Último tratado sobre armas nucleares expira nesta quinta – 04/02/2026 – Mundo

1696331952651bf8b06389c_1696331952_3x2_xl.jpg


O mundo ficará exposto a uma nova corrida armamentista atômica a partir desta quinta-feira (5), quando perde validade o último tratado de controle de ogivas nucleares vigente, o Novo Start, por decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

“Se expirar, expirou”, resumiu Trump na semana passada, prometendo negociar “um acordo melhor”. Pode ser, mas o fato é que o planeta ficará sem um instrumento para limitar a expansão dos dois maiores arsenais atômicos do planeta.

A Rússia, parceira dos EUA no tratado, criticou duramente o americano, que não aceitou a proposta de Vladimir Putin de estender o Novo Start para uma renegociação de um ano. “Essencialmente, nossas ideias estão sendo deliberadamente ignoradas. Essa abordagem parece errada e lamentável”, disse nota da chancelaria.

Momentos sem controle ocorreram apenas brevemente entre as vigências de alguns dos sete tratados costurados nos últimos 54 anos entre Moscou e Washington, países que concentram 86% das 12.321 ogivas nucleares do planeta contadas pela referencial FAS (Federação dos Cientistas Americanos, na sigla inglesa).

Mesmo assim, com exceção de um salto final no fim da Guerra Fria, quando União Soviética e EUA chegaram ao recorde de 70.374 bombas em 1986, as superpotências costumavam seguir as limitações estabelecidas mesmo quando os acordos perdiam validade.

Era assim até aqui. Agora, diz a chancelaria russa, Moscou não está mais presa pelos limites e “está preparada para tomar contramedidas técnico-militares para mitigar ameaças adicionais à segurança nacional”. Em outras palavras, ter mais armas nucleares se achar que precisa.

Ao mesmo tempo, o texto diz que o governo de Putin está aberto ao diálogo para “a estabilização da situação estratégica”. Não houve resposta da Casa Branca.

O Novo Start aglomerava mecanismos de todos os tratados anteriores, emprestando o nome do fulcral Tratado de Redução de Armas Estratégicas (Start na sigla em inglês, que também significa “começo”) do enterro da Guerra Fria, em 1991.

Assinado em 2010, vigente a partir de 2011 e estendido por cinco anos em 2021, ele limita o número de ogivas operacionais, prontas para uso, a 1.550 para cada lado. Além disso, cada rival só pode ter 800 vetores de emprego das armas, 100 deles em reserva: silos e lançadores terrestres, submarinos e bombardeiros.

Mais importante é o regime de 18 inspeções anuais mútuas. Em 2020, a pandemia de coronavírus suspendeu o procedimento, que acabou congelado em protesto de Putin pelo apoio americano a Kiev na Guerra da Ucrânia, em 2023.

“O mundo estará numa posição mais perigosa do que nunca”, disse o porta-voz do presidente russo, Dmitri Peskov, nesta quarta (4). Seu chefe, apesar de ter contribuído para o estado terminal do Novo Start, fez uma oferta a Trump para esticar a caducidade no ano passado.

O americano, em seu primeiro mandato (2017-2021), já havia deixado dois outros tratados importantes, um que eliminava os mísseis de alcance intermediário que ameaçavam obliterar a Europa na Guerra Fria e outro de sobrevoos mútuos de instalações militares.

Não sem razão, o republicano apontava a obsolescência de todos esses tratados. No caso dos mísseis de alcance de 500 km a 5.500 km, por exemplo, era claro que a Rússia trabalhava em algo: ele se materializou no impressionante Orechnik, usado duas vezes contra a Ucrânia.

Trump também trabalhou contra, flexibilizando a doutrina do uso de armas táticas, aquelas que são, em tese, destinadas a campos de batalha limitados, menos poderosas.

Elas são um dos buracos no atual Novo Start, que só cobre as chamadas ogivas estratégicas, mais poderosas e capazes de destruir grandes áreas. Os russos, por exemplo, têm qualquer coisa de 1.500 a 2.000 dessas armas táticas, dez vezes mais que os americanos.

