Turismo massificado e imigrantes pressionam Lampedusa – 06/09/2025 – Mundo

Turismo massificado e imigrantes pressionam Lampedusa - 06/09/2025 - Mundo


Com apenas 20 quilômetros quadrados de extensão, cenários paradisíacos e cerca de 6.000 habitantes, a ilha de Lampedusa se tornou um dos epicentros da crise migratória, e a fé em uma solução para o cenário que se arrasta por mais de uma década começa a desaparecer.

Os moradores de Lampedusa mantêm uma tradição histórica de hospitalidade a imigrantes. Antes das chegadas alcançarem centenas de milhares por ano, a população os acolhia de maneira informal, conta o oftalmologista Carmine Menna, 70, dono de uma ótica na principal rua da cidade.

“Antes de 2010, grupos pequenos de quatro a oito pessoas apareciam no porto, e a gente sempre ajudava”. Na época, os imigrantes desembarcavam sem informação alguma. Menna diz que alguns chegaram a perguntar onde ficava a estação de trem para Palermo. “Eu tentava explicar que estávamos em uma ilha, mas era muito difícil.”

As ações da população não se limitavam a oferecer água, comida e informação. Em outubro de 2013, o oculista estava com a companheira e mais seis amigos em um barco, prontos para pescar ao amanhecer. “Acordamos com barulho, não sabíamos se eram gaivotas ou gritos. Saímos e nos deparamos com braços erguidos na água.” Eram migrantes que tinham caído de uma embarcação à deriva perto do porto. Com uma boia presa a uma corda, o grupo resgatou 47 pessoas. Cerca de 360 morreram no desastre.

A história virou livro, documentário e filme. “Pensávamos ter feito algo bom e que as pessoas iriam entender. Não se resolveu nada; a Itália piorou. Com a [primeira-ministra ultradireitista Giorgia] Meloni, os imigrantes não têm mais saída; está ainda pior.” Na avaliação de Menna, o assunto saiu do noticiário local. “Dizem que está tudo curado, mas moramos aqui e vemos os desembarques todos os dias.”

As chegadas são quase diárias e visíveis a partir de vários pontos da cidade. Stefano Colapinto, 39, dono de uma locadora de carros e scooters no porto, afirma que consegue acompanhar as chegadas sentado em seu escritório.

“Se o dia está bonito, sol e pouco vento, eles chegam”, diz. Para ele, mesmo com as chegadas diárias, as ações da Cruz Vermelha e do Hotspot —para onde são direcionados os recém-chegados, e de onde partem, em no máximo dois dias, para centros de imigração por toda a Itália— deixam o processo muito organizado.

A empresa de Colapinto fica ao lado do antigo cemitério de barcos, área batizada assim porque era onde as autoridades locais depositavam destroços e embarcações apreendidas de migrantes. “Há uns cinco ou seis anos, a prefeitura desfez aquela bagunça”, diz.

O aluguel de veículos para turistas é um dos negócios mais comuns da ilha. Na orla, placas de locadoras se multiplicam. Turistas e moradores circulam por ruas estreitas, com pouca sinalização, sem faixas demarcadas e, em muitos trechos, sem calçadas.

Além das locadoras, a abundância de restaurantes e lojinhas de souvenirs reforça a imagem de Lampedusa como destino turístico —algo visto com reservas por Dan Di Malta, 20, estudante, e Pietro Simoni, 20, artista. “Enriquece, sim, mas sufoca: restaurantes e locadoras demais, carros e scooters por toda parte, numa ilha que poderíamos rodar de bicicleta”, diz o segundo.

Esse excesso não existe no inverno. Sem turistas, as vagas de emprego somem. “Tem apenas trabalhos pesados, construir casas e tal. No verão trabalhamos por turnos longos durante seis meses, muitas vezes sem contrato e sem folga, apenas para viver o resto do ano”, conta Simoni.

Para Di Malta, a população ficou gananciosa. “Os restaurantes daqui viviam lotados. Agora, a moda são os passeios de barco”. De acordo com ele, muitos investiram em barcos, e os turistas não voltam mais para consumir na ilha. “No fim, um canibaliza o outro, todo mundo abre o mesmo tipo de negócio, sem criatividade alguma.”

Ele trabalha hoje no Porto M, onde a fachada, feita de grandes tábuas de madeira pintadas em cores diversas, chama a atenção de quem caminha pelo porto. À primeira vista, não se percebe, mas a fachada colorida é feita de reaproveitamento de barcos de imigrantes.

Além de um bar, o lugar tem uma pequena exposição com itens de imigrantes encontrados na costa de Lampedusa. Sapatos, passaportes, panelas, uma sandália infantil são alguns dos itens que fazem parte do acervo. Um pequeno teatro de Marionetes também faz parte do Porto M. Uma das histórias que os protagonistas de madeira encenam é sobre migração. “Os bonecos dessa peça são feitos de madeira de barcos e retalhos de roupas de migrantes”, conta Giacomo Sferlazzo, 45, dono do estabelecimento.

Para ele, dar destino aos objetos recolhidos do mar vai além de montar um acervo. Em sua visão, os objetos de migrantes preservam a memória e têm importância política, histórica e artística.

“Tentamos trazer à luz histórias e pessoas tratadas como ‘sobras’ da história e mostrar por que tiveram de partir —e por que não puderam fazê-lo por canais regulares.” Guardar esses vestígios, diz, “é recusar o esquecimento”.



Fonte CNN BRASIL

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