A derrota do governo de Viktor Orbán nas eleições parlamentares da Hungria pode inaugurar uma nova era nos debates ocidentais, quando nem conservadores nem progressistas serão tentados a tirar lições abrangentes de um pequeno país sem litoral e uma população menor que a do estado de Michigan.
Mas antes que a tentação diminua, deixe-me ceder a ela apenas uma vez. E como a lição óbvia da Hungria para o Partido Republicano —uma tentativa de construir uma nova ordem conservadora fracassará se for percebida como autoritária e corrupta— provavelmente chega tarde demais para o governo de Donald Trump, quero me concentrar em realidades que os progressistas podem considerar enquanto comemoram a derrota do orbanismo.
A primeira lição é que a democracia ocidental sob condições populistas é mais resiliente do que um certo tipo de análise ansiosa sugere. Há uma distinção muito importante entre ter um líder que faz movimentos autoritários e realmente ser um Estado autoritário; e o caminho do primeiro cenário para o segundo não é uma simples questão de acionar um interruptor chamado “autocracia”.
Orbán governou a Hungria, um país com uma tradição democrática frágil, por longos 16 anos e, ainda assim, apesar do poder que seu círculo exercia sobre a indústria e a mídia, sua ascensão e queda acompanharam a ascensão e queda de seu apoio popular.
A Hungria tinha uma imprensa majoritariamente submissa e um Parlamento manipulado por gerrymandering [ manipulação deliberada de distritos eleitorais]. Mas não era a Alemanha Oriental ou a Rússia de Vladimir Putin: quando o povo se cansou de Orbán, ele se foi.
Isso não é um argumento de que seria perfeitamente aceitável se um presidente americano (de qualquer partido) consolidasse tanto poder quanto Orbán desfrutou. É apenas um argumento para não viver dentro de cenários de pior caso em que os Estados Unidos —uma sociedade nada parecida com a Hungria, com uma vasta gama de centros de poder concorrentes e séculos de tradição democrática— estão a uma eleição ou a um chefe do Executivo cesarista de distância de uma ditadura permanente.
Isso leva à segunda lição da Hungria para os progressistas, a de que a melhor resposta política ao populismo geralmente é lidar com suas demandas políticas concretas, em vez da insistência de que uma emergência democrática exige o apoio das pessoas ao establishment, não importa o quê houver.
Péter Magyar, o futuro primeiro-ministro húngaro, concorreu contra a corrupção orbanista, mas de resto prometeu sua própria forma de nacionalismo e até se posicionou à direita de Orbán na imigração. No processo, ele validou a teoria mais básica de como responder a uma era populista: “Mova-se para a direita cultural, especialmente na imigração.”
É uma admoestação simples, mas que líderes do establishment tanto na Europa quanto na América acharam quase impossível seguir, preferindo tratar suas vitórias eleitorais periódicas como oportunidades para retornar —como o fez o governo Biden, para sua própria destruição— às mesmas políticas que provocaram a rebelião populista em primeiro lugar.
Essa tentação permanece poderosa, com várias autópsias do orbanismo servindo também como epitáfios para toda a era pós-liberal, retratando sua cena intelectual especialmente como uma vila de Potemkin financiada pela generosidade húngara.
Isso me leva ao terceiro ponto que gostaria que os progressistas internalizassem: a crise da ordem pós-Guerra Fria existe independentemente dos aspirantes a intelectuais “pós-liberais”, incluindo os escritores e pensadores que o governo de Orbán apoiou.
Fechem os cafés de Budapeste batizados em homenagem a Roger Scruton, expurguem a universidade conservadora que Orbán construiu, e isso não terá nenhum efeito nas perspectivas dos partidos de direita em nações consideravelmente mais importantes, como França, Alemanha e Reino Unido.
Isso porque os fenômenos do populismo e do nacionalismo são reações orgânicas a uma era de migração em massa, taxas de natalidade em colapso, desindustrialização e anomia digital. Intelectuais conservadores se apegaram à reação, mas não a criaram. Não se lida com a era pós-liberal cortando o financiamento de conferências acadêmicas de direita.
Finalmente, também não se lida com este momento até a constatação de que não são apenas os populistas que podem ser antidemocráticos ou iliberais. O orbanismo emergiu inicialmente como uma reação popular às imposições da União Europeia, um arranjo político que às vezes é descrito de forma insípida como sofrendo de um “déficit democrático”.
O que significa que frequentemente permite que uma casta burocrática ignore a opinião pública e atropele a soberania nacional. E Orbán compartilhou um continente na última década com governos que, em nome do liberalismo, perpetuam suas próprias tiranias brandas, sua própria violação dos direitos humanos e da dignidade humana.
Não é a Hungria, mas o Reino Unido que regularmente prende e encarcera seus cidadãos por postagens em redes sociais. Não é a Hungria, mas a Finlândia e a Islândia onde cristãos podem enfrentar assédio legal por expressar visões tradicionais sobre sexualidade e casamento. Não é na Hungria, mas na Holanda que jovens sofrendo de condições psiquiátricas podem ser submetidos à eutanásia.
E não é uma defesa do lugar onde o orbanismo terminou, em corrupção e derrota, sugerir que muitas instituições que imaginam estar tratando uma infecção iliberal em algum lugar lá fora, entre a plebe, precisam urgentemente curar a si mesmas.




