A União Europeia precisa deixar de ser uma confederação e se tornar uma federação, ou seja, funcionar como um país. Caso contrário, o atual cenário geopolítico aponta para sua “subordinação, divisão e desindustrialização”, afirmou Mario Draghi, na última segunda-feira (2).
Ex-primeiro-ministro italiano e ex-presidente do Banco Central Europeu, Draghi é tido como o salvador do euro durante a crise de débito dos anos 2010. Seu aperto monetário, simbolizado pela frase “tudo o que for necessário”, virou um paradigma econômico. Desde 2024, o economista empresta o sobrenome a um relatório de competitividade encomendado pela UE, citado frequentemente pelas autoridades europeias como tarefa a ser realizada, a despeito das dificuldades.
Para Draghi, “o poder exige que a Europa passe de uma confederação para uma federação”, porque a ordem global está “agora extinta”.
Uma confederação reúne entidades soberanas, enquanto uma federação agrega entidades autônomas, mas subordinadas a um poder único. Como um país, portanto.
Em discurso na Universidade Católica de Leuven, na Bélgica, onde recebia o título de doutor honoris causa, Draghi ressaltou que a UE tinha excelente desempenho em seus setores federados, como comércio, concorrência, mercado comum e política monetária. Neles, “é respeitada como uma potência e pode negociar como uma”.
Usou como exemplo dessa autoridade o acordo de livre comércio com o Mercosul, aprovado no mês passado, e pacto semelhante fechado com a Índia na semana passada.
“Nos setores em que não fizemos isso —na defesa, na política industrial, nas relações externas—, somos tratados como um conjunto disperso de Estados de média dimensão, que podem ser divididos e tratados como tal”, afirmou.
“Um grupo de Estados que se coordena continua sendo um grupo de Estados. Cada um com direito a veto, cada um com cálculos próprios, cada um vulnerável a ser eliminado na sua vez.”
Draghi justificou a proposta com um quadro sombrio do atual cenário geopolítico. Segundo o ex-premiê, o declínio da ordem mundial começou com a adesão da China à Organização Mundial do Comércio (OMC) e suas ambições de se tornar um polo separado, processo “doloroso, mas não uma ameaça em si”.
“A ameaça é o que o substitui”, disse, em referência ao advento do segundo governo Donald Trump. “Os EUA estão impondo tarifas à Europa, ameaçando nossos interesses territoriais e deixando claro, pela primeira vez, que consideram a fragmentação política europeia como algo que serve aos seus interesses.”
“De todos os que agora se encontram entre os EUA e a China, apenas os europeus têm a opção de se tornarem uma potência genuína. Por isso, temos de decidir: continuamos a ser apenas um grande mercado, sujeito às prioridades dos outros? Ou tomamos as medidas necessárias para nos tornarmos uma potência?”
Como muitos líderes europeus, Draghi percebe enorme fragilidade da UE no poder de veto que cada um dos 27 países-membros possui em uma grande gama de assuntos. O caso mais emblemático é o da Hungria, do populista Viktor Orbán, que sistematicamente se opõe a diretrizes relacionadas à guerra da Ucrânia.
No último lance da disputa, o país anunciou que vai entrar na Justiça para impedir o fim das importações de gás russo pelo bloco a partir de 2027.
“Uma Europa que não consegue defender os seus interesses não preservará os seus valores por muito tempo”, disse Draghi, sugerindo que sua ideia de “federação pragmática” poderia ser implementada aos poucos, a exemplo do que ocorreu com a própria formação do bloco europeu e a adoção do euro.
“Os Estados-Membros aderem voluntariamente. A porta permanece aberta a outros, mas não àqueles que prejudicam o objetivo comum.”
Analistas da política europeia lembram que Draghi raramente fala em público e, quando o faz, os principais líderes do continente prestam atenção. Na próxima semana, inclusive, encontro informal organizado por António Costa, presidente do Conselho Europeu, colocará o economista em contato com chefes de Estado para discutir a implementação definitiva de seu plano de competitividade.
No documento, Draghi faz um diagnóstico do declínio da competitividade europeia e apresenta uma série de recomendações. As principais são investimento anual maciço de € 800 bilhões (R$ 4,88 trilhões) para diminuir o descompasso de inovação do bloco em relação aos EUA e a China; aproveitar as oportunidades do processo global de descarbonização em curso; proteger as cadeias de abastecimento das dependências geopolíticas.
Em discurso no Fórum Econômico Mundial, em Davos, há duas semanas, o premiê alemão, Friedrich Merz, pontuou a urgência da implementação do relatório, que até aqui teve apenas 10% de suas 170 medidas efetivadas. “Temos que fazer muito mais do que isso.”




