“Acabei de voltar da minha primeira visita à Cisjordânia desde 2023. O que vi naquele momento foi perturbador, mas hoje a situação é pior. Trata-se agora de um processo de anexação israelense de terras palestinas, ousado e agressivo, que se desenrola à vista de todos […]. Cheguei a uma conclusão: o governo do primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, pretende fazer com que a Palestina desapareça física, econômica, cultural e politicamente.”
Esse é o trecho de uma carta de Mary Robinson, 84, ex-presidente da Irlanda e ex-alta comissária da ONU para direitos humanos. Pode ser lida no site da The Elders (Os Anciões, em português), organização criada por Nelson Mandela, em 2007, que reúne líderes globais na defesa da paz e da justiça.
Alguns dos “anciãos fundadores” já faleceram, caso do ex-presidente americano Jimmy Carter e do arcebispo sul-africano Desmond Tutu, ambos Nobel da Paz. Outros tornaram-se membros eméritos, como os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e o chileno Ricardo Lagos. Outros vão à luta, como Mary Robinson.
Ela visitou a Cisjordânia com três parceiras da organização: Graça Machel, ex-ministra da Educação de Moçambique, viúva do primeiro presidente daquele país e do próprio Mandela; Helen Clark, ex-primeira-ministra da Nova Zelândia, e Hina Jilani, advogada paquistanesa que atua em defesa dos direitos humanos.
A incursão desse quarteto de mulheres notáveis, em zona tão conflagrada, mostra que trincheiras morais ainda têm serventia.
Na carta, Mary repassa o que viu em aldeias palestinas, atacadas várias vezes ao dia. Ela entrou em postos de saúde que funcionam uma vez por mês. Fugiu de carro quando colonos judeus de um assentamento as ameaçaram. Identificou as múltiplas faces da violência sistemática.
O grupo também foi recebido por Isaac Herzog, presidente de Israel, cujas funções são representativas. Herzog se queixou de que a comunidade internacional não entende o que o país viveu em 7 de outubro de 2023. Foi acolhido no comentário, mas ouviu que aqueles crimes horríveis não justificam a resposta desproporcional de Israel: uma devastação com mais de 70 mil mortos.
Elegantes e impertinentes, as mulheres questionaram Herzog sobre o aumento da violência doméstica e dos suicídios em Israel. E advogaram a libertação de Marwan Barghouti, ex-líder do Fatah, defensor dos dois Estados. Barghouti, o “Mandela da Palestina”, resiste há 24 anos numa prisão israelense, tendo passado por torturas. Mary e amigas entendem que sua libertação abriria perspectivas de paz.
A viagem continuou em Bruxelas, onde cobraram voz da União Europeia pelo fim dos conflitos, e a próxima parada deve ser a Assembleia-Geral da ONU, em Nova York, em setembro. “O direito histórico à autodeterminação do povo palestino não pode desaparecer”, arremata Mary na carta, antes das despedidas de praxe.
O périplo dessas senhoras incomoda. Acontece quando o primeiro-ministro Netanyahu e sua coalizão ultradireitista tentam sobreviver às eleições de outubro; quando faz água o plano da paz de Donald Trump, incluindo desarmar o Hamas, enquanto crescem ataques a Gaza; quando observadores alertam sobre hostilidades israelenses na mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém, podendo levar a um levante do mundo islâmico; e quando o plano de limpeza étnica em curso empurrará para a vizinha Jordânia, mais uma vez, levas e levas de palestinos deserdados de tudo.




