Governo Lula estima que tarifaço atinja 18% das exportações aos EUA e anuncia ajuda a empresários



MARCOS HERMANSON E NATHALIA GARCIA
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou nesta quinta-feira (16) um reforço ao programa Brasil Soberano, que oferece linhas de crédito a empresários afetados pelo tarifaço americano.

A medida é uma resposta à sobretaxa de 25% anunciada pelo governo de Donald Trump, que deve ser implementada a partir da próxima quarta-feira (22). Ainda não há detalhes sobre o valor do auxílio ou as condições de acesso aos exportadores brasileiros.

Segundo o governo, o tarifaço anunciado na noite desta quarta (15) atinge 18% das exportações brasileiras aos EUA, ou cerca de US$ 7,4 bilhões (R$ 38 bilhões), considerando dados de 2024.

“Se nós considerarmos 2025, a participação desses setores atingidos por esse tarifaço indevido cai para 15% ou US$ 5,8 bilhões (quase R$ 30 bilhões)”, complementou o ministro Márcio Elias Rosa (Indústria, Comércio e Serviços).

Outras instituições calcularam valores diferentes. A CNI (Confederação Nacional da Indústria) afirma que a nova rodada colocará em risco o equivalente a 26% da pauta de exportações brasileiras aos EUA. A MB Associados estima que US$ 9,51 bilhões, ou 25,2% do valor exportado para território americano, estão expostos ao tarifaço, com base em números de 2025.
Máquinas e equipamentos, madeira e móveis e borracha e pneus são os setores mais atingidos, segundo a MB.

Além de Elias Rosa, participaram do anúncio os ministros Dario Durigan (Fazenda), Mauro Vieira (Relações Exteriores) e João Paulo Capobianco (Meio Ambiente). Também estavam presentes o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e a secretária nacional de Justiça, Maria Rosa Guimarães.

Alckmin descreveu a medida anunciada pelos EUA como “injusta e descabida” e repetiu argumentos já utilizados pelo Brasil na discussão do tarifaço, lembrando que os EUA têm superávit comercial com o Brasil, e que o Pix, um dos alvos dos EUA, não prejudicou as empresas de cartão de crédito.

“Trata-se de interferência externa indevida”, disse o ministro da Fazenda, acusando a oposição de usar as novas tarifas como “muleta eleitoral”. Durigan afirmou que o governo reforçará o Brasil Soberano, uma linha de crédito para exportadores afetados pelo tarifaço e pela guerra no Irã, e afirmou que os ministros levarão a opção pela Lei de Reciprocidade ao presidente Lula, a quem caberá a decisão final.

Ele não deu detalhes sobre o valor que será destinado ao plano, embora tenha dito que espera um montante inferior ao que foi destinado em versões anteriores. Em agosto de 2025, o governo ofereceu R$ 30 bilhões, e em março deste ano, R$ 15 bilhões remanescentes da primeira linha.

“Rapidamente a gente vai ouvir os setores [econômicos] e reforçar as linhas já existentes do Plano Brasil Soberano”, disse Durigan.

As autoridades presentes buscaram desconstruir os argumentos mobilizados pelos EUA para justificar a aplicação de tarifas contra o Brasil. A secretária nacional de Justiça classificou como “falsas e injustas” as alegações sobre combate à corrupção utilizadas no relatório do USTR.

“Gostaria de destacar que [o dossiê americano cita] o relatório da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) de 2023, que trata, na verdade de dados do governo anterior, quando nós já temos o relatório de 2026 da OCDE, que reconhece os avanços relevantes do Brasil no fortalecimento das políticas de combate à corrupção, à lavagem de dinheiro e ao crime organizado”, afirmou.

O ministro João Paulo Capobianco, do Meio Ambiente, destacou esforços do governo para o combate ao desmatamento e a redução dos índices de desmatamento desde 2023 -embora tenha implementado uma pauta antiambiental à frente do governo, a gestão Trump acusou o Brasil de não fazer o suficiente para combater o desmatamento.

“Verificando que seria impossível seguir acusando o Brasil de aumentar o desmatamento de forma descontrolada, apareceram com uma nova informação, essa ainda mais falsa: de que o Brasil estaria desmatando ilegalmente e inundando o mercado internacional com madeiras de origem ilegal” disse o ministro. “Isso é absolutamente inverídico”.

Para o presidente do Banco Central, os argumentos contra o Pix são o caso mais “flagrante” das desculpas dadas pelos americanos para aplicar tarifas contra o Brasil. Na investigação, o governo de Donald Trump acusou a autoridade monetária de favorecer o sistema de forma injusta e discriminatória em relação a outros meios de pagamento.

Em sua fala, Galípolo ressaltou que, desde a implementação do Pix, o mercado de cartões de crédito cresceu 150% e que foram os cheques e o dinheiro físico que perderam espaço.

Ele também destacou o Pix como referência internacional e disse que o BC já assinou com mais de 47 bancos centrais algum tipo de cooperação técnica para a transferência de tecnologia para desenvolvimento de sistemas de pagamentos instantâneos.

“Do lado do Banco Central, a gente vai seguir sempre fornecendo o Pix como algo gratuito, seguro e instantâneo e seguir na evolução técnica do Pix em cooperação com outros bancos centrais para que cada vez mais a população brasileira possa ter acesso a serviços financeiros de maneira mais segura, mais rápida e com maior inclusão financeira”, disse.

Após a decisão do governo americano, o secretário de Estado, Marco Rubio, culpou o presidente Lula pela nova sanção ao país sob o argumento de que o chefe do Executivo e o governo brasileiro não negociaram com os EUA de boa-fé.

“Suas políticas econômicas são ruins para os americanos e ruins para os brasileiros. No último ano, Lula colocou seu próprio ego à frente de fazer um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço por isso”, escreveu Rubio.

Os ministros defenderam a postura do governo brasileiro ao longo das tratativas. Segundo o chanceler Mauro Vieira, foram mais de 30 encontros, incluindo conversas virtuais e presenciais em níveis presidencial, ministerial ou técnico.

“Age com boa-fé quem atua com base na realidade e na verdade. Nós atuamos com boa-fé em todo esse processo”, rebateu Elias Rosa. “Jamais nos distanciamos da verdade. Por isso, não é justo que nos atribuam a atuação de outro modo que não o modo respeitoso da lealdade e da boa-fé. O Brasil continua firme, forte e à disposição para negociação.”

No início da madrugada, em nota oficial, o governo condenou a nova rodada de tarifas americanas e disse que iniciará imediatamente os trâmites para acionar a Lei de Reciprocidade, que permite ao Brasil retaliar barreiras comerciais injustas. Um dia depois do anúncio, as autoridades disseram que ainda vão analisar o momento adequado e a forma de agir.

“Nós temos a Lei da Reciprocidade, aprovada por unanimidade no Congresso Nacional, que o governo, no momento adequado, saberá como implementar”, afirmou Alckmin. Como adiantou a Folha de S. Paulo, o governo já estudava aplicar as medidas previstas na lei na véspera do anúncio americano.

A expectativa do governo brasileiro é que todos os países que estão na mira da investigação conduzida pelos EUA com base na Seção 301 sobre trabalho forçado sejam tarifados em 12,5%. A equipe econômica, contudo, tem dúvida se essa tarifa será cumulativa à sobretaxa de 25%, o que faria com que alguns produtos brasileiros chegassem a 37,5% de taxa.

“Nós vamos ficar sabendo na semana que vem, provavelmente na quinta-feira que vem [23], se será cumulativo ou não […] Eu diria que é muito provável que todo mundo fique com aquilo que foi recomendado”, disse Elias Rosa.



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