Venezuela: pessoas apoiam Corina, diz apoiador – 28/02/2026 – Mundo

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David Smolansky, 40, é o braço direito da líder opositora venezuelana María Corina Machado em Washington, capital dos Estados Unidos. É um dos poucos nomes com pleno conhecimento das negociações feitas com o governo de Donald Trump.

É, também, um exilado político. Ex-prefeito de El Hatillo, município nos arredores de Caracas, Smolansky (o sobrenome aponta sua ascendência ucraniana) fugiu da Venezuela em 2017, após o regime decretar sua prisão por se opor a Nicolás Maduro. Foi para o Brasil, onde o então governo de Michel Temer (MDB) lhe deu asilo. Poucos dias depois, se mudou para os EUA.

Quase dois meses após a captura de Maduro em meio a uma operação militar sem precedentes dos EUA na América do Sul, ele diz que o grupo de Corina ainda avalia os próximos passos; critica o discurso brasileiro após as eleições de 2024; e agradece a Trump.

A oposição afirma estudar duas possibilidades: pressionar para que se reconheça o resultado real das eleições de 2024, quando Edmundo González, representando a inabilitada María Corina, venceu nas urnas, que tiveram os resultados fraudados; ou pleitear novas eleições em dez meses. “Transições são complexas, foram 27 anos de ditadura, da noite para o dia é difícil fazer todas as mudanças que queremos”, diz.

Há muita celebração pelo fato de que os Estados Unidos capturaram Nicolás Maduro. Mas, quase dois meses depois, não há perspectiva de eleições, e Trump não apoiou María Corina Machado. Há também frustração?

Há um enorme sentimento de gratidão ao presidente Trump, ao secretário [de Estado, Marco] Rubio e ao secretário [de Defesa, Pete] Hegseth pela operação militar impecável de 3 de janeiro. Apenas 12 dias depois, o presidente Trump teve uma reunião extensa com María Corina Machado; diversos temas foram abordados, e há um compromisso de que a Venezuela seja completamente livre.

Acho que houve algo importante depois de 3 de janeiro: mais de 400 presos políticos foram libertados. Gostaríamos e lutamos para que sejam todos, para que não seja algo gradual, porque fazer as libertações de forma fragmentada é uma nova forma de tortura.

Além disso, a presença cubana tem diminuído significativamente na Venezuela ao não se enviar petróleo para a ilha e ao expulsar agentes que estavam camuflados no setor de saúde e de educação. Estamos vendo como, pouco a pouco, o medo vai se perdendo, como em uma manifestação estudantil em 12 de fevereiro, algo que não se via há anos.

Vocês deixaram clara a mensagem de agradecimento. Mas concordam com tudo o que aconteceu? O fato, por exemplo, de Trump dizer que María Corina não era a melhor opção para governar o país. Ou o fato de colocar Delcy Rodríguez para liderar essa transição que não sabemos muito bem como é.

Se algo está claro, é que hoje as pessoas apoiam María Corina Machado. E a legitimidade reside no que ocorreu nas eleições primárias de 2023 [quando ela foi escolhida para representar a oposição, mas depois foi inabilitada pelo regime] e depois no que aconteceu com Edmundo González [aliado nomeado por Corina que venceu o pleito segundo checagens internacionais] em 28 de julho de 2024.

As transições são complexas. Nem sempre se está na situação ideal. Mas o que é preciso garantir é que ela realmente culmine na refundação da democracia, num país onde as liberdades sejam garantidas, onde haja Estado de direito, acesso à Justiça e independência dos poderes públicos.

Nesses dois meses, acredita que podemos dizer que está garantido que o objetivo é refundar a democracia? As mensagens dos EUA foram muito voltadas para a economia, para o petróleo, sem deixar muito claro onde está o discurso sobre democracia.

Petróleo e democracia na Venezuela não são excludentes, como em outras partes. As indústrias petrolíferas norte-americanas estão no meu país desde que o petróleo foi descoberto, ou seja, há praticamente um século. Foram 27 anos de ditadura, certo? Da noite para o dia é difícil fazer todas as mudanças que queremos.

Hoje, na oposição liderada por María Corina Machado, qual é a demanda? Querem novas eleições? Quando? Ou querem que se respeitem os resultados das eleições de 2024?

Ainda estamos nessa discussão. Para nós, 28 de julho de 2024 continua vigente. Graças ao que aconteceu naquele dia, não apenas Maduro ficou ilegítimo perante o povo venezuelano, mas também perante a comunidade internacional. Para nós, o mandato popular, a legitimidade continuam presentes. Estamos estudando diferentes opções.

