Juan Pablo Guanipa, 61, é um dos maiores opositores contra o regime da Venezuela e, desde que María Corina Machado deixou o país em uma fuga narrada como quase cinematográfica em dezembro, é o principal opositor que ainda está em solo venezuelano.
Após dez meses escondido, ele foi preso no primeiro semestre do ano passado acusado de traição à pátria, entre outros delitos, por apoiar os protestos antichavistas depois da fraude nas últimas eleições presidenciais. Passou 260 dias em uma solitária atrás das grades. Foi liberado em janeiro, depois de os EUA invadirem o país, capturarem Nicolás Maduro e tutelarem o regime.
Há um mês, recebeu em sua casa na cidade de Maracaibo, coração do petróleo venezuelano, a notificação de que um tribunal de primeira instância havia anulado as acusações penais contra ele. O aliado de primeira hora de María Corina agora é um homem livre e começa a organizar caravanas pelo país.
À reportagem Guanipa afirma que a população está esperançosa mas frustrada com a demora para o retorno da democracia (leia-se, a saída de Delcy Rodríguez e dos demais chavistas). Ele defende que haja eleições e, em uma faceta até aqui pouco explorada publicamente, afirma que é preciso convocar uma Assembleia Nacional Constituinte e mudar a Carta Magna criada por Hugo Chávez em 1999.
Poderia descrever quais foram as condições na prisão durante esses 260 dias?
[Antes de ser preso,] Passei dez meses na clandestinidade, mudei de lugar em 12 ocasiões, sempre tentando evitar que me pegassem. No fim, o regime conseguiu me capturar em uma operação da qual participaram cerca de 35 funcionários, todos armados e uniformizados como membros da Polícia Nacional Bolivariana. Eu estava dormindo, me acordaram, me amarraram, impossibilitaram o movimento das minhas mãos, pés e cintura, e fui para a prisão. Eu fui gritando o tempo todo: “Viva a Venezuela livre”.
Os primeiros 21 dias foram extremamente indignantes e humilhantes. Eu estava sozinho em uma cela que não tinha banheiro; o que tinha era um buraco e um balde que às vezes enchiam de água. Não tinha colchão, mas sim um colchonete fino. Parecia que eu estava dormindo no chão, sem cobertor, sem travesseiro e atormentado pela praga dos mosquitos.
Durante os primeiros 21 dias não pude tomar banho. Fiquei 21 dias com o mesmo uniforme. As coisas mudaram no 22º dia porque conheci e falei com quem é o chefe dessa dependência. Depois de um tempo, minha família começou a me levar comida. Me deram lençóis, travesseiros, um colchão semiortopédico e mais cinco uniformes. Então as coisas mudaram um pouco, mas sempre estive isolado, nunca tive companheiro de cela.
Pedi que me permitissem ler e, a partir daí, os livros começaram a chegar. Ao todo, li 154 livros. Li tudo de [o peruano Mario] Vargas Llosa, tudo de [o colombiano Gabriel] García Márquez, li [os argentinos] Ernesto Sábato, Julio Cortázar e Jorge Luis Borges e li [o chileno Pablo] Neruda.
Há frustração com a forma como está o processo de transição na Venezuela?
Eu não diria frustração. Em minhas saídas desde que voltei à liberdade, o que percebo é que há muitíssima esperança. Sente-se que estamos vendo a luz no fim do túnel, mas também há desespero; ou seja, as pessoas estão vivendo muito mal. E sentem que a mudança política é o caminho para que sua situação econômica e social melhore.
Então, querem que isso aconteça logo, e sentem angústia por não termos conseguido definitivamente a democracia na Venezuela. Quando falo com as pessoas, digo que, se lutamos 27 anos para alcançar a liberdade [o tempo do chavismo no poder], podemos esperar alguns meses enquanto se criam as condições para um processo eleitoral.
A partir de 3 de janeiro, os EUA passam a fazer parte da tomada de decisões na Venezuela, tornam-se um ator fundamental junto com a oposição venezuelana, a sociedade civil e as lideranças de María Corina e Edmundo González. Temos que alcançar uma convergência entre todos para chegar a esse processo eleitoral.
