Indicado a embaixador dos EUA é apoiado por empresários – 17/07/2026 – Mundo

Indicado a embaixador dos EUA é apoiado por empresários -


Daniel Perez, 39, ou Danny Perez, como é chamado, é um nome conhecido entre a classe política da Flórida, um dos estados mais importantes dos Estados Unidos. Mas não entre a população.

Entre cubanos ou descendentes de cubanos, como ele próprio, Perez não é tido como uma referência. Entre brasileiros, cuja maior comunidade no país está na Flórida, tampouco. Nos próximos meses, esse político de alto calibre local, mas reduzida base popular, pode desembarcar no Brasil como o novo embaixador de Donald Trump.

A indicação do republicano, atual presidente da Câmara de Deputados do estado, surpreendeu a todos no começo de junho passado, de diplomatas a empresários locais. Mas fez brilhar os olhos do vasto grupo do empresariado brasileiro na Flórida.

O motivo é numérico. O Brasil é hoje o maior parceiro comercial da Flórida e corresponde a 6,2% do comércio de mercadorias do estado.

O deputado Perez é visto como uma figura “pró-comércio” devido à sua atuação em dois mandatos na Câmara, e, para esses empresários, que preferem não expor seus nomes, ele representa alguém que entende a importância econômica do Brasil para os EUA num momento de fricção entre os governos Lula e Trump.

A cautela também é bem-vinda. Os mesmos empresários dizem que o potencial de Perez de mudar algo grandioso na relação bilateral é limitado, visão com a qual coincidem membros do próprio Partido Republicano.

E alguns dos empresários brasileiros, literalmente, dizem: dos possíveis males, Danny Perez representa o menor. O político foi sabatinado no Senado americano na quinta (16), etapa crucial da escolha de seu nome.

Cuba, Ron DeSantis e Rick Scott

Danny Perez é muito próximo a uma figura-chave no Estado que atuou pela indicação de seu nome: o ex-governador da Flórida (2011-19) e hoje senador em Washington Rick Scott, 73.

De todos os políticos da Flórida, Scott é avaliado como aquele que mais buscou alguma proximidade com a comunidade brasileira em sua carreira. Durante suas campanhas de 2014 e 2018, fez eventos com os brasileiros, em churrascarias, que reuniam um publico reduzido, mas influente.

Advogado com atuação principalmente no campo da saúde, Perez pertence à chamada primeira geração —ele é filho de um casal de imigrantes de Cuba que deixou a ilha em 1967. Nasceu em Nova York, mas foi criado em Miami, onde se elegeu deputado. É casado com outra americana descendente de latinos e tem três filhos.

Ele foi eleito com pouco menos de 32 mil votos em 2018 e reeleito em 2020 e em 2024, ano no qual foi nomeado presidente da Câmara da Flórida. Pertence à bancada do condado de Miami-Dade, junto a outros 15 deputados, representando um dos 120 distritos da Flórida.

A indicação de seu nome por Trump foi interpretada pela comunidade cubana na Flórida —extremamente poderosa, como demonstra a própria persona do secretário de Estado, Marco Rubio— como um aceno da importância do grupo para esse governo. O próprio Rubio foi o primeiro cubano-americano a presidir a Câmara da Flórida, cargo hoje ocupado por Perez.

A pressão comercial americana intensificou a dramática crise humanitária na ilha, mas os membros da diáspora que esperavam uma ação militar de Washington ou algo do tipo têm de dobrar a paciência.

Isso não significa que Perez tenha uma atuação marcante em críticas à ditadura de partido único da ilha ou a outros regimes de mesmo viés na América Latina. Ainda que defenda a agenda trumpista na política externa e não dê sinais de contrariá-la, esse sempre foi um tema lateral.

Uma liderança republicana explica que, para a geração de Perez, o eleitorado de Miami deixou de priorizar políticos com discurso sobre agenda externa e se cativou por quem resolvesse os problemas do dia a dia.

A indicação de Perez foi vista, também, como uma forma de premiá-lo por ter contrariado inúmeras vezes o governador da Flórida, o também republicano Ron DeSantis, um desagravo de Trump. E como uma forma de atenuar a fragmentação do partido a nível local, enviando Perez para outra parte do continente: ele e DeSantis estavam em rota de colizão.

Os dois se desentenderam por duas medidas. Primeiro, a proposta de DeSantis de eliminar todos os impostos sob propriedades no estado, fonte importante de ingressos para os cofres públicos. Segundo, a ideia de limitar a instalação de data centers para abastecer o crescimento da inteligência artificial no estado. DeSantis argumentava que o custo com os gastos para energia elétrica era alto demais para os moradores; Perez, que IA representa o futuro.

É a economia

A Flórida é o estado americano mais dependente do Brasil em sua balança comercial. Ainda que o Texas, sozinho, represente 20% de todo o comércio bilateral dos EUA com o Brasil, seguido pela Flórida (15,4%), é o estado da Costa Leste o que mais conta com o país em sua balança local.

No lado de exportações, o comércio está concentrado em peças para aeronaves, semicondutores e outros componentes eletrônicos. Do lado de importações do Brasil, há mais diversidade de produtos, incluindo também peças de aeronaves, mas, em especial, o suco de laranja. A balança é deficitária para o Brasil em US$ 147 milhões.

O setor é dominado pela presença da brasileira Embraer. A gigante aeronáutica tem uma fábrica em Melbourne, na Flórida, com capacidade de montagem, além de um centro de distribuição, logística e treinamento no aeroporto de Fort Lauderdale.

O ecossistema bancário brasileiro também tem se ampliado, com a presença de instituições como o Banco do Brasil, o Bradesco e o Inter. O NuBank recebeu neste ano autorização para operar no país.

A internacionalização de empresas brasileiras de médio e grande porte para a Flórida tem crescido. Empresários buscam a proximidade cultural, dado que ao redor de 500 mil brasileiros vivem no estado, e que a comunidade latina é predominante, além de benefícios fiscais.

Os empresários que falaram à reportagem opinam que Danny Perez pode ser mais sensível à agenda da importância brasileira, por entender a dinâmica local e por ser próximo de figuras como Rick Scott, que valorizam a comunidade.

Quando (e se) Danny desembarca no Brasil

Ainda há estrada para que o presidente da Câmara da Flórida possa desembarcar no Brasil. Causou incômodo no governo Lula o fato de Trump tê-lo indicado como embaixador sem antes ter pedido o “agrément” ao Brasil, processo pelo qual o país manifesta se concorda ou não com o nome. A consulta só foi feita um mês depois.

Mas ele também tem um caminho a percorrer no próprio país. Ainda precisa ser aprovado em votação no comitê de Relações Exteriores e em plenário.

Perez ainda tem de fazer um curso da escola preparatória do Departamento de Estado dos EUA. Além de aulas de português, deve passar por uma espécie de introdução ao Brasil que dura meros cinco dias, onde são abordados temas gerais de história, sociedade, economia e política.

Caso de fato troque a Flórida pelo Brasil, ele promete deixar uma herança. Sua irmã, Ashley Perez-Biliskov, uma fonoaudióloga, lançou-se para ocupar a vaga do irmão na Câmara.



Fonte CNN BRASIL

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