Uma delas, como adiantou María Corina, é que, se isso culminar em eleições, para que seja uma eleição livre, transparente e justa, em que os candidatos possam competir sem nenhum tipo de restrição ou inabilitação, que haja partidos políticos, que as pessoas na Venezuela possam se registrar, que as pessoas no exterior possam se registrar, seriam necessárias no mínimo 40 semanas [de nove a dez meses].

Temos sido muito enfáticos em dizer que na Venezuela ainda existe um aparato repressivo que precisa desaparecer. Foram dados passos importantes nessa direção, mas ainda há membros importantes da ditadura, como Diosdado Cabello, por exemplo, que é um narcotraficante e ainda está no regime. E deixamos muito claro que Delcy Rodríguez não é uma parceira confiável a longo prazo. É comunista, foi artífice das relações com Irã, Rússia e China, tem múltiplos casos de corrupção e lavagem de dinheiro.

Muita coisa pode acontecer. [Delcy] está frágil. Sei que muitos a veem hoje como forte, mas ela precisa convencer sua própria base a seguir ordens dos EUA, depois de 27 anos atacando os EUA.

Sobre a política migratória dos EUA. As decisões, claro, cabem a Washington. Mas não há algum pedido para que deem proteção aos venezuelanos e que não os deportem?

Nós fizemos isso. Isso foi levado ao Departamento de Estado, foi apresentado ao secretário Rubio.

Tiveram resposta?

Bem, infelizmente foi dito que cada país é livre para implementar suas políticas migratórias. Mas deixamos muito claro que a maioria dos venezuelanos que chegaram aos Estados Unidos, especialmente aqueles que hoje têm TPS [status de proteção temporária a cidadãos de países que enfrentam crises humanitárias], são pessoas que trabalham, estudam, pagam impostos e contribuem com a economia dos EUA. Há uma minoria, muito barulhenta e muito perigosa, como o Tren de Aragua, que precisa enfrentar a Justiça. Concordamos que enfrentem a Justiça, porque os primeiros prejudicados somos nós, os venezuelanos. Mas eles não podem manchar o trabalho dos venezuelanos honestos e trabalhadores nos EUA ou em qualquer outra parte do mundo.

Que relação vocês querem com vizinhos como Colômbia e Brasil, que têm eleições este ano, mas cujos governos atuais condenaram a ação militar dos EUA e agora aceitam Delcy Rodríguez?

Gostaríamos que os atuais governos do Brasil e da Colômbia conhecessem de primeira mão as atrocidades que Maduro cometeu. Queremos ter uma relação forte baseada em princípios democráticos, na proteção dos direitos humanos, e queremos que haja um compromisso de nossos vizinhos em combater seriamente o crime organizado e as atividades econômicas ilícitas.

É preciso fazer um trabalho conjunto nas fronteiras para o retorno seguro dos migrantes; provavelmente será necessário criar um corredor humanitário e também uma ponte aérea.

Acredita que essas autoridades realmente não sabem o que aconteceu?

Deveriam saber, porque muitos relatórios independentes documentaram o que aconteceu. Mas seria importante que escutassem das próprias vítimas o que significa, por exemplo, sofrer choques elétricos nas partes íntimas; o que significa, para uma mulher, ter sido abusada por um agente de segurança do SEBIN; o que significa, para um idoso, ter seus medicamentos para pressão negados.

Quer acrescentar algo?

Acho que o governo do Brasil desperdiçou duas grandes oportunidades de ser magnânimo na região. Uma delas foi em 28 de julho. Creio que poderia ter sido muito mais proativo condenando [a fraude], condenando a ilegitimidade do processo, a repressão brutal que se seguiu, e sendo mais proativo talvez para que Maduro deixasse o poder quando o povo assim decidiu.

É verdade que não reconheceram Maduro, nem uma coisa nem outra. Mas às vezes na vida, e isso inclui a diplomacia, a neutralidade não é suficiente.


Raio-X | David Smolansky, 40

Vice-diretor e representante em Washington da campanha de María Corina Machado, foi prefeito de El Hatillo e se exilou da Venezuela em 2017. Foi enviado especial da Organização dos Estados Americanos para a crise migratória venezuelana. Formado em jornalismo pela Universidade Católica Andrés Bello, na Venezuela, e mestre em política pública internacional pela Universidade Johns Hopkins, nos EUA.



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