E como esse processo eleitoral deve ser feito? Há chance de o sr. tentar ser presidente?
O ideal seria que se reconhecesse o que aconteceu em 28 de julho de 2024 [dia das últimas eleições presidenciais, quando o regime autoproclamou Maduro reeleito]. Mas o realismo político nos indica que não caminhamos para isso.
Quando chegamos à questão de ir a novas eleições, há diferentes pontos de vista. Alguns consideram que devemos ir a um processo no qual se escolham todos os cargos de eleição popular, umas “megaeleições”. Outros consideram que deve ser eleito apenas o presidente da República e que esse presidente deve convocar imediatamente uma Assembleia Nacional Constituinte. Com essa constituinte, poderia-se primeiro modificar a Constituição, que é presidencialista, centralista e tem várias coisas que devem ser mudadas e, em segundo lugar, a eleição de todos os poderes públicos. Eu gosto mais da segunda tese.
Quanto a ser “candidatável”, eu sou previsível. E estou totalmente comprometido com a candidatura de María Corina Machado, porque foi ela quem o povo escolheu como candidata.
Como seriam as mudanças na Constituição?
A Constituição tem duas partes: uma de valores, princípios e direitos humanos. Nessa parte, a Constituição está bem. Acredito que é preciso mudar a parte orgânica, que dá poder demais ao presidente da República. É preciso mudar o que diz respeito à designação do alto comando militar e do oficialato, porque essas promoções antes eram decididas no Poder Legislativo, não pelo presidente.
É preciso ter um Poder Legislativo bicameral. Por quê? Porque a Câmara Baixa [de deputados] representa a população e, se você tem um estado com mais habitantes, esse estado tem mais deputados. Mas a Câmara Alta, o Senado, representa de forma igualitária cada uma das entidades que formam a nação. Essa Câmara Alta faz falta na Venezuela para que os problemas possam ser discutidos no marco da igualdade de cada um dos estados.
Em um processo de transição, o que deve acontecer com os líderes do regime que ainda estão no poder? Como seria uma reconciliação possível?
Eles propuseram um processo de reconciliação. Agora, esse processo não pode ser proposto sob a perspectiva de que todos cometemos os mesmos erros, que é o que eles pretendem dizer. Isso é profundamente injusto. Um país inteiro foi vítima desse desespero pelo poder que faz com que você esteja disposto a matar para mantê-lo.
Então, reconciliação sim. Mas com a verdade à frente. Haverá algumas coisas que terão que passar pelo prisma da impunidade, mas tudo o que tem a ver com crimes contra a humanidade, eu acredito que isso deve ser levado à Justiça.
Em setembro de 2024 o sr. disse que, para ter uma mudança no país, era necessária uma rebelião militar. O que é necessário agora?
A história da Venezuela mudou em 3 de janeiro [data do ataque dos EUA a Caracas e captura de Maduro]. Eu sempre disse que isso não deveria ter acontecido, mas foi algo para o qual Maduro deu margem. Não podemos dizer que neste momento faz falta nenhuma rebelião nem nada parecido, porque os EUA já agiram. Não somente extraíram Maduro, mas também mantêm uma tutela sobre a política e a tomada de decisões na Venezuela. É uma tutela temporária que deve terminar quando ocorrerem eleições livres.
Agora, acredito que é preciso fazer uma mudança no alto comando militar. O alto comando militar se prestou a acabar com a democracia na Venezuela e a tentar converter as Forças Armadas em um partido político, violando a Constituição.
RAIO-X | JUAN PABLO GUANIPA, 61
Advogado e político da oposição venezuelana, é membro do partido Primero Justicia. Foi deputado (2016-2021) pelo estado de Zúlia, sua terra natal, e eleito governador, mas não chegou a exercer o poder. Foi preso na onda de repressão contra opositores do regime de Nicolás Maduro e liberto semanas depois da captura do ditador pelos EUA.




