Antony Vo estava na casa de um amigo na manhã de segunda-feira (18) quando outro manifestante que também recebeu indulto enviou uma mensagem: o governo Trump havia acabado de criar um fundo para beneficiar pessoas que acreditavam ter sido prejudicadas pelo governo federal —incluindo aqueles, como ele, que haviam invadido o Capitólio cinco anos atrás.
Vo, que fugiu brevemente do país para evitar sua sentença de prisão decorrente do motim, disse que não sabia inicialmente que o fundo havia sido criado como parte de um acordo maior do presidente Donald Trump para retirar um processo extraordinário movido contra a Receita Federal americana.
Mas as origens do fundo, disse ele, eram menos importantes do que como isso o fez sentir: surpreso, aliviado e grato ao mesmo tempo. “Fico feliz que isso tenha se transformado em algo que possa ajudar pessoas que estão sofrendo há bastante tempo.”
Essa reação, ao que parece, foi típica entre os chamados “manifestantes do 6 de Janeiro”, que há muito tempo se juntam a Trump ao afirmar que os esforços para responsabilizá-los por interromper a transferência pacífica de poder após a eleição de 2020 equivaliam a maus-tratos pelo sistema de Justiça criminal.
Alguns sentiram que o fundo validou a imagem que têm de si mesmos como vítimas do governo. Outros ficaram eufóricos —embora um tanto atônitos— com a perspectiva de um pagamento. E muitos também demonstraram certa confusão sobre como funcionaria o processo de apresentar pedidos e receber pagamentos.
“Tantas perguntas”, disse Enrique Tarrio, o líder do grupo de extrema direita Proud Boys que foi condenado a 22 anos por conspiração sediciosa decorrente do motim. “Mas é uma boa direção.”
A possibilidade de que pessoas que saquearam o Capitólio, quebrando janelas e brigando com a polícia, pudessem receber dinheiro do mesmo governo federal que atacaram foi a mais recente reviravolta de tirar o fôlego no esforço de reescrever a história do 6 de Janeiro.
Em uma audiência no Congresso na terça-feira (19), Todd Blanche, interinamente à frente do Departamento de Justiça, não descartou que manifestantes violentos recebessem pagamentos do fundo.
Muitos dos envolvidos nos atos de 6 de Janeiro perceberam que, ao considerá-los merecedores de reparações, as autoridades mais poderosas do país efetivamente validaram seus argumentos segundo os quais foram prejudicados pelo governo federal —em muitos casos, amplamente rejeitados por juízes de diferentes orientações políticas que supervisionaram seus processos.
“Este é o Departamento de Justiça dos Estados Unidos rconhecendo a possibilidade de que americanos foram alvos de abuso político do poder governamental”, escreveu Tommy Tatum, um homem do Mississippi que foi acusado de desordem civil por sua participação no 6 de Janeiro, em uma rede social. “Isso é histórico.”
Em um movimento típico de Trump, o presidente minimizou seu conhecimento sobre o fundo, mas ao mesmo tempo o elogiou como necessário, dizendo a repórteres que, embora não soubesse muito sobre a proposta, ela foi criada para indenizar pessoas “que foram tratadas de maneira horrível”.
“Essas eram pessoas que foram instrumentalizadas e realmente tratadas brutalmente por um sistema que era muito corrupto, com pessoas corruptas no comando”, afirmou.
O fundo gerou ampla reação negativa, incluindo entre alguns republicanos. Críticos disseram que a verdadeira corrupção vem de Trump e do Departamento de Justiça, que elaborou os detalhes do fundo em um acordo que nunca foi apresentado ao juiz que supervisionou o processo contra a Receita Federal.
Ao mesmo tempo, especialistas em extremismo de direita levantaram preocupações de que dar dinheiro a pessoas que invadiram o Capitólio —especialmente àqueles que agrediram policiais— apenas fortaleceria a violência política.
“Isso prova que o extremismo compensa, literalmente”, disse Amy Spitalnick, CEO do Conselho Judaico para Assuntos Públicos, um grupo sem fins lucrativos que busca combater o antissemitismo e o extremismo. “Na última década, vimos essa trajetória de teorias conspiratórias das margens se movendo para o mainstream e sendo normalizadas por causa de Trump e outros líderes eleitos.”
“Agora”, acrescentou Spitalnick, “elas não estão apenas sendo normalizadas, estão na verdade sendo incentivadas por estímulos financeiros.”
Nesta fase inicial, muitos condenados pela participação no 6 de Janeiro que depois receberam perdão judicial apenas começaram a especular sobre como poderiam gastar um pagamento do governo. Entre as ideias sendo discutidas: carros novos, casas novas, pagar para remover seus nomes do Google e financiar campanhas políticas.
Eles não são, é claro, as únicas pessoas que poderiam apresentar pedidos ao chamado Fundo Anti-Instrumentalização. O acordo que estabeleceu como ele funcionaria mencionou especificamente outros que poderiam buscar pagamentos —incluindo manifestantes antiaborto que enfrentaram processos durante o governo de Joe Biden e organizações visadas pela Receita Federal “com base em critérios ideológicos impróprios”.
Até alguns dos oponentes políticos de Trump sugeriram ironicamente que também poderiam apresentar pedidos, com base na teoria de que o presidente havia instrumentalizado o Departamento de Justiça contra eles.
Na segunda-feira, por exemplo, James Comey, o ex-diretor do FBI que foi indiciado duas vezes desde que Trump voltou ao cargo, apareceu na CNN, dizendo que —quem diria?— ele poderia pedir dinheiro ao fundo.
“É para compensar pessoas que foram alvos do Departamento de Justiça por, segundo eles dizem, razões pessoais, políticas ou ideológicas”, disse Comey. “Então imagino que estarei na fila.”




