A rota dos migrantes cubanos pela Amazônia brasileira, até alcançarem cidades como Goiânia, São Paulo, Curitiba, Florianópolis e Joinville, é marcada por uma atmosfera de clandestinidade, notada quando se refaz os trajetos e quando se busca os pontos de passagem dos grupos decididos à travessia.
Os cubanos são vítimas de um processo de exploração; boa parte deles transita de forma legal e regular pelo país, por deterem o protocolo do pedido de refúgio, após passagem por uma unidade da Polícia Federal na região de fronteira.
A rede que cuida da logística dos deslocamentos —apontada como criminosa pela PF, com suspeitos em Cuba, Suriname, Guiana Francesa e Brasil– é a responsável por tornar a jornada mais tensa, arriscada e deliberadamente oculta.
No porto de Oiapoque (AP), no extremo norte do país, barqueiros e “picapeiros” ou “pirateiros” se irritaram com a abordagem da Folha e se colocaram como “superiores” dos grupos de migrantes, uma relação de hierarquia que não existe. Apressados, orientaram grupos a não falarem com a reportagem.
Num bairro mais afastado do centro da cidade, num pequeno porto de onde é possível avistar a Guiana Francesa no outro lado do rio, barqueiros e vendedores ambulantes se apressaram para dizer, erroneamente, que os cubanos já não chegam mais.
A 600 km dali, no porto de Santana (AP), de onde a travessia prossegue até Belém, vendedores de passagens de barco relataram a prática de extorsão por parte de concorrentes no ramo. Os cubanos “são muito roubados”, dizem esses vendedores, “e em dólar”.
Um inquérito da PF no Amapá identificou 20 “pirateiros” atuando no transporte de migrantes cubanos a partir da entrada no território brasileiro, em Oiapoque, sendo esse um dos núcleos mais decisivos na atuação da organização criminosa que extorque as pessoas que chegam.
A investigação obteve detalhes dessa atuação: um único “picapeiro” movimentou R$ 8 milhões de forma atípica, em dois anos; migrantes foram deixados no caminho entre Oiapoque e Santana por se recusarem a pagar valores exorbitantes cobrados pelo transporte, que chegavam a US$ 350 (cerca de R$ 1.800); motoristas andavam armados, com ameaças constantes.
A PF constatou ainda que batedores em motos seguiam as picapes, como forma de garantir a clandestinidade do transporte. E muitos dos desembarques na beira do rio Oiapoque, seguidos do trajeto pela BR-156 até o porto de Santana, eram feitos de madrugada.
Conforme o inquérito da PF, os “picapeiros” ou “pirateiros” têm um papel central nos crimes de contrabando de migrantes, extorsão, lavagem de dinheiro e câmbio ilegal. Eles atuam como elos com redes transnacionais de migração, segundo a polícia.
Em setembro de 2025, a PF deflagrou uma operação para aprofundar as investigações e para tentar frear a exploração dos migrantes que optam por entrar no Brasil pelo Amapá. Houve busca e apreensão nos endereços de “picapeiros” que atuam em Oiapoque, de uma agente de viagens e de um hotel. No mês seguinte, os fluxos refluíram. Retomaram a patamares normais já a partir de novembro.
A cada revés, a rede de extorsão alterava o modus operandi. A polícia detectou quatro formas de atuação que se alteraram com o tempo para garantir a continuidade da exploração.
Uma prática comum era a formulação de pedidos de refúgio junto ao governo brasileiro, feita por “pirateiros”, com justificativas e endereços de destino idênticos. Um desses endereços era uma casa abandonada em Curitiba, segundo a PF, que aponta os pedidos apenas como um meio para o prosseguimento da viagem até os Estados Unidos, o destino almejado por parte dos cubanos.
No porto em Oiapoque, é comum que “pirateiros” já tenham em mãos os formulários dos pedidos de refúgio preenchidos e impressos, o que acelera o trâmite no prédio da PF, para prosseguimento da viagem pela BR-156.
“Quando cheguei a Oiapoque, em 2023, já havia vários flagrantes de contrabando de migrantes, transporte de passageiros a mais e extorsão”, afirma Jéssica Vanessa Varela, delegada da PF que atuou na cidade e que investigou a atuação das redes de logística aos cubanos. “Quando os pedidos de refúgio eram analisados, muitos já estavam fora do Brasil, em rota de saída pelo Uruguai.”
O inquérito da PF prossegue, numa tentativa de identificar as lideranças do esquema investigado.
Um relatório de 2026 sobre contrabando de migrantes no Brasil, feito a partir de análises da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) e da ONU Migração, afirma ser comum a existência de “olheiros”, que mapeiam movimentações de autoridades que possam reprimir esse tipo de crime.
“O Amapá, e principalmente o município de Oiapoque, caracteriza-se como local exclusivamente de trânsito de migrantes, que permanecem apenas algumas horas nas áreas urbanas. Não há estrutura de assistência ou acolhimento a migrantes. O tema desperta pouca atenção, o que gera invisibilidade do crime e favorece redes de contrabandistas, que conseguem atuar com facilidade”, cita o relatório.
Os fluxos já ganharam uma nova cara, com a ampliação do propósito de permanência no Brasil, como a reportagem constatou ao acompanhar a chegada de migrantes em Oiapoque e ao percorrer os principais pontos de passagem dos cubanos pelo Amapá até a busca por cidades no Sul, Sudeste e Centro-Oeste brasileiros.
O tema desperta pouca atenção, o que gera invisibilidade do crime e favorece redes de contrabandistas, que conseguem atuar com facilidade
Uma família de Santiago de Cuba, cujos membros preferiram não se identificar, disse que seguiria a jornada até Florianópolis e lá permaneceria, por já existir uma rede de compatriotas na cidade. O grupo inclui uma idosa com dificuldade de locomoção e uma criança de 9 anos. O tempo de permanência no Brasil é indeterminado, por enxergarem como irremediável a crise econômica em Cuba.
O grupo aportou na orla de Oiapoque, passou pela PF para o protocolo do pedido de refúgio e o carimbo no passaporte, seguiu em uma picape até Santana e alcançou a embarcação comercial que os levaria até Belém. Nesses pontos e trajetos, havia duplas de homens responsáveis por checagens e garantia da logística, inclusive dentro do barco no porto de Santana.
Reinaldo Cerrado, 40, estava no mesmo barco. Passou a noite na rede, após o longo percurso anterior, e seguiu viagem pelos rios amazônicos. “Minha família já está me esperando em Belém. De lá a gente vai decidir para onde vai”, disse.