Há também a questão dos outros competidores. A comunidade internacional, assustada com o risco de guerra nuclear na crise dos mísseis de Cuba, em 1962, criou mecanismos para evitar a proliferação da bomba, entronizados em tratado válido a partir de 1970.

Ainda que imperfeito e injusto, já que quem tinha armas nucleares não precisava se livrar delas, o acordo conteve os ânimos —cerca de 25 países, incluindo o Brasil, tinham programas nucleares. Além de EUA e Rússia, foram reconhecidos como potências formais China, França e Reino Unido.

Ao clube, às margens do tratado, foram incluídos depois Índia, Paquistão, Coreia do Norte e Israel, sendo que o Estado judeu nunca admitiu as 90 bombas que a FAS calcula que ele opere.

Ainda que russos e americanos sejam majoritários, o arsenal chinês triplicou para 600 ogivas nos últimos anos. O Pentágono estima que Pequim terá capacidades em termos de armas operacionais iguais às de Moscou e Washington na próxima década, sem controle algum.

Além disso, há os estoques de países que rotineiramente se enfrentam, como Índia e Paquistão, a imprevisível ditadura de Kim Jong-un e a perene ameaça de Teerã de entrar no time —objeto da atual crise militar com os EUA.

Se tudo isso deveria ser conversado, inclusive a mais agressiva postura franco-britânica de operação conjunta anunciada em 2025, o problema reside na ausência do debate.

Um dos maiores especialistas em armas atômicas do planeta, o brasileiro Sérgio Duarte (1934-2024), costumava dizer que o Novo Start era falho, mas ao menos existia. O sistema de controle de armas, afinal, reduziu em 82,5% o arsenal russo-americano de seu apogeu até aqui.

O apocalipse da civilização como a conhecemos continua garantido com as armas que existem hoje, e nada indica o sucesso do tratado que já existe banindo a bomba, que entrou em vigor em 2021. “O melhor que pode acontecer é uma extensão do Novo Start”, diz o russo Pavel Podvig, que trabalha no braço da ONU para desarmamento, em Genebra.

O próprio Putin disse em outubro que o mundo “já vive uma corrida armamentista nuclear”. Ambos os lados trabalham ativamente em novos sistemas de armas, como mísseis hipersônicos, e o americano ameaça retomar os testes nucleares após três décadas.

Contra isso há as limitações orçamentárias: o novo míssil americano, Sentinel, teve seu desenvolvimento parado em 2024 por ter estourado em 80% o orçamento, passando de R$ 700 bilhões. Mas o incremento no gasto militar global sugere que Putin está certo.

“Faço um apelo urgente para que este instrumento não caia em desuso”, disse nesta quarta o papa Leão 14, um americano. “É mais urgente do que nunca substituir a lógica do medo e da desconfiança por uma ética compartilhada, capaz de orientar as escolhas em direção ao bem comum”, completou, restando saber se alguém o ouvirá.



Source link

Leia Mais

Bolsa cai mais de 2% em dia de forte correção

Bolsa cai mais de 2% em dia de forte correção no mercado

fevereiro 5, 2026

naom_68a9b91531c96.webp.webp

Mãe diz que corpo da filha sumiu por 3 meses em hospital do DF

fevereiro 5, 2026

Conheça os acordos de limitação de armas nucleares - 04/02/2026

Conheça os acordos de limitação de armas nucleares – 04/02/2026 – Mundo

fevereiro 5, 2026

1696331952651bf8b06389c_1696331952_3x2_xl.jpg

Último tratado sobre armas nucleares expira nesta quinta – 04/02/2026 – Mundo

fevereiro 5, 2026

Veja também

Bolsa cai mais de 2% em dia de forte correção

Bolsa cai mais de 2% em dia de forte correção no mercado

fevereiro 5, 2026

naom_68a9b91531c96.webp.webp

Mãe diz que corpo da filha sumiu por 3 meses em hospital do DF

fevereiro 5, 2026

Conheça os acordos de limitação de armas nucleares - 04/02/2026

Conheça os acordos de limitação de armas nucleares – 04/02/2026 – Mundo

fevereiro 5, 2026

1696331952651bf8b06389c_1696331952_3x2_xl.jpg

Último tratado sobre armas nucleares expira nesta quinta – 04/02/2026 – Mundo

fevereiro 5, 2026