Encontros de Xi com Trump e Putin fazem da China ponto obrigatório de passagem da diplomacia – 22/05/2026 – Igor Patrick

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Prometi na semana passada que falaríamos da visita do presidente americano à China, mas talvez seja mais interessante comparar os contrastes com o líder russo.

Xi Jinping recebeu Donald Trump e Vladimir Putin no mesmo salão, com as mesmas honras militares e com as mesmas crianças agitando bandeiras. A coreografia idêntica foi deliberada, mas o que importa está nas costuras que Pequim deixou visíveis de propósito.

A diferença mais comentada foi a protocolar. Trump foi recebido no aeroporto pelo vice-presidente Han Zheng, cargo cerimonial fora do núcleo decisório do Partido Comunista. Putin também teve Han, mas somado ao chanceler Wang Yi. Na hierarquia formal, Han Zheng tem posição superior, mas na hierarquia real do poder, Wang Yi pesa muito mais.

Pequim calibrou o protocolo para que cada visitante lesse a mensagem que lhe convinha, sem que nenhum pudesse reclamar de tratamento inferior. Com Trump, Xi buscou estabilização, levando o americano ao Templo do Céu e aos jardins de Zhongnanhai, um gesto raro que alimentava o apetite de Trump por tratamento exclusivo.

A visita não terminou com declaração conjunta nem cerimônia de assinatura. Os entendimentos foram anunciados separadamente, incluindo a compra de 200 aviões Boeing e de US$ 17 bilhões em produtos agrícolas que ainda não se sabe quando se concretizarão.

Com Putin houve menos pompa pessoal e mais substância institucional. Os dois países divulgaram uma declaração conjunta de quase 10 mil palavras e mais de 40 acordos.

O contraste mais revelador não está no cerimonial, mas no que cada delegação trouxe. A americana veio com 18 executivos de Apple, Tesla e Boeing. A russa trouxe cinco vice-primeiros-ministros e oito ministros, concentrados em petróleo, energia e bancos. Trump foi fechar negócios, Putin foi buscar um gasoduto.

O “Força da Sibéria 2” transportaria 50 bilhões de metros cúbicos de gás por ano da Sibéria à China, via Mongólia. Foi concebido para redirecionar o gás que antes abastecia a Europa, cortado pelas sanções após a invasão da Ucrânia. A guerra entre Estados Unidos e Irã, que fechou o estreito de Hormuz, deu a Putin um argumento novo para se vender como fornecedor confiável de longo prazo.

Putin saiu de Pequim com afagos e nenhum acordo. O Kremlin falou em “entendimento geral sobre os parâmetros” do projeto, sem cronograma nem valores. Os chineses querem os russos perto o suficiente para preservar a parceria estratégica, mas longe o bastante para não financiar um aliado enfraquecido com compromissos irreversíveis.

O manifesto conjunto de 47 páginas repete muito mais o léxico russo do que o chinês, com concessões russas claras como a aderência ao princípio de Uma Só China. Ao mesmo tempo, critica o Domo Dourado de Trump e condena as sanções ocidentais, um problema que afeta muito mais o Kremlin do que Pequim. Putin conseguiu a assinatura de Xi, mas nenhum cheque.

Na Guerra Fria, os Estados Unidos ocupavam o vértice superior desta dinâmica triangular, jogando China e URSS uma contra a outra. Hoje é Pequim que ocupa esse vértice, não porque manipule as duas potências, mas porque se tornou o ponto obrigatório de passagem da diplomacia global.

O fato de nenhum líder chinês ter recebido um presidente americano e um russo na mesma semana diz menos sobre hospitalidade e mais sobre o reordenamento de poder que já está em curso.


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