil suficiente para uma ogiva nuclear, proporcionando tempo de sobra para o mundo reagir.
No entanto, Trump, a pedido de Netanyahu, retirou unilateralmente os Estados Unidos do acordo em 2018. Mas Trump nunca forjou uma estratégia alternativa eficaz para impedir o Irã de obter urânio suficiente para uma bomba. O governo Biden tentou limpar a bagunça de Trump, mas não conseguiu fazer o Irã concordar.
Quando Trump voltou ao poder, ele novamente negligenciou forjar uma alternativa. Então o Irã passou de estar a um ano de uma bomba sob o acordo nuclear de Obama para semanas de distância graças à retirada imprudente de Trump da estratégia de Obama sem uma substituição eficaz. E agora, com esta guerra, Trump transformou isso em um problema realmente muito complexo.
É por isso que precisamos manter isso o mais simples possível. Os Estados Unidos deveriam estender garantias de que encerraremos a guerra, deixaremos o regime no lugar, pararemos de destruir a infraestrutura do Irã e até ofereceremos algum alívio das sanções ao petróleo, se o Irã entregar todo o seu material físsil altamente enriquecido e cessar todas as hostilidades de seu lado. Todo o resto fica adiado para outro dia. (Enquanto isso, um regime iraniano muito enfraquecido teria que ser mais responsivo ao seu povo.)
Trump será um homem de muita sorte se os líderes sobreviventes do regime iraniano disserem sim. É uma medida da incompetência de Trump que eles agora tenham o destino dele nas mãos.




