Por uma década, Gustavo González López supervisionou as masmorras de tortura e as redes de espionagem da Venezuela. Sua polícia secreta se tornou um instrumento de força para Nicolás Maduro. Opositores desapareciam, manifestantes eram detidos em massa e González foi sancionado pelos Estados Unidos, União Europeia e Reino Unido.
Agora, em uma tentativa de fortalecer seu poder, a presidente interina apoiada pelos EUA, Delcy Rodríguez, promoveu o militar de 65 anos a ministro da Defesa.
A medida, dizem analistas, sintetiza as mudanças no regime venezuelano desde que os EUA levaram Maduro para uma prisão no Brooklyn em janeiro: o mesmo regime brutal, com rostos mais amigáveis a Washington.
“Ele sinaliza a continuação da ditadura repressiva que temos vivido. É um passo na direção errada… ele foi o chefe torturador responsável pela opressão política”, disse Ricardo Hausmann, ex-ministro venezuelano nos anos 1990 e atualmente professor em Harvard.
González foi fundamental para reprimir os protestos que eclodiram em 2014, 2017 e 2019. Centenas de pessoas foram trancafiadas em prisões como o Helicoide, um shopping center inacabado transformado na mais notória câmara de tortura do país. Outra prisão, apelidada de “o túmulo”, foi expandida no porão da sede da agência de inteligência Sebin, no centro de Caracas.
Em 2018, o vereador de oposição Fernando Albán morreu enquanto estava sob custódia na sede do Sebin, caindo de uma janela do décimo andar. As autoridades disseram que ele cometeu suicídio, mas a ONU afirmou ter “motivos razoáveis para acreditar” que sua morte “foi resultado de atos de agentes do Estado”.
González “sabia, participou e contribuiu para a prática de graves violações de direitos humanos e crimes, alguns dos quais equivalentes a crimes contra a humanidade”, escreveu a ONU em 2022.
Delcy nomeou González em uma reforma ministerial que afastou ou rebaixou mais de uma dúzia de ministros de Maduro, incluindo o ministro da Defesa de longa data, Vladimir Padrino.
A remoção de Padrino eliminou uma ameaça potencial a Delcy e também pode agradar seu apoiador mais importante —o presidente dos EUA, Donald Trump. Enquanto Padrino priorizava relações com Rússia e Irã, acredita-se que González tenha uma rede de contatos nos EUA. Quando o diretor da CIA, John Ratcliffe, visitou Caracas, foi recebido por González.
“Pessoas como González López, que ocupavam posições tão altas nos serviços de inteligência, sempre estiveram conversando com os americanos”, disse um oficial de inteligência venezuelano, falando sob condição de anonimato. “Os americanos devem ter aprovado que ele assumisse seu novo cargo.”
Um funcionário da Casa Branca disse: “Como o presidente Trump afirmou, as relações entre Venezuela e Estados Unidos têm sido extraordinárias para nós e para o povo venezuelano. Estamos lidando muito bem com a presidente Delcy Rodríguez e seus representantes”.
Durante sua década no cargo, Padrino também supervisionou uma rede de corrupção, tráfico de drogas e mineração ilegal que ajudou a sustentar o regime de Maduro, segundo analistas e ex-oficiais militares.
“Rebaixar Padrino demonstrou um nível de confiança de que ela [Delcy] poderia fazer essa jogada agora sem desestabilizar seu regime”, disse Nicholas Watson, especialista em América Latina da consultoria Teneo.
A posição de Padrino se tornou insustentável depois que forças especiais americanas capturaram Maduro e sua esposa em um complexo militar fortemente protegido em Caracas. Dezenas de guarda-costas venezuelanos e cubanos de Maduro foram mortos sem uma única baixa americana, enquanto os mísseis antiaéreos russos e iranianos adquiridos pelo ex-ministro da Defesa pareceram inúteis.
Ainda no cargo está Diosdado Cabello, o temido ministro do Interior que controla a polícia e as forças paramilitares do país, enquanto sua filha socialite foi elevada a ministra do Turismo.
“[Delcy] obviamente não se sente segura o suficiente para atacar Cabello”, disse Watson. “Na verdade, ela parece estar cultivando o apoio dele.”
Desde que assumiu a presidência, Delcy —junto com seu irmão Jorge, que chefia a Assembleia Nacional— implementou uma série de reformas sob forte pressão de Washington, incluindo uma grande reforma para abrir o setor petrolífero ao investimento estrangeiro.
Centenas de presos políticos foram libertados, embora mais de 500 permaneçam atrás das grades, segundo o grupo de direitos humanos Foro Penal. Protestos antigovernamentais e manifestações por melhores salários têm sido tolerados, algo impensável antes da prisão de Maduro.
Mas Delcy é detestada por grande parte do público venezuelano, com a pesquisadora local Meganalisis reportando sua taxa de aprovação em 4,8% no início deste mês.
Alguns de seus apoiadores também estão questionando a recente reforma ministerial.
“Eles estão eliminando tudo o que Maduro deixou para trás”, disse um membro de um grupo de ação local aliado ao regime, falando anonimamente por medo de represálias. “Mas a equipe de Maduro deveria permanecer unida em um só bloco.”
Juan Barreto, ex-prefeito de Caracas que foi próximo de Hugo Chávez, o falecido fundador do Estado socialista venezuelano, mas que depois rompeu com Maduro, disse que as mudanças de pessoal representam “substituições em vez de realinhamentos”.
“Não houve investigação sobre o que aconteceu” quando Maduro foi capturado, disse Barreto.
A líder mais proeminente da oposição, a ganhadora do Prêmio Nobel da Paz María Corina Machado, disse ao Financial Times que vê a posição de González como “insustentável” a longo prazo.
“Ele é um indivíduo sancionado, claramente investigado por crimes contra a humanidade, e um dos piores torturadores que o país já teve.”




