A manchete no Financial Times foi desmentida pelos envolvidos, mas o jornal britânico defende a veracidade do que publicou: Xi Jinping teria dito a Donald Trump, durante a visita do americano a Pequim, que Vladimir Putin deve se arrepender de ter invadido a Ucrânia.
Desde que se tornou presidente da Rússia, há 26 anos, Putin deixa claro que não recua ou se arrepende de decisões, da Tchetchênia à Ucrânia. Quem consulta biógrafos ou figuras na órbita do poder no Kremlin ouve a mesma história do rato contada pelo presidente na sua autobiografia.
No cortiço imundo onde cresceu, em São Petersburgo, o menino Vladimir perseguia ratos com varas de pau, até que um rato, ao ser encurralado, passou a persegui-lo. Putin atribuiu ao episódio grande importância emocional e gosta de intimidar acólitos e adversários com a anedota para deixar claro o preço de tentarem fazer dele o encurralado.
Já entre os mais de 20 milhões de moradores da região metropolitana de Moscou, uma área com enorme peso na economia russa, há sinais evidentes de arrependimento pelo pacto feito há quatro anos, pela elite local. Putin invadiria a Ucrânia, contra a vontade da maioria, mas a capital seria poupada das bombas e dos horrores enfrentados pelos soldados —a maioria de áreas rurais, em desvantagem social e membros de minorias étnicas. A guerra, portanto, não atrapalharia as tardes de compras na luxuosa GUM, na Praça Vermelha.
Mas faltou combinar com o outro Vladimir, na variação ucraniana do nome popular. O presidente Volodimir Zelenski, enquanto se submetia a uma espinafração humilhante no Salão Oval da Casa Branca, estava aprimorando a indústria ucraniana de drones não tripulados.
Na segunda-feira (18), ele mostrou aos moscovitas que as defesas aéreas da capital não podiam impedir uma chuva de bombas que atingiram instalações estratégicas como fábricas e refinarias de petróleo, mas não prédios residenciais como fazem os russos em Kiev.
Apesar de o acesso à internet ter sido reduzido, nas últimas semanas, pela crescente paranoia de Putin, que não vai mais ao Kremlin e circula entre bunkers, era possível encontrar, nas plataformas de rede social ocidentais, vídeos de moradores de Moscou relatando seu pavor e a fuga de prédios altos.
Monitores do conflito registraram, nesta semana, a primeira perda líquida de território ucraniano ocupado pela Rússia desde outubro de 2023. A economia russa, que no começo da guerra se beneficiou com o aquecimento da indústria militar, está entrando em recessão, com previsão de crescimento reduzida a 0,6% em 2026. Em meio à neblina de desinformação, a guerra já fez 1,5 milhão de vítimas, incluindo um número de mortos entre 280 mil e 518 mil, segundo a revista The Economist.
A kreminologia, disciplina que começou analógica, durante a Guerra Fria, hoje é mais imprecisa e depende de ambientes digitais como canais do Telegram. Descontadas as teorias conspiratórias, é impossível negar que a elite russa demonstra nervosismo crescente, embora não se saiba se algum oligarca teve coragem de ser o mensageiro da perda de confiança e arriscou uma previsível queda de um andar alto.
“O maior medo na consciência cultural russa é o caos,” comentou recentemente o historiador Simon Morrison. Ao infligir caos em Moscou, o Vladimir ucraniano está lembrando ao Vladimir russo que o preço de recuar pode ser a própria sobrevivência.




