
Ao encerrar a Série de Diálogos sobre a África, na sede da ONU, no início deste mês, a conselheira especial Cristina Duarte propôs alterações para se redefinir os recursos hídricos do continente de “ajuda humanitária” para “ativos estratégicos soberanos”.
Pela primeira vez, a gestão da água foi tema do mês do fórum global de alto nível realizado até junho. A subsecretária-geral revelou que a discussão da água e do saneamento no continente não era sob a ótica da beneficência internacional, mas sob a lente da soberania e do desenvolvimento autônomo.
Cristina Duarte disse que o modelo tradicional de desenvolvimento tem de ser desafio, ao exigir uma mudança radical na arquitetura política e financeira global.
A intervenção reavaliou a “perspetiva assistencialista que há décadas domina os orçamentos internacionais”. Para a alta funcionária das Nações Unidas, “classificar o acesso à água meramente como um serviço social ou um projeto humanitário enfraquece a capacidade de governação dos Estados africanos”.
Duarte acredita que a água e o saneamento na África não são serviços sociais nem porções humanitárias que devem ser geridas em torno de orçamentos de desenvolvimento. No lugar disse, “são ativos estratégicos soberanos e devem ser governados como tal.”
A subsecretária-geral declarou que essa distinção “altera de forma profunda todas as decisões institucionais, as criações de orçamentos e as escolhas políticas, querendo uma ligação entre infraestrutura hídrica dos países aos balanços patrimoniais dos Estados”.
Cristina Duarte apresentou dados econômicos e demográficos sobre o peso geoestratégico do continente, com 99% da água doce renovável global. A região abriga ainda cerca de 65% das terras aráveis não cultivadas do planeta.
Além disso, o continente africano possui mais de 600 gigawatts de potencial hidroelétrico, dos quais 89% continuam subutilizados, como explicou a subsecretária-geral.
Com a projetada alta da população mundial, em mais 2,4 bilhões de pessoas até 2050, e a necessidade de que a produção global de alimentos cresça em mais de 70%, o continente africano sai na frente e com vantagem. A região é “o único lugar na Terra onde a combinação de terra, água e força de trabalho existe em escala suficiente para fechar este fosso”.
Duarte alertou ainda sobre a “aritmética predatória” do atual sistema global, na qual investidores estrangeiros compram terras agrícolas africanas a um ritmo acelerado.
Segundo ela, “cada produto agrícola exportado de um campo africano é água africana que sai do continente” numa prática que não é investimento, mas o que ela chama de “extração da África”.
Ela alertou que a incapacidade dos Estados em governar os seus recursos transforma a riqueza nacional num prêmio para os agentes externos.
A solução proposta na Série de Diálogos é uma Gestão Estratégica de Ativos, um acordo político rigoroso que cobre todo o ciclo de vida da infraestrutura incluindo planejamento, construção, operação, manutenção e proteção dos ecossistemas.
Esse modelo tem como objetivo romper o ciclo vicioso de “construção, degradação e reconstrução” que consumiu décadas de capital público com retornos decrescentes.”
Para viabilizar este padrão, Duarte defende que se construam instituições fortes, protegidas dos interesses de extração de curto prazo, e uma nova postura financeira.
Para acabar com a dependência extrema, a África precisa estancar a fuga de capitais e priorizar a mobilização de recursos domésticos com “governos que pagam pelos seus próprios sistemas de água governam melhor”.
Já em relação ao redirecionamento do Financiamento Internacional, ela realça que fundos climáticos e bancos multilaterais de desenvolvimento devem deixar de financiar microprojetos e concentrar-se em investimentos de grande escala. Entre eles estão macrossistemas de irrigação, infraestruturas transfronteiriças e restauração ecológica de bacias hidrográficas.
No fim da última sessão da Série de Diálogos sobre África do seu mandato de liderança na área, Cristina Duarte, fez um chamado à ação para os líderes africanos. A conselheira do secretário-geral da ONU defende que a região não tem um problema de água e que o continente escolheu, por muito tempo, não governar a sua água.
Argumentando que essa escolha “termina”, ela interrogou se não está em questão se o mundo vai desenvolver a água da África. Para ela, a única pergunta que resta e que realmente importa, é se isso acontecerá à moda africana ou sob um modelo externo.
Cristina Duarte lembrou que a União Africana colocou o seu posicionamento para o horizonte estratégico de forma clara, e que a região “deve se beneficiar em termos africanos.”
A subsecretária-geral da ONU lançou como desafio final: “que o continente construa as instituições, os marcos legais e a vontade política necessários para tornar esta escolha de soberania absolutamente irreversível.”
* Eleutério Guevane é jornalista-sênior da ONU News.
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