Peru: Centros fecham com atraso após problemas na votação – 12/04/2026 – Mundo

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Os centros de votação no Peru fecharam às 18h locais (20h em Brasília) deste domingo (12), com uma hora de atraso, após diversos locais de votação registrarem filas e aglomerações devido a problemas na instalação das mesas eleitorais, levando a polícia a entrar no órgão responsável pelo pleito no país para uma investigação. Até as 20h30 de Brasília, eleitores dentro dos locais de voto ainda depositavam suas cédulas.

Segundo boca de urna da empresa de pesquisas Ipsos, Keiko Fujimori ficou em primeiro lugar, com 16,6%, seguida de Roberto Sánchez, Ricardo Belmont, Rafel López Aliaga e Jorge Nieto em empate técnico, confirmando a previsão de segundo turno.

No parque Tradiciones, por exemplo, em um abastado distrito de Lima, a distribuição do material eleitoral começou apenas às 10h20, mais de três horas após o início da votação. Na mesma região, um vídeo que circulou em grupos de WhatsApp mostrava dezenas de pessoas diante de uma escola aos gritos de “queremos votar!”.

No sul da capital, o colégio Rodrigo Lara Bonilla ainda estava com as portas fechadas no meio da tarde, de acordo com a imprensa local. Materiais eleitorais não foram entregues em 15 seções da região metropolitana de Lima, segundo o chefe do ONPE (Escritório Nacional de Processos Eleitorais, na sigla em espanhol), Piero Corvetto.

Segundo ele, mais de 63 mil eleitores não conseguiram votar. Os problemas fizeram o órgão adiar o fim da votação para as 18h. “Pedimos desculpas pelos problemas logísticos”, afirmou Corvetto.

Na porta do ONPE, cerca de 15 pessoas protestavam contra o órgão. “Eu não consegui votar”, afirmou o administrador Eliud Aguilar, 29. “As eleições no Peru são decididas por 20 mil votos. Pode ter alterado o resultado.”

O caos na jornada eleitoral coroa a crise política que alçou nove pessoas à cadeira presidencial da nação na última década e contaminou os locais de votação com uma atmosfera de desânimo.

“Espero que seja eleito um presidente que não se alinhe com o Congresso, formado por deputados corruptos que mudaram diversas leis a favor deles”, afirmou Carlo Ruíz Molina após votar, no sul de Lima. O profissional autônomo se refere ao poder que o Legislativo acumulou nos últimos anos, destituindo presidentes em série em meio a escândalos de corrupção e protestos massivos.

“Quem escolhe o presidente é o Legislativo. Se não gostam de um presidente, simplesmente o tiram de lá. E não há um Poder que consiga regular isso hoje”, afirma ele, que não revelou seu candidato, mas sim seu critério de escolha: “Sei que não há ninguém do partido dele no Congresso”.

Uma das mudanças mais drásticas que os deputados levaram a cabo foi a recriação do Senado por meio de uma lei aprovada em 2024 a despeito de, em 2018, mais de 90% dos eleitores terem rejeitado o retorno de um Congresso bicameral em um referendo.

Trata-se do tipo de intransigência que fez a impopularidade do Legislativo ter saltado de 60% em 2021 para 87% no começo deste ano, de acordo com uma pesquisa do Instituto de Estudos Peruanos.

“Com o perdão da palavra, me parece uma estupidez”, afirmou Molina sobre o voto para senador —o primeiro de sua vida. “É mais do mesmo.”

Os presidenciáveis começaram o dia com seus respectivos “desayunos electorales” —uma das heranças deixadas pelo ditador Alberto Fujimori, morto em 2024, ao Peru. Foi ele que, em 1990, ano em que derrotou o Nobel de literatura Vargas Llosa, deu início à tradição de fazer um café da manhã repleto de comidas populares com eleitores e jornalistas.

O de sua filha Keiko ocorreu no restaurante Don Carhuas, a seis quadras do Campo Fe, o idílico cemitério onde Fujimori está enterrado. Antes de começar a refeição diante das câmeras, a candidata foi ao local para depositar flores no túmulo de seus pais.

“Esta é a primeira vez que vamos a uma eleição sem meu pai e minha mãe”, afirmou ela à imprensa ao lado da sepultura. No café da manhã, voltou a falar do ditador. “Eu gostaria que quem estivesse falando aqui hoje fosse meu pai”, disse.

Trata-se do sétimo café da manhã eleitoral de Keiko —um para cada votação da qual a política participou. Desde 2011 ela tenta ser presidente, mas naufraga no segundo turno. Neste pleito, assim como nos outros, está entre os líderes das pesquisas de opinião, embora chegue a apenas 15% das intenções de voto.

O desencantamento dos peruanos pela política do país, aliado à alta fragmentação, costuma favorecer a candidata em um primeiro momento. Neste domingo, por exemplo, os eleitores precisaram escolher entre 35 presidenciáveis, o que rendeu uma cédula de 44 centímetros de comprimento.

Por outro lado, a liderança de Keiko no Congresso, onde o partido que preside, o Força Popular, tem o maior número de cadeiras, torna difícil a tarefa de se desassociar do caos político da última década.

No café da manhã, ela fez mais uma tentativa ao afirmar que integrantes mais agressivos da sigla já não são aliados e que, na destituição do ex-presidente José Jeri, em fevereiro deste ano, o Força Popular teria se oposto e feito um “chamado à reflexão” em nome da estabilidade.

“Recuperar a paz, a ordem e a tranquilidade —esta é minha motivação”, afirmou Keiko, sentada entre as filhas adolescentes e membros de sua equipe, todos vestidos de branco.

O Peru enfrenta uma crise de segurança que fez as taxas de homicídio duplicarem em dez anos, chegando a 10,7 a cada 100 mil habitantes em 2025, e a violência virar o principal problema do país para mais da metade da população.

Para enfrentar esse problema, uma das políticas que Keiko pretende resgatar de seu pai é a de tribunais com “juízes sem rosto” —medida controversa que oculta a identidade de magistrados em casos sensíveis, mas que levou à prisão de centenas de inocentes no Peru, de acordo com organizações de direitos humanos.

Essa nem sequer é a proposta mais radical do pleito. O ex-prefeito de Lima Rafael López Aliaga, que tenta ser um Donald Trump latino, chegou a falar em construir colônias de reabilitação na floresta cercadas por cobras venenosas e emitir documentos de identidade para fetos, por exemplo.

O candidato começou liderando as pesquisas de intenção de voto, mas viu sua popularidade cair após chamar de “gente de merda” pessoas que jogaram ovos no palco em que ele estava para um comício na cidade de Andahuaylas.

“Por causa dessa gente de merda o Peru não está progredindo. Desculpa, mas é isso. Por causa desse lixo de gente. Eles vão receber o que merecem”, afirmou ele, em sua habitual retórica. Ao longo da campanha, ele usou as expressões “porta-voz da criminalidade” e “bastardo” para se referir a jornalistas.

Já o candidato Ricardo Belmont fez o caminho inverso, crescendo nas intenções de voto nas pesquisas mais recentes. Longe do Congresso desde 2011, o empresário conseguiu a façanha após um corte no qual um adversário elogiou seu período à frente de Lima, no início da década de 1990, viralizar.

Por trás da até agora exitosa campanha do candidato de 80 anos nas redes sociais está a sua filha de 18 anos, Kristen Belmont Bazalar —amiga de Kiara Villanella, filha mais velha de Keiko.



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