Desde o ataque norte-americano e a prisão de Nicolás Maduro, criou-se um racha na estrutura interna do regime. Tem sido cada vez mais difícil esconder que existe uma divisão entre os principais membros do chavismo sobre como agir em relação aos EUA.
Mesmo nos atos públicos, é visível que há uma ala que preferiria que a Venezuela adotasse uma reação mais confrontativa. O líder desse grupo seria Diosdado Cabello. Figura sempre vista como o homem-forte do chavismo, Cabello agiu sempre com agressividade em todos os cargos que ocupou. É também quem concentra mais vínculos com facções criminosas que atuam em território venezuelano, além de acusações de ligação com o narcotráfico e corrupção.
Não por acaso, Cabello tem sido apontado como um possível próximo alvo de alguma nova ação americana. Hoje ministro do Interior, atribui-se a ele, entre outras coisas, o enlace com todo o aparato de segurança e espionagem cubano que opera no país. Cabello é conhecido ainda como apresentador do programa Con el Mazo Dando, expressão que pode ser traduzida livremente como batendo com o porrete.
Homem de extrema confiança de Chávez e de Maduro, foi também o responsável por estabelecer a inelegibilidade de vários opositores, além de impedir María Corina Machado de deixar o país. Como ele, tem atuado com distância em relação à atual gestão interina o ministro da Defesa, Vladimir Padrino. Ambos, na posse de Delcy Rodríguez, pareciam não conseguir esconder o mal-estar. Olhavam para as paredes, e não para a cerimônia, e o cumprimento de Padrino a Delcy foi extremamente frio.
Analistas afirmam que esse setor do chavismo preferia uma atitude de resistência diante do avanço de Trump. Porém, quem de fato vem mandando no país são os irmãos Rodríguez. Extremamente inteligentes e bem formados, são o cérebro do regime há muitos anos. Além disso, carregam a marca de uma tragédia familiar que moldou sua trajetória política.
Jorge Rodríguez pai foi um guerrilheiro marxista, cofundador da Liga Socialista, um movimento militante de esquerda ativo nas décadas de 1960 e 1970. Em 1976, orquestrou o sequestro de um empresário norte-americano, William F. Niehous, que, se dizia, tinha vínculos com a CIA. O grupo de Rodríguez manteve-o refém por três anos. Meses depois do fim do sequestro, Rodríguez foi preso e morreu sob custódia do Estado, depois de ser torturado.
Um diplomata que conhece Delcy e Jorge Rodríguez afirma que ambos alimentam ódio à velha classe política venezuelana e, por isso, se vincularam com tanta paixão ao chavismo. Delcy admite que foi ao exterior estudar direito em Londres e Paris para entender melhor o que havia ocorrido com o pai. Já Jorge é mais discreto, mas concentra imenso poder dentro da estrutura.
Psicanalista e escritor, hoje é o líder do Congresso, mas já foi vice-presidente e ocupou outros cargos. Ambos os irmãos têm adotado um comportamento pragmático em relação aos Estados Unidos. Há quem diga que estão abrandando suas posições, sempre muito radicais; outros afirmam que se trata de pura estratégia para garantir a sobrevivência do regime e mantê-lo no poder, como fizeram nas últimas décadas.Será possível uma reconciliação entre as duas alas? Qual delas prevalecerá? Por ora, apenas se podem distinguir duas estratégias no tabuleiro. O tempo dirá.




