Nada como o fotojornalismo para eternizar o instante raro. Esta semana rodou mundo uma imagem feita pelo fotógrafo Cheney Orr, da agência Reuters. Foi capturada no último sábado, 4 de julho, data do aniversário de 250 anos da independência americana.
Num vagão de metrô em Washington vê-se uma mulher negra em um dos assentos, cercada por um grupo de supremacistas, homens brancos com rostos cobertos por lenços igualmente brancos. O olhar tenso da passageira diz tudo. Não foi a viagem que ela imaginou fazer.
A imagem remete a uma cena, que de fato nunca chegou a ser fotografada. Aconteceu em primeiro de dezembro de 1955: Rosa Parks, uma mulher negra de 42 anos, depois de dar duro o dia inteiro como costureira de uma loja, pegou num ônibus em Montgomery, no Alabama, voltando para casa. Sentou-se num lugar destinado aos de sua raça, ou seja, na parte posterior do veículo.
O motorista ordenou que ela se levantasse para acomodar um homem branco, seguindo as normas de uma segregação socialmente aceita e protegida. Aquele dia Rosa se recusou a dar o lugar. Foi retirada do ônibus, fichada, multada, presa e assim entrou para a história.
Denunciou o racismo cotidiano, chamando a atenção de Martin Luther King Jr. Por mais de um ano, a população negra da cidade boicotou o transporte público, numa resistência que deu origem a um caso vitorioso da Suprema Corte (Browder v. Gayle), colocando fim a este tipo de discriminação.
Embora não haja o registro do momento da rebeldia, mais tarde Rosa precisaria subir em muitos coletivos, para ser fotografada. Sua figura, esculpida em bronze, está presente em museus americanos.
Não se sabe se Orr teve a intenção de fazer uma foto que lembrasse a costureira, mas ele não poderia perder o instante em Washington: uma jovem negra acuada num vagão de metrô, repleto de supremacistas ostentando o discurso e os símbolos dos que defenderam a escravidão na América. Isso, em 2026. Sabe-se que eram militantes do Patriot Front, organização fascista que prega a ideia de um etnoestado homogêneo nos Estados Unidos.
São amigos de Donald Trump. Foram perdoados por ele. Festejam a seu lado. Dizem agir de forma pacífica, embora colecionem passagens violentas, e se protegem sob o manto da liberdade de expressão.
São o retrato do retrocesso cultural e político dos EUA, já com tantos exemplos. Entre eles, as manobras no redesenho dos distritos americanos, no intento de desestimular a participação eleitoral de minorias raciais. É a prova cabal de que uma parte do país ainda acredita que o voto, assim como outros direitos, não deve ser estendido aos “diferentes”.
O projeto de uma sociedade homogênea, orientada por um nacionalismo racialmente definido, ou seja, branco, avessa à diversidade, vai se disseminando pelo mundo sob diferentes formatos.
Chocante, porém, ilustrativa, foi a reação de uma senadora paraguaia com a performance do craque Kylian Mbappé, no jogo em que a França eliminou o time sul-americano na Copa do Mundo. Chamou-o de camaronês colonizado, metido a francês, ressentido, novo-rico e feio. Até aí, birutices.
Grave mesmo foi dizer que o jogador deveria ter apanhado após a partida. No desejo de aplicar o castigo físico, o extravasamento do ódio racial. A madame senadora queria padecimento